Cinquenta e um quilômetros separam São Paulo de São Roque, um trajeto que facilmente poderia ser percorrido em uma hora ou menos pela rodovia Raposo Tavares, não fosse o trânsito. Essa é distância que aparta a capital paulista de um dos eixos de Enoturismo mais próximos da mais movimentada cidade do país – Jundiaí fica a cerca de 60 quilômetros e o badalado circuito de Espírito Santo do Pinhal a quase 200 quilômetros, por exemplo.
Pois a cidade de cerca de 80 mil moradores divide sua economia em alguns pontos principais: há muitos empregos em Comércio e Serviços, com destaque para a Administração Pública, mas o forte, sem sombra de dúvidas, é o Agronegócio – especialmente focado, neste caso, na Uva, no Vinho e no Enoturismo.
Também pudera, conhecida como a “Terra do Vinho”, a cidade fundada no século XVII por Pedro Vaz de Barros chegou a ter, no auge, cerca de 180 vinícolas e 500 produtores de uva em seus pouco mais de 300 km2 de extensão. Importante salientar que esse número diverge entre os produtores da região, e não há um relato oficial destes empreendimentos.
A partir da conversa com diversos moradores da cidade – vinhateiros, produtores, professores, estudiosos, empresários, pesquisadores – seguro seria então dizer que nos anos 1956/1960 São Roque teve simultaneamente cerca de 130 vinícolas, um dado histórico confirmado por José Eduardo Charbel, gerente de relacionamentos do Sindicato das Indústrias do Vinho de São Roque, que assegura que em 1956 foram produzidos mais de 6 milhões de litros de vinho no município. O transporte ferroviário público estava no auge, e a população – e as vinícolas – cresciam perto das linhas férreas.

Era o tempo das vinícolas Astronauta, Cacique e Periquito (foto original acima, acervo Cláudia Moraes), Guarani, Palmares – que fizeram história – e Palmeiras, Góes, Don Patto, Canguera e XV de Novembro, entre outras, que seguem fazendo. A festa do vinho, que começou a ser realizada na cidade em 1942 e seguiu até 1986, estava no auge e reunia milhares de pessoas para comemorar a vindima na praça da Matriz.
Até o início dos anos 1990, vale salientar, as uvas cultivadas na cidade eram basicamente americanas e híbridas: em sua maioria Bordô, Isabel, Seibel 2 e Niágara Branca. As finas começaram a ser desenvolvidas, timidamente, no final da década de 1990, com a entrada da Cabernet Sauvignon, mais ou menos 20 anos antes da ‘redescoberta’ da Ribas, no final dos anos 2010, cultivar lançada pelo Instituto Agronômico de Campinas – e que hoje desempenha um papel importante. Depois disso veio o início das pesquisas e tentativas da Góes com o cultivo de Inverno a partir do sistema da Dupla Poda, trazendo a Sauvignon Blanc e a Syrah nos anos 2000, o que viria a apontar outras perspectivas para a região.

Hoje o Roteiro do Vinho, criado em 1998, tem duas vias principais: a Estrada do Vinho, um trecho de cerca de 10 quilômetros de estrada e a rodovia Quintino de Lima e suas adjacentes, nas quais estão localizados 57 associados entre vinícolas, restaurantes, hotéis e pontos comerciais – 17 deles especificamente vinícolas – que empregam aproximadamente 2 mil pessoas direta ou indiretamente. Essa perceptível e brusca queda principalmente no número de empreendimentos vitivinícolas se deve a muitos fatores: “depois da fase áurea, na década de 1980 havia apenas 8 ou 9 vinícolas”, conta Alex Santiago de Moraes, “foram diversas causas e talvez o êxodo rural e a especulação imobiliária tenham sido algumas das principais”, explica o presidente do Sindusvinho e produtor de uvas e vinhos com as vinícolas XV de Novembro e Aura Astral.

Um município que tem clima subtropical, atingindo temperatura média de 30o no verão e 15,5o no inverno, com altitude média de cerca de 800 metros acima do nível do mar, São Roque tem seu ponto de vinhedos mais alto na fazenda Bagadá, onde fica a vinícola Alma Galiza (foto acima), com plantio a 1.050 metros de altitude.
Destino de chegada principalmente para imigrantes portugueses e espanhóis, mas também italianos, São Roque – assim como a Serra Gaúcha, para exemplificar – do mesmo modo se caracteriza por uma intrincada teia familiar: é difícil para uma ‘estrangeira’ organizar as árvores genealógicas das vinícolas e seus proprietários, quase todos parentes em graus mais ou menos distantes, seja por nascimento, seja por casamento.
Senão vejamos. Há os Moraes, os Rosa, os Góes, os Godinho, os Santiago e os Camargo, por exemplo, famílias que, em diversas épocas, passaram a fazer parte da história da cidade – e do vinho, por consequência – e que podem (ou não) estar presentes na série de reportagens que apresentaremos a partir de hoje no Brasil de Vinhos, aqui no site e em nosso perfil do instagram.

A convite do Sindusvinho – que em 2026 completa 90 anos de atuação na região – visitamos vinícolas e empreendimentos, conhecemos a história, degustamos vinhos – e alcachofras, claro, como esta acima que está no cardápio harmonizado da vinícola Rilavida – e conhecemos diversas pessoas que fazem parte de famílias que contam a história do vinho de São Roque – e consequentemente, do vinho brasileiro.
Fique conosco pelos próximos dias e saiba mais sobre as vinícolas Don Patto, Rilavida, Bella Quinta, Góes, Philosophia, Casa da Árvore, Alma Galiza, XV de Novembro, Aura Astral, Canguera e Frank. Conheça também o curso de Enologia do Instituto Federal Campus São Roque e tome conhecimento a respeito da polêmica que envolve o vinhedo didático experimental do IF na APTA Regional São Roque.
Aproveite a viagem pra conhecer uma parte da divertida e animada turma de São Roque junto conosco (na foto abaixo alguns do participantes do jantar de recepção aos sócios do Brasil de Vinhos no hotel Nor, em São Roque. Foto de Malu Abib).

O Brasil de Vinhos viajou a São Roque (SP), a convite do Sindusvinho e do Roteiro do Vinho.
Fotos: topo Cíntia Morares, arquivo pessoal Cláudia Moraes, Malu Abib e Brasil de Vinhos | Lucia Porto
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