Vinte hectares de vinhedos passarão a ser parte da história de uma propriedade que durante muito tempo foi refúgio de diversas figuras da política, da cultura e das artes. A fazenda Bemposta, localizada entre as cidades de Três Rios e Areal, na Serra Fluminense, foi de propriedade de Arnaldo Guinle a partir de 1938, e desde a aquisição, passou a receber com frequência hóspedes como Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Marylin Monroe, Clark Gable e Kim Novak, por exemplo.
Em 2021 o empresário Marcus Rezende (foto abaixo) adquiriu a propriedade – que já estava nas mãos de outros donos depois dos Guinle – e começou a planejar a restauração do empreendimento em etapas. Uma das primeiras ações foi a contratação do historiador Miler Soares para resgatar a história do local, inventariar e trabalhar com preciosismo na recuperação do patrimônio. A etapa seguinte foi a implantação do vinhedo.
“Hoje temos quatro hectares plantados, são 18 mil mudas de Syrah, Cabernet Franc e Malbec”, conta Rezende, “mas queremos chegar a 20 hectares e também produzir espumantes”, afirma. A aposta se dá muito pelas características de solo e clima – altitude, localização entre Serras, noites frias, dias quentes, amplitude térmica que promete bons atributos ao vinho – e também pelo que os produtores da região têm apresentado: “os vizinhos já produzem bons vinhos aqui”, comemora.
A Bemposta já realizou duas colheitas, em 2024 e a recente colheita de inverno de 2025, com as uvas sendo transportadas para vinificação na Casa Geraldo, em Minas Gerais, onde ficam sobre a responsabilidade da enóloga Isabela Peregrino. “Queremos chegar a uma produção de 50 mil garrafas ano”, estima Rezende.
Assim como diversas vinícolas no Sudeste, a Bemposta trabalha seus vinhos a partir do sistema da Dupla Poda, ou Colheita de Inverno. Falamos mais sobre isso em outras matérias dessa cobertura especial.
Hospitalidade
Mas a videira tem seu tempo, e enquanto a planta se desenvolve a Bemposta está sendo preparada para voltar a receber: os 27 quartos da casa principal que tem cerca de 2 mil m2 de área construída estarão à disposição dos hóspedes em breve, bem como um complexo gastronômico que deverá contar com diferentes tipos de culinária. “Atualmente além da uva temos criação de gado e pretendemos reativar a produção de laticínios e charcutaria”, explica Rezende.
No passado a produção de leite e laticínios foi importante na história da propriedade: foi ali que Arnaldo Guinle e seus irmãos fundaram a empresa Normandia, tradicional em laticínios, mas que na época também operava com citricultura e venda de terrenos.
O investimento foi e continuará a ser grande: a área de cerca de 1700 hectares com todas as benfeitorias e edificações custou cerca de R$ 20 milhões, deste total R$ 5 milhões foram direcionados aos vinhedos. “O objetivo final é um condomínio de luxo, um complexo baseado no que vemos nas regiões vitivinícolas do Rio Grande do Sul, por exemplo”, aponta o empresário que antecipa um aporte total de cerca de R$ 100 milhões até a implantação integral do projeto.
Patrimônio histórico
Na propriedade a arte está ao ar livre, seja nos jardins projetados por Burle Marx – que vistos de topo tomam a forma de taças de vinho – seja na sutileza das telhas com delicadas pinturas de folhas de videiras, seja no impressionante painel Muiraquitã (foto acima), assinado por Jorge Colaço em 1935, e reconhecido pelo Museu do Azulejo de Portugal.
Cada peça da casa é história pura: o porão original, todo edificado em pedra empilhada, onde está localizado o Wine Bar era o cassino dos Guinle. Outro ponto alto é o cinema ao ar livre, projetado especialmente para proporcionar refrigeração natural a partir das aberturas laterais do prédio, o escurinho era garantido pela utilização de pesadas cortinas de veludo escuro. “Aos sábados Arnaldo Guinle abria o cinema para a comunidade local, filmes como ‘E o Vento Levou’ e ‘Casablanca’ estrearam na Bemposta”, diz Miler Soares, que conta ainda que nestes dias Guinle assumia o papel de pipoqueiro e servia pipocas à plateia. “Estamos buscando o tombamento da propriedade junto ao Iphan”, completa o historiador.
Quando Jean Arnauld, o primeiro dos Guinle a chegar ao Brasil, no final do século XIX, decidiu sair do pequeno povoado de Bazet, nos Pirineus franceses, e se aventurar até o Uruguai, do outro lado do mundo, para tentar a vida, ouviu o conselho do seu pai, Pierre Guinle: “Se você deseja, não lhe fará mal”. Três gerações depois, Arnaldo Guinle colocou a Bemposta na rota da história e da cultura; no século XXI, a fazenda passa a fazer parte também da história da viticultura.
A Fazenda Bemposta é uma das 26 vinícolas ligadas à Associação dos Produtores de Uvas vitis vinifera da Serra Fluminense, e que faz parte da rota ‘Areal, capital da Uva’, projeto desenvolvido pela AVIVA com o apoio do Sebrae RJ.
O Brasil de Vinhos viajou a convite do Consevitis-RS e do Sebrae
Acompanhe a cobertura do Brasil de Vinhos na Serra Fluminense
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Fotos: Siderlei Ditadi e Brasil de Vinhos | Lucia Porto
Sugestão de leitura: Os Guinle, história de uma dinastia, por Clóvis Bulcão para editora Intrínseca
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