Aracuri, Famíla Lemos de Almeida e Sopra: as vinícolas boutique de Muitos Capões 

Aracuri, Famíla Lemos de Almeida e Sopra: as vinícolas boutique de Muitos Capões 

(Vinhedos da Família Lemos de Almeida: foto Brasil de Vinhos)

Numa sequência de três dias de publicações, o Brasil de Vinhos apresenta uma série de matérias mostrando um pouco da região vitivinícola dos Campos de Cima da Serra, um belo destino enoturistico que merece ser mais conhecido e visitado. Na primeira parte, mostramos o pioneirismo da Rasip e o grande investimento da Campestre, em Vacaria. Nesta sequência, Aracuri, Lemos de Almeida e Sopra, em Muitos Capões, projetos que nasceram nichados e que aos poucos vão ganhando visibilidade e reconhecimento pela qualidade dos seus vinhos e pelas novas opções turísticas que oferecem, que é o caso da Vila Açoriana edificada pela Família Lemos de Almeida. A série será finalizada apresentando a vinícola Sozo, em Monte Alegre dos Campos. 

Boa leitura.  

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Pouco menos de 40 quilômetros separam Vacaria de Muitos Capões, município onde três das seis vinícolas visitadas têm – ou tinham – seus vinhedos: Aracuri, Sopra e Família Lemos de Almeida. Quatro, se contarmos outra área também pertencente à Rasip. Área aliás, onde foi implantado um vinhedo da então empresa de fruticultura, sugerido por Henrque Aliprandini, engenheiro agrônomo à época funcionário da Rasip, hoje sócio da Aracuri ao lado de João Meyer. “Sugeri a área ao Raul por ser um local onde chovia menos, em tese deveria se conseguir melhores resultados, o que realmente aconteceu”, lembra Aliprandini, mais de 20 anos depois. 

Nos 10 hectares de vinhedos implantados pela Aracuri em 2005 (foto acima, divulgação Aracuri) em solo pedregoso e drenado, os sócios cultivam Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Chardonnay e Sauvignon Blanc, todas as variedades originadas de mudas produzidas pela Rasip. A produção resulta em 15 rótulos, entre eles quatro espumantes – a única uva que vem de fora é a Tannat, de Santana do Livramento, na Campanha Gaúcha.  

Depois de colhidas as uvas descem a Serra em caminhões refrigerados onde são levadas até Caxias do Sul, para vinificação na EVB, com Alejandro Cardozo. “Vinificamos com Alejandro desde que ele estava na Piagentini, fomos apresentados ao enólogo por Mauro Zanus, pesquisador da Embrapa”, lembra Aliprandini. A vinícola tem varejo e receptivo em Vacaria, onde também realiza pequenas degustações e harmonizações.  

A agrônoma Claudia Cardoso, há dois anos na Aracuri, é presença constante em todas as etapas: no vinhedo, acompanhando o desenvolvimento das vinhas, na cantina, onde faz parte dos processos de vinificação, provas e testes, e no varejo, onde responde pelo comercial e receptivo. “Há períodos mais puxados, como a safra”, diz ela, “ou no meio do ano quando é chegada a hora de fazer as provas para compor os blends”, afirma. 

A primeira produção da Aracuri data de 2007, mas a vinícola foi apresentada comercialmente em 2010. “Atualmente grande parte das nossas vendas, em lotes pequenos e numerados, de 1,5 mil a 2 mil garrafas, acontece em São Paulo e Rio de Janeiro”, pontua, explicando que em 2024 a Aracuri produziu cerca de 15 mil garrafas, 40% a menos que no ano anterior. 

“Os vinhos produzidos nos Campos de Cima da Serra têm bastante acidez – o Pinot Noir é um exemplo perfeito disso – são bons de tomar, mas para iniciantes na bebida não é fácil”, avalia Monique Aliprandini. A engenheira agrônoma filha de Henrique complementa ainda que essas características vêm do terroir da região: “a maturação fenólica dos aromas vem do campo, é um lugar muito propício”, conclui. 

Durante esse percurso quase não falamos da Cabernet Sauvignon, uma das uvas mais, digamos, populares entre os brasileiros. Mas não falamos até darmos a palavra a Henrique Aliprandini: “a Cabernet Sauvignon foi defenestrada aqui na região, mas para a Aracuri foi a melhor das uvas”, comemora, “tivemos safras fantásticas”. Segundo ele, o cultivo da uva é difícil, é uma produção não estável, ao contrário, por exemplo, da Sauvignon Blanc, a mais padronizada de todas na avaliação do agrônomo. “Cada vinho, cada vinícola tem sua peculiaridade, a nossa é a acidez”, resume Aliprandini (à direita na foto acima, ao lado do sócio João, foto divulgação Aracuri). 

Espaço para o enoturismo 

E novidade, que pode ser também um sinônimo para frescor, é algo que percebemos, e muito, na originalidade que encontramos na propriedade do veterinário Agamenon Lemos de Almeida, talvez a mais afastada nas vinícolas da região. O descendente de açorianos criou uma verdadeira vila em homenagem à terra natal da família em meio a terras onde são plantadas soja e outras diversas culturas, como alho e cenoura, que visualizamos no caminho. Mas apesar da soja ser muito perceptível, o empresário diz que o fantasma do 2,4D, que paira no ar em diversas regiões do estado, não atinge seus vinhedos.  

No local, além de um pórtico restaurado a partir de uma edificação antigamente existente em Florianópolis, foram erguidos um moinho de vento, uma capela, um farol e um teatro a céu aberto – construído com dezenas, talvez mais de uma centena de enormes pedras de basalto, pesando entre 3 e 5 toneladas cada, transportadas de caminhão desde Bento Gonçalves – além de um wine garden e um salão de eventos. Isso que não falamos ainda de toda a estrutura da vinícola, que leva o nome de Família Lemos de Almeida.  

Os primeiros três hectares da área de vinhedos começaram a ser implantados em 2009, com Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir e Merlot. Depois disso, a cada ano, foram sendo plantados mais três, até fechar o total de cerca de 12 hectares hoje existentes. E claro que as castas portuguesas não poderiam faltar: Alvarinho, Tinta Roriz, Touriga e Verdelho, esta uma uva ainda muito pouco cultivada no Brasil.  

Em 2016 foi construída a cantina e desde então todo o trabalho de vinificação, antes terceirizado, passou a ser feito na propriedade. “Ter uma vinícola muitas vezes é uma questão sentimental, mas também é um negócio”, garante o produtor empresário, “precisamos ter um caminho que viabilize sempre um crescimento em qualidade e é necessário ser autossustentável,”, sentencia, “e buscar a Sustentabilidade, seja nos resíduos, seja na compostagem, seja na energia solar”, complementa Agamenon (foto abaixo). 

Mas as dificuldades iniciais de um empreendimento costumam ser sempre grandes: “os primeiros quatro anos foram bem difíceis, mas agora penso que encontramos nosso caminho sempre em busca de excelência”, argumenta. A demanda dos clientes pelos rótulos segue as variedades símbolo da região: a Pinot Noir entre as tintas, e a Sauvignon Blanc, entre as brancas, mas no caso da Família Lemos de Almeida há ainda uma peculiaridade: “o cliente busca muito nossas castas portuguesas”, pontua. 

Com uma produção aproximada de 50 mil garrafas distribuídas em 23 rótulos de 4 diferentes linhas, a vinícola boutique tem seu produto distribuído principalmente em restaurantes do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, além de alguns mercados locais na região de Campos de Cima da Serra e, claro, faz a comercialização direto na vinícola.  

A Lemos de Almeida aposta forte no enoturismo: junto com a Campestre, de Vacaria, é a vinícola mais pronta para receber visitantes na região, com diversos atrativos na propriedade além do vinho. Para o início de 2026 Agamenon planeja um grande evento a céu aberto com uma apresentação sinfônica para marcar a abertura do teatro.

Com certeza será o começo de mais um belo capítulo na história da Lemos de Almeida. 

Emoção e homenagem 

Se tem uma coisa que eu sinto 99% das vezes que entrevisto alguém sobre a história das vinícolas de cada família é emoção. Em graus e intensidades diferentes, claro, mas parece que quanto mais jovem é a pessoa que conta essa história, mais emocionada ela fica, porque mais intensa ela é.  

E essa foi a percepção que tive durante a conversa com Pedro Appio Varaschin, um estudante de 21 anos que é a terceira geração da novíssima vinícola Sopra (de pronúncia sôpra, do italiano, que significa alto, topo, cume). Diferente de todas as conversas nessa expedição pela região de Campos de Cima da Serra, encontros que tiverem lugar em vinhedos, salas de degustação, receptivos das vinícolas e até em pomares de maçã, a entrevista com os Varaschin foi na casa da família, em Vacaria.  

Em 2009 os “Ermanos” pai e filho, iniciaram a implantação de uma área de vinhedos de 2,5 hectares, e em 2012 começaram as vinificações. Um negócio que começou com pai e filho – Ermano Varaschin Júnior, produtor rural, é filho de Ermano Varaschin, advogado, falecido em 2020 – segue agora da mesma forma, com Pedro, a terceira geração, ao lado do pai.

Assim como na Aracuri, na Sopra a parceria foi com o enólogo Alejandro Cardozo, na época trabalhando na Piagentini, em Caxias do Sul. A inspiração de Ermano Júnior, veio da família. Seu pai, seus avôs e tios tinham envolvimentos com uva e vinho, seja com plantio, seja tendo a bebida como parte do dia a dia. “Plantar uvas e produzir vinho foi um resgate da nossa história”, diz Ermano, “inicialmente foi muito emocionante, mas hoje é um negócio”, complementa o engenheiro agrônomo. Mas negócios, sabemos, por mais que tenham sido pensados, nem sempre saem como o planejado.  

“Nosso vinhedo (foto acima, reprodução instagram Sopra) era em Muitos Capões”, recorda Pedro. Era?, pergunto. “Sim, era”, responde o estudante de agronomia, “foi todo arrancado em 2024, principalmente em função de um fungo conhecido como ‘pérola da terra’ (uma das principais pragas da uva, a cochonilha subterrânea ataca as raízes de plantas cultivadas e silvestres, causando a morte das plantas). O que foi uma tristeza e grande prejuízo o jovem viticultor quer transformar em oportunidade: “agora quero mapear todo o terreno e achar os locais ideais para o plantio das variedades que queremos reimplantar: Chardonnay, Merlot e Pinot Noir”, resume. “Nossa ideia na Sopra é trabalhar o cultivo e vinificação os mais naturais possíveis”, antecipa, “além disso no campo buscamos a filosofia do biodinamismo”, complementa. “Nosso objetivo é deixar o vinho transparecer cada vez mais o terroir da região”, justifica. 

Cultivando as uvas em uma altitude de 950 metros acima do nível do mar, uma das mais extremas da região, os produtores da Sopra querem preservar ao máximo as características edafoclimáticas dos Campos de Cima da Serra. O solo rico em minerais, a altitude elevada e os microclimas contribuem para aportar aos rótulos algumas das características mais presentes nos vinhos da região: acidez pronunciada, persistência e uma boa capacidade de guarda. “O trabalho do Alejandro foi fundamental para os nossos resultados”, pondera Ermano, “ele está conosco desde o início, e nos ajudou a definir o que temos hoje”.  

Com uma produção pequena e bem nichada, a maior parte dos vinhos produzidos pela Sopra é vendida para conhecidos e curiosos que buscam vinhos diferenciados: “o mais difícil do vinho é vender o vinho”, reforça Pedro. 

Mas isso é apenas uma questão de tempo. 

 

Esta reportagem continua. 

Na sequência, Sozo, em Monte Alegre dos Campos.  

Leia a primeira reportagem da série: Campos de Cima da Serra: uma joia vitivinícola brasileira a ser lapidada 

A jornalista Lucia Porto viajou a convite da Associação das Vinícolas de Campos de Cima da Serra. 

Fotos: Brasil de Vinhos, Sopra, reprodução instagram e arquivo pessoal, Aracuri, divulgação Aracuri

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