Caterina, primeiro vinho de uvas de mesa Jacques produzido pelo sistema de Dupla Poda, vem de Andradas (MG)

Caterina, primeiro vinho de uvas de mesa Jacques produzido pelo sistema de Dupla Poda, vem de Andradas (MG)

Caterina, produzido pela vinícola Beloto, de Andradas (MG), é o primeiro vinho de uvas de mesa Jacques a ser produzido pelo sistema de Dupla Poda. O rótulo utiliza apenas a variedade implantada no Brasil no final do século XIX, mas que aos poucos foi praticamente extinta, primeiro dando lugar ao café e mais tarde às uvas de variedades viníferas.

O Caterina foi elaborado em agosto de 2023, em parceria com a Epamig, de Caldas (MG), e de acordo com o produtor Rogério Beloto é o único vinho de mesa produzido pela Dupla Poda no Brasil.

A uva Jacques

De acordo com o cadastro vitícola da Embrapa, a uva Jacques ou Jaquez originária dos Estados Unidos e ideal para vinho e suco, foi introduzida no Brasil por Campinas (SP), no final do século XIX, mas só ganhou mais espaço por volta de 1940, no Sul do Brasil. Entre diversas características da cultivar, está a possibilidade de melhorar a cor dos produtos a base da uva Isabel.

“No nosso caso a história começa com a vinda do meu avô da Itália, por volta de 1890”, conta Rogério Beloto. Na época, como grande parte dos imigrantes que chegaram à região, ele veio para trabalhar em lavouras de café até conseguir adquirir uma propriedade em Andradas. “E como bom italiano, junto com a família começou uma plantação de uva e na casa edificaram um porão, já pensando em fazer vinho para consumo próprio”, relata, “as uvas implantadas na época foram Jacques”.

Beloto conta que essa é uma história não apenas de sua família, mas de muitas de origem italiana que chegaram ao estado: “a Jacques participou intensamente da vida das famílias italianas de Andradas, deu subsistência a elas por várias décadas”. Subsistência e notoriedade.

O produtor relembra dados do Ministério da Agricultura que contabilizavam 636 mil pés de uva Jacques em 1980 – aproximadamente 140 hectares. “Mas com o tempo”, diz ele, “os produtores foram desanimando e inicialmente muitas áreas de Jacques foram substituídas por café, e por volta do ano 2000, por variedades viníferas, que seriam utilizadas na então novidade que era o Sistema da Dupla Poda, desenvolvido pelo pesquisador Murillo de Albuquerque Regina”, conta.

A Dupla Poda foi um método considerado revolucionário na região, uma técnica que deu muito certo e que a cada ano segue sendo aprimorada e trazendo resultados melhores em taça. “O vinho fino entrou forte, cada vez mais crescia o plantio de viníferas e diminuía a área plantada com Jacques”. Os integrantes da Beloto, que tiveram toda sua vida ligada ao cultivo da variedade, estavam cheios de preocupação, e foi nesse momento que pensaram: será que esse método, que dava tão certo para as viníferas, não poderia funcionar com a Jacques?

Tentativa e erro

De acordo com Rogério, apenas sua família ainda cultiva Jacques em Andradas: há 8 mil pés na propriedade, cerca de 2 hectares. “Este foi um dos motivos pelos quais resolvemos aplicar o método de Dupla Poda nesta variedade que até então tinha um parreiral conduzido pelo método tradicional, com poda em agosto e colheita em janeiro”. Os Beloto tomaram essa resolução e mudaram completamente o ciclo de produção em 2022. “Inicialmente não tivemos resultado, no primeiro ano não realizamos colheita alguma, mas não desistimos”, conta.

Porém no ano seguinte, 2023, repetiram o método e desta vez tiveram uma pequena produção, cerca de 800 quilos de uvas. “Foi ali que nos demos conta que poderia dar certo”, comemora. O produtor diz ainda que a uva era de excelente qualidade com bons teores de açúcar, pH e acidez.

“Elaboramos o vinho em agosto, em parceria com a Epamig, de Caldas (MG), que nos apoiou no monitoramento das uvas e posteriormente na parte da vinificação e escolha dos insumos”, agradece. Rogério garante que o produto final surpreendeu:

“na nossa opinião resultou em um vinho de excelente qualidade, um vinho bem diferenciado dos vinhos de mesa tradicionais, que remetem a aromas e sabores de uva”, explica. De acordo com o produtor, o trabalho resultou em um vinho com aroma de frutas vermelhas, especiarias, acidez e taninos bem equilibrados e um teor de álcool um pouco mais alto.

“Eu acredito esse vinho de mesa produzido a partir desse sistema de Dupla Poda seja um marco aqui para a vitivinicultura não só de Andradas e de Minas Gerais, como do Brasil, porque é o primeiro”, comemora.

A sequência no trabalho

 Em 2024, já no terceiro ano, a Beloto obteve um resultado ainda melhor: foram colhidos 2.350 quilos de uva, praticamente o triplo da safra anterior. “Acredito que a cada ano, gradativamente, teremos mais quantidade e qualidade”, diz Rogério (foto acima).

Uma das ressalvas à comemoração pelos bons resultados é o custo. “Este método encarece bem o produto, porque você tem que cuidar do vinhedo praticamente o ano inteiro. O cálculo que fazemos aqui traz o preço médio de custo entre R$ 15 a R$ 20, o quilo”, explica.

Mas o produtor julga que isso vale a pena, porque o resultado é um vinho de excelente qualidade.

Fotos: arquivo pessoal Rogério Beloto e instagram vinícola Beloto.

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