O Brasil de Vinhos tem um grupo muito atuante no whatsapp. São mais de 600 inscritos que debatem as questões do vinho brasileiro e tentam apontar soluções pra algumas, digamos, encruzilhadas do setor.
Nos últimos dias um comentário sobre o acelerado crescimento dos Vinhos de Inverno feito pelo Emerson Rodrigo Greggio – conhecido nas redes como EnólOgro, na foto acima conduzindo uma degustação para um grupo na Serra dos Encontros – causou muita discussão: “será que não estamos crescendo rápido demais no topo, sem consolidar a base?”, questionou ele.
A indagação deu início a uma discussão bem positiva, tanto que o incentivamos a ampliar a conversa por aqui.
Boa leitura
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Os rumos do vinho brasileiro: entre desejo e sustentação
* Emerson Rodrigo Greggio
O vinho brasileiro passou a ocupar um novo espaço nas conversas. Matérias, eventos, novos projetos e discursos cada vez mais sofisticados revelam um setor em transformação — mais estruturado, mais ambicioso e, sobretudo, mais visível.
Há um reposicionamento em curso. E ele é, sem dúvida, positivo. Mas, em meio a esse avanço, surge uma inquietação inevitável: estamos construindo desejo ou pulando etapas?
O momento atual é marcado por uma evolução clara na oferta. Novas vinícolas, projetos arquitetônicos, experiências mais elaboradas e um discurso mais alinhado com padrões internacionais indicam que o Brasil quer — e pode — ocupar um novo lugar no cenário do vinho.
Por outro lado, o consumo ainda está em formação.
Diferente de países onde o vinho faz parte da cultura há gerações, no Brasil o hábito não é herdado, ele precisa ser construído. E isso exige tempo, repetição e confiança. Quando o mercado evolui mais rápido do que o consumidor, cria-se um descompasso. E é nesse intervalo que reside o principal desafio.
Ao mesmo tempo, uma mudança importante vem acontecendo: o vinho brasileiro deixou de ser percebido como algo homogêneo.
Hoje, o país expressa múltiplas identidades produtivas, resultado de variações de clima, altitude, solo e decisões enológicas. O Rio Grande do Sul representa a base histórica, com tradição, escala e consistência. O Vale do São Francisco traz uma singularidade rara, com produção em clima tropical e possibilidade de múltiplas safras ao longo do ano. A Serra Catarinense se destaca pela altitude e por um perfil mais estruturado. Já os Vinhos de Inverno, desenvolvidos pela técnica da Dupla Poda, mostram a força da pesquisa e da adaptação técnica ao campo.
Esse conjunto revela um país plural. E essa pluralidade não representa conflito — representa evolução.
Comparar essas regiões como se estivessem em disputa pode ser um equívoco. O Brasil ainda está construindo sua presença como origem no cenário global. Antes de competir internamente, precisa consolidar sua identidade como produtor. Um vinho daqui não precisa ser melhor que o de lá; ambos precisam ser verdadeiros e encontrar seu espaço.
Nesse contexto, o crescimento do segmento premium chama atenção. Experiências mais sofisticadas, arquitetura, hospitalidade e posicionamento de marca indicam um esforço claro de valorização. O luxo cumpre um papel importante: ele eleva a percepção, atrai investimento e posiciona o país em outro patamar.
No entanto, o mercado de luxo brasileiro é limitado. Ele é concentrado e, por si só, não sustenta escala.
Mais recentemente observa-se também uma estratégia voltada ao turismo internacional, buscando posicionar o vinho brasileiro de maior valor para o público estrangeiro. A proposta é coerente, mas traz uma exigência adicional: preparo.
Atender esse consumidor exige mais do que bons vinhos ou belas vinícolas. Exige qualificação profissional, consistência no serviço, domínio técnico e segurança no discurso. Não basta ter o produto — é preciso saber apresentá-lo.
Criar cartas de restaurante com vinhos brasileiros é um passo importante, mas, sem formação e comprometimento da linha de frente, a experiência não se sustenta. E, mais uma vez, fica evidente que o topo depende da base.
Há ainda um ponto recorrente nesse debate: o vinho não é linear. O consumidor pode experimentar antes de entender, desejar antes de dominar, se encantar antes de construir repertório. Essa característica é parte do seu encanto.
Mas isso não elimina a necessidade de sustentação.
Ao longo da minha atuação como sommelier, desde 2019, e como embaixador de uma vinícola no Sul de Minas Gerais — construída com base em pesquisa, trabalho de campo e na busca por vinhos que expressem com precisão o que deve ser transmitido na taça — uma percepção se consolidou: o desejo pode iniciar a jornada, mas é o hábito que sustenta o mercado.
É a repetição que gera confiança. É o retorno que consolida valor. É a escolha recorrente que transforma interesse em cultura. Sem isso, o consumo permanece episódico.
A história de regiões como Napa Valley e Mendoza reforça esse entendimento. Ambas levaram décadas para alcançar reconhecimento global, apoiadas na construção de base, consistência e identidade. O mesmo se aplica a marcas icônicas, cujo posicionamento de desejo foi consequência de um processo contínuo — e não ponto de partida.
O Brasil vive um momento vibrante, e isso deve ser celebrado. Mas todo crescimento acelerado exige atenção.
O risco não está em evoluir, mas em evoluir sem sustentação. Criar desejo antes de consolidar base, elevar o discurso antes de ampliar o acesso, pensar no olhar externo antes de estruturar o interno.
No fim, a questão não é quem está liderando esse movimento, mas como ele está sendo construído.
Porque o futuro do vinho brasileiro não será definido pela primeira impressão, mas pela continuidade.
Não pela garrafa mais desejada.
Mas por aquela que volta para a mesa.

Emerson Rodrigo Greggio – também conhecido como EnólOgro – é sommelier internacional formado pela FISAR e tem mais de duas décadas de atuação nas áreas de Comunicação e Marketing, no negócio do vinho tem várias iniciativas entre elas Vinho no Trem e o Brasil na Taça.
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