Uma taça de vinho e um livro. Ou vários livros. E várias taças. Existem muitas formas de fazer boas harmonizações com vinho e não necessariamente todas as combinações envolvem comida. Bons momentos, lembranças, viagens, companhias – e essas companhias, entenda, nem sempre precisam ser físicas. Mas por mais paradoxal que isso possa ser, a solitude pode ser compartilhada.
Sim, porque ler é, por definição, um ato solitário. Solitário e voluntário: a pessoa escolhe ler, escolhe ficar consigo mesma por determinado tempo concentrada, focada, atenta aos estímulos que vêm do papel, e que atingem cada um das formas mais diferentes possíveis. E solitude é o estado de estar sozinho de forma voluntária e consciente, aproveitando sua companhia: ler é isso.
Para muitos, ler com uma taça de vinho ao lado é perfeito. E foi pensando nisso que uma dupla de apaixonadas por vinhos e livros criou o projeto Adega Literária, uma iniciativa que desde maio de 2025 mensalmente reúne na Serra Gaúcha pessoas que têm isso em comum. De lá pra cá 33 criaturas já degustaram 30 garrafas de vinho e compartilharam a leitura de cinco livros, totalizando 1.072 páginas. “Se a Adega mantiver o ritmo, em 10 anos teremos lido mais de 10 mil páginas — um doutorado informal em literatura contemporânea”, brinca Ana Paula Valduga, uma das idealizadoras do projeto.

O próximo encontro terá como tema o livro Capitães da Areia, um clássico da Literatura Brasileira assinado pelo escritor Jorge Amado. O Adega de fevereiro será dia 26 no Tubuna, em Bento Gonçalves (RS), das 19h às 21h, ao custo de R$ 150 por pessoa, nesse preço estão incluídos degustação de vinhos e alguns petiscos preparados especialmente para a ocasião.

A Adega Literária é uma iniciativa independente que se propõe a incentivar o hábito da leitura e traz a cada mês um livro para harmonizar com vinhos e ideias. O projeto nasceu de duas mentes criativas e inquietas. Ana Paula Valduga (ao fundo) é arquiteta, mas foi no vinho que se encontrou. O sobrenome carrega uma tradição centenária na região da Uva e do Vinho no Rio Grande do Sul, e Ana não fugiu à regra. Mas apesar de trazer uma marca forte junto a sua identidade, Ana foi por outro caminho. É uma das sócias da Vallontano, ao lado da irmã, Talise e do cunhado, o enólogo Luís Henrique Zanini. “Para mim o vinho é muito mais do que uma bebida: é cultura, é narrativa, é memória líquida”, conta Ana Paula, “mas minha primeira grande paixão surgiu ainda na infância: a leitura. Passava horas entre páginas que me transportavam para outros tempos e mundos. Como uma criança apaixonada por livros, meu sonho era crescer e ser bibliotecária”, lembra.
Larissa Verdi (em primeiro plano) é jornalista, sommelière e apaixonada por vinhos. É dela a responsabilidade da carta de vinhos do Vale Rústico, um dos mais tradicionais – e premiados – restaurantes do Vale dos Vinhedos: “atualmente conduzo duas confrarias de vinhos, e meu maior descanso e prazer é ler um bom livro bebendo uma taça de vinho”, diz Larissa, “a Adega é um espaço para trocar ideias e nos inspirar mutuamente a ler mais, harmonizando isso tudo com incríveis vinhos da região”.
(E é um espaço inspirador e que te deixa à vontade mesmo, como comprova a foto abaixo onde apareço lendo de costas e descalça, feita no Adega Literária de janeiro, na vinícola Vallontano, no Vale do Vinhedos)

Fotos: Maria Alberici
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