Se tivéssemos a oportunidade de entrevistar todos os enólogos que ocuparam a cadeira de presidente da Associação Brasileira de Enologia talvez a maior parte deles dissesse que a primeira lembrança que têm da ABE é ainda como estudantes, ajudando em eventos. Ajudando a organizar seminários e congressos, buscando amostras, contatando produtores, fazendo o serviço do vinho: praticando para aprender. “Há muitos anos, ainda estudante, servi taças na Avaliação de Vinhos, vi aquela mesa lá na frente e pensei que deveria ser muito legal fazer parte”, relembrou o enólogo Michel Zignani (foto abaixo). Pois ele achou que deveria ser tão legal que se envolveu a ponto de, a partir de janeiro de 2027, assumir a presidência da ABE pelos próximos dois anos.

Michel, ao lado de Adriano Miolo, Dirceu Scottá, Christian Bernardi e Mario Lucas Ieggli, cinco enólogos que estiveram – ou estarão, no caso de Michel – a frente da ABE em diferentes momentos, compartilharam conosco algumas reflexões sobre as cinco décadas da Associação que é modelo para similares pelo mundo.
Esse exemplo de entidade foi algo que todos salientaram: “o que temos aqui é único”, diz Dirceu (foto abaixo). E é tão único e tem uma representatividade tão grande que esse é um dos motivos por atualmente Dirceu coordenar a Associação Latino-Americana das Associações de Enólogos, mais uma prova da capacidade da ABE: “somos muito respeitados por nossa habilidade em coordenar e ser vanguarda” afirma o enólogo que esteve à frente da entidade entre os anos de 2004 e 2007, “esse reconhecimento já havia ocorrido em 2004 quando Antoninho Czarnobay – presidente da ABE nos anos 2002 e 2003 – foi escolhido para ser vice-presidente da União Internacional dos Enólogos”. Na oportunidade, foi o primeiro profissional de fora da Europa a integrar a diretoria da entidade global em seus então 40 anos de existência.

Diferentes trajetórias, objetivos em comum
A todos fizemos as mesmas perguntas e a partir disso, tiramos algumas constatações, entre elas que, além da transformação que o vinho faz na vida das pessoas – mesmo na daquelas que nasceram já com essa cultura arraigada – a construção de uma iniciativa inédita por um grupo de pessoas com um objetivo comum é algo muito gratificante, e que ganha força, credibilidade e relevância à medida em que as gerações vão se sucedendo.

E essa sucessão de gerações em busca da excelência sem dúvida é uma das conclusões que está no livro histórico que marca os 50 anos da Associação Brasileira de Enologia, um documento que de acordo com o jornalista Irineu Guarnier (foto acima), encerra o que ele chama de trilogia, iniciada com a publicação sobre os 30 anos da Avaliação Nacional de Vinhos, em 2024, e que teve continuidade com o perfil profissional de Firmino Splendor, um dos fundadores e primeiro presidente da ABE. “Essas histórias todas se cruzam, os personagens são os mesmos, muitos relatos são parecidos, é a história do vinho brasileiro, um capítulo importante da história do vinho produzido no Brasil”, afirma o autor do livro, que será apresentado na noite de sábado, 7 de novembro, em Bento Gonçalves (RS), mesma data na qual será conhecido o enólogo do ano 2026.
As primeiras lembranças
Dirceu (presidente nos anos 2004, 2005, 2006, 2007), no fim do curso técnico em 1991, foi convocado para auxiliar nos congressos latino-americanos de viticultura e enologia e nas Avaliações, que na época eram bem menores. Christian (presidente nos anos 2010, 2011, 2012) serviu vinho na terceira edição da Avaliação Nacional, em 1995. Mario (presidente nos anos 2025,2026), que saiu de Porto Alegre para estudar em Bento Gonçalves em 2010 e não vem de família tradicional da Serra, participou pela primeira vez de uma Avaliação em 2011: “aquilo me impactou”, confessa.

Michel ajudou no serviço nos pavilhões e como já citamos olhava para a mesa principal. Via ali “pessoas que eram ultra importantes. Quem estava lá era de alguma forma inatingível”, recorda, “me questionava se no futuro poderia estar ali sentado degustando também”. O tempo passou e isso ele já fez e faz – e a partir de 2027 vai conduzir a Associação Brasileira de Enologia pelos próximos dois anos.
Adriano Miolo (1995, 1996, 1997) traz outra memória: os jantares mensais, as viagens aos congressos e as jornadas latino-americanas com os enólogos mais antigos, que lideravam a enologia da época. “Viajar com essa turma era uma forma muito proveitosa de trocar experiências”, resume o diretor superintendente do grupo Miolo.
Ouvir estas lideranças, cada uma com as experiências de determinados períodos e estágios da Enologia no Brasil é capturar informações sobre o crescimento do vinho brasileiro. Analisando as situações sempre pelo lado positivo, cada um deles deixa claro que os desafios se transformam em conquistas.
Dirceu Scottá ficou quatro anos na presidência, e o primeiro impasse foi manter o grupo unido. O segundo foi a regulamentação da profissão de enólogo – que veio em maio de 2007 – que exigiu viagens a Brasília, conversas com senadores e deputados e a resistência de alguns setores. “Foi um grande desafio, mas também foi uma grande conquista ter a profissão regulamentada”, diz.

Para Adriano Miolo (foto acima) um momento marcante foi convencer as vinícolas da importância de levar os vinhos brasileiros aos concursos internacionais: “ninguém acreditava e nem sabia ao certo o que eram os concursos”, afirma, “o trabalho era também apresentar o país e mostrar que o Brasil produzia vinhos já com qualidade”. Dirceu complementa valorizando o trabalho da ABE que foi se aprimorando cada vez mais: “a Associação reúne e envia as amostras para essas competições, o que reduz em muito o custo das vinícolas, algo que não se costuma fazer”, pontua o enólogo da Dal Pizzol.

“O que mais me marcou foi o impacto de estar ali”, afirma Christian Bernardi, “o tamanho da ABE, a responsabilidade, a visibilidade que a Associação me deu como profissional”, confessa o profissional que presidiu a ABE antes de ter completado 30 anos. Logo no início de sua gestão, o enólogo da Cooperativa Vinícola Aurora já teve um grande envolvimento com a organização e coordenação da Assembleia Geral da União Internacional de Enólogos, em Bento Gonçalves – à época a primeira realizada fora da Europa. Mario Lucas (foto acima), que conduz a entidade no ano de seu cinquentenário, declara que a meta foi entregar algo diferente, e quando pensa nos destaques não titubeia: “a criação do concurso de Suco de Uva Brasileiro certamente foi nossa maior conquista”.
Ares de mudança
Para identificar o ponto de virada, os depoimentos se dividem. Mario aponta 1993, quando começou a Avaliação Nacional de Vinhos, que acaba de chegar à 34ª edição: “penso que foi ali a ABE começou a ganhar notoriedade nacional e internacional”, avalia o atual presidente. Michel concorda que a ANV passou a ser o principal evento do vinho brasileiro, algo que impacta não só no Brasil, mas também no mundo: “as pessoas que passam por aqui acabam também sendo embaixadoras do vinho brasileiro”, opinião que vai ao encontro do que pensa Adriano Miolo: “a Avaliação e os concursos internacionais fizeram da ABE uma entidade muito séria e de referência para as vinícolas”.

Christian (foto acima) liga a virada ao próprio vinho brasileiro, na passagem dos anos 1990 para os 2000, quando o trabalho dos enólogos começou a ser mais reconhecido: “eu acho que a ABE soube aproveitar esse momento”. Mas para Dirceu não houve um ponto definitivo: “foi uma construção, algo que iniciou de forma muito tímida, muito pequena, mas que foi crescendo com o esforço, o empenho e o talento de muitos”, pontua, “até a Associação sentir que era hora de contratar funcionários, profissionalizar os eventos e passar a fazer a gestão do todo”.
Um ponto em comum
Quando o assunto é qualidade, a união dos profissionais entra em pauta. Christian lembra que, no início, “ainda havia uma certa rivalidade entre as empresas e os profissionais, talvez existisse mais vaidade individual envolvida no desenvolvimento do vinho”, pondera, “mas a ABE trouxe unidade, equilíbrio, conversação e convivência entre os profissionais”. Essa convivência também é destacada por Adriano Miolo: “quase todos os enólogos ativos do país fazem parte da ABE, a Associação tem um nível de conhecimento técnico-científico elevadíssimo e a meu ver deveria ser consultada no momento de se fazer qualquer discussão tendo vinho como tema no Brasil”.
O futuro
Dirceu Scottá acredita que a ABE ainda não chegou ao seu auge: “temos muito que crescer, temos muito que evoluir. Já fizemos muita coisa, como recentemente por exemplo com o trabalho dos grupos técnicos que colaboraram em muito para flexibilizar a exportação de suco de uva para a Europa”, trabalho com atuação forte de Fernanda Spinelli – que aliás será vice-presidente da ABE no próximo mandato, ao lado de Michel Zignani.
Adriano Miolo coloca a extensão continental do Brasil como um desafio a ser vencido pela entidade: “temos uma presença majoritária na Serra Gaúcha, mas precisamos chegar às regiões novas. A grande questão é nos próximos anos rompermos estes limites e sermos mais atuantes no Nordeste, no Sudeste e no Centro-Oeste”, reflete.
Já Christian Bernardi aponta a velocidade do mundo em comparação com a do setor como um obstáculo a ser vencido: “o vinho é uma atividade tradicional, de mudanças lentas e planejadas, mas tudo muda muito rápido agora, isso vai alterar o estilo dos vinhos, o jeito de consumir e consequentemente o papel do enólogo na sociedade”, conclui.
Michel Zignani aposta no crescimento das regiões, com mais enólogos e mais escolas. O grande desafio para ele é manter uma entidade forte e unida em todo o Brasil: “o principal no dia a dia é manter a qualidade dos eventos sempre com muita capacidade técnica e conhecimento científico”, reforça o enólogo da Famiglia Valduga.
Relatos eternizados
Os depoimentos acima tivemos a partir de conversa com os cinco enólogos e com Irineu Guarnier Filho, mas lembranças e reflexões como estas e outras certamente estão nas páginas do livro escrito pelo jornalista. A publicação desse recorte histórico dos primeiros 50 anos da ABE é um documento que acompanha momentos marcantes do vinho brasileiro, passa por diversas fases da produção da bebida no país e certamente deve apontar caminhos para um futuro cheio de possibilidades e desafios ainda não conhecidos. Ao resumir seu trabalho de quase um ano de entrevistas e pesquisas, Irineu salientou as trajetórias paralelas: “não separo em nenhum momento a história da ABE da história do vinho brasileiro, eu acho que elas caminham juntas”.
Acrescentamos aqui que a história do autor também corre no mesmo sentido: “trabalha-se muito para fazer um livro desse”, confessa Irineu, “mas foi um trabalho muito agradável, eu mergulhei nessa história e pela terceira vez eu viajei pela trajetória do vinho gaúcho, do vinho brasileiro, da formação dos profissionais”.
Fotos: divulgação ABE e Isadora Guarnier
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