Daniel Gandolfi é publicitário e toda a vida trabalhou com comunicação, em agências de propaganda. Nos últimos anos seu ganha pão virou tecnologia, análise de dados e inteligência artificial, o dia todo em frente a um computador, em São Paulo, na capital paulista. Mas não se engane: quando o gaúcho ainda tinha sua casa em Porto Alegre, morava na Zona Sul da cidade, perto do Guaíba – o que ele gosta mesmo é de natureza, de ouvir os pássaros e fazer o tempo passar devagar. E gosta tanto disso que lá em 2017 juntou um dinheiro e comprou uma área de 2,3 hectares no lote 20 da linha Alcântara Alta, na comunidade São Pedro, no interior de Monte Belo do Sul.
Pulamos no tempo e chegamos ao verão de 2026, quando Daniel colheu a primeira safra do meio hectare de uvas cultivadas no vinhedo da Vino Gandolfi. Foram cerca de 8,5 toneladas de uvas, divididas entre as variedades Alvarinho e Malvasia de Cândia, nas brancas e Nebbiolo e Montepulciano – a última a ser colhida – entre as tintas. Hoje Daniel tem foco na tecnologia do vinhedo: “procuro trazer pra cá coisas como estação meteorológica, sensor de umidade foliar e sensor de umidade de solo, coletar esses dados e correlacionar essas informações aquelas que a academia já produziu, principalmente a Embrapa Uva e Vinho”, esclarece, “para que possamos prever essas pragas e interferir antes com auxílio da Inteligência Artificial”.

Se hoje o Daniel já está mais maduro quando fala de produção de uva e vinho, na verdade começou a produzir vinho em casa de brincadeira há cerca de 10 anos, primeiro ainda na Zona Sul da cidade, e depois em uma cobertura do bairro Higienópolis. Passada uma década ele lembra: “eu não sabia nada, descobri o número da Embrapa Uva e Vinho, peguei o telefone, liguei e disse pra quem atendeu que eu queria fazer vinho. Foi assim que eu comecei”, conta, divertido.
Foi difícil conseguir comprar as primeiras uvas, mas ele deu um jeito. Em 2015 em sua primeira tentativa vinificou em casa, dois anos depois e já se sentido mais seguro com as informações técnicas de obteve da EMBRAPA resolveu ousar: pulou de 4 caixas – cerca de 60 quilos – para uma tonelada de Merlot, comprado na região de Monte Belo do Sul.
“Subestimei o esforço físico de fazer vinho”, diz o publicitário, que morava na cobertura de um prédio sem elevador, tinha uma mastela de 700 litros e uma desengaçadeira manual que descobriu que não funcionava – ou que não sabia usar, vai saber – na hora que mais precisava. Depois desse momento de megalomania, Daniel deu alguns passos atrás: nos anos de 2018, 2019 e 2020 voltou para suas quatro caixas a cada safra: em dois anos vinificou Cabernet Sauvignon e em outro Petit Verdot.

Mas Daniel já tinha a área e um sonho: vinificar sua própria uva. Então lá foi ele de novo, e desta vez entrou em contato com a Emater para saber como lidar com a terra, mas mais uma vez subestimou o trabalho: “o pessoal que mora em volta olhava minhas mãos e meio que ria, sem acreditar que eu ia meter a mão na massa”, conta, “hoje todos são meus amigos, sem a ajuda deles eu não teria conseguido”, reconhece.

Simultaneamente começou a construir sua casa, charmosa e compacta, com uma linda vista para o vinhedo, claro. Em 2021 a cantina, que fica no térreo, já estava apta para vinificar, ali em ele fez o primeiro vinho da Vino Gandolfi, um Cabernet Franc com uvas da região. No ano seguinte trocou quase todos os seus equipamentos de prolipopileno para inox, isolou a sala de engarrafamento e fez todos os ajustes necessários para conseguir o registro no MAPA: “o fiscal que veio aqui elogiou minha dedicação”, comemora.
Uma das coisas que Daniel mais faz é agradecer quem o ajudou no caminho: “nada se faz sozinho”, diz, “conheci diversas pessoas que me ajudaram e fiz muitos amigos na EMBRAPA, na Emater, em diversas vinícolas e em diferentes regiões do estado: é todo um ecossistema que se ajuda”, agradece.
A primeira colheita da Vino Gandolfi realizada neste verão se originou de uvas implantadas em 2024, a partir de mudas vindas do viveiro Molon, de Flores da Cunha. Uma parte de seu sonho Daniel já realizou, agora falta outra: “esse vinhedo é um laboratório onde eu sou o piloto”, explica, “mas espero que no futuro essa tecnologia possa também estar à disposição de pequenos viticultores e que assim o que existe de contemporâneo do ponto de vista da tecnologia possa ser acessível ao pequeno viticultor e produtor de vinho e que a qualidade seja influenciada através desses benefícios que a tecnologia traz”, discursa.
Vamos torcer.
fotos: Brasil de Vinhos | Lucia Porto
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