Um final de semana em Monte Belo do Sul

Um final de semana em Monte Belo do Sul

Uma pequena cidade de menos de 3 mil habitantes, conhecida como a maior produtora de uvas per capita da América Latina – isso graças a produção de cerca de 45 mil toneladas de uva por safra (dados de 2024 do Observatório Vitivinícola).

Um município que, entre todas as bebidas derivadas de uva, produziu pouco mais de 15 milhões de litros em 2024, feitas por aproximadamente 600 famílias, que zelam por pequenas propriedades, áreas que têm em média 2,5 hectares, totalizando os 2.700 hectares de parreiras no município.

Estivemos em Monte Belo do Sul no penúltimo final de semana de janeiro de 2026, com o objetivo de visitar quatro vinícolas: Eduardo Mendonça Vinhos Livres, Vinhedos Capoani, Casa Marques Pereira e Casa Ângelo Fantin. Queríamos acompanhar a vindima, participar da colheita e vivenciar o início dos processos de vinificação, mas neste ano não foi bem assim: as mudanças climáticas chegaram pra ficar – o enólogo Mario Lucas Ieggli fala um pouco mais sobre isso em outra reportagem.

Mas estávamos em Monte Belo do Sul, as parreiras bem carregadas, o final de semana estava lindo e nosso bloco de notas vazio até então.

Mas só até começarmos nosso roteiro por aquele que, dos quatro a serem visitados, mais se adapta ao perfil de pequeno produtor: Eduardo Mendonça, tem 0,5 hectare cultivado em linha Armênio.

Mínima intervenção, máximo cuidado

Lá, o hoje produtor de uvas e de vinhos – que um dia no passado remoto trabalhou como produtor de bandas musicais – morador há 20 anos no local e fazendo vinhos há 10, cultiva diversas variedades: Lorena, Grechetto, Vermentino e Trebbiano, entre as brancas; Pinot Noir, Sangiovese, Montepulciano e Moscato Bailey, entre as tintas. “E em breve terei também Marselan”, acrescenta.

A filosofia do produtor começa a ser percebida na marca que utiliza e chega ao consumidor antes mesmo que eles tenham possibilidade de provar seus vinhos: Eduardo Mendonça Vinhos Livres. Talvez pra dar uma pista do Vinhos Livres na marca, Mendonça conta: “conheci pessoalmente a Lizete Vicari em 2016, foi ali que comecei a fazer vinho”, conta.

Pra quem não tem familiaridade com o nome, Lizete Vicari é uma das principais referências no Brasil quando o assunto é vinificação natural – Domínio Lizete Vicari é um projeto familiar de mãe e filho que apresenta vinhos produzidos a partir de fermentação espontânea com mínima intervenção e sem a utilização de insumos enológicos.

A primeira produção de Eduardo, em 2016, resultou em 150 litros, todos de Chardonnay. Em 2016 vinificou seu primeiro Lorena. Ano passado na safra 2025 apresentou entre 2 e 3 mil litros de vinho e nesta imagina oferecer a metade disso: “tenho bastante vinho estocado ainda”, pondera o vinhateiro, que tem seus principais clientes fora do Rio Grande do Sul, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e até no Pará.

E um dos queridinhos de seus consumidores é o Bailené, premiado espumante produzido a partir da variedade japonesa Moscato Bailey, que Eduardo cultiva em latada com cobertura plástica: “é uma proteção maior pra uva, o que possibilita o cultivo em orgânico, um dos grandes diferenciais dos vinhos de mínima intervenção”, diz.

Questionado sobre como gostaria que a vinícola estivesse em 10 anos, Mendonça é direto: “produzindo 50 mil litros por safra, quero escalar para poder baratear meu vinho, pra que assim meu produto chegue a mais gente”. O produtor é consciente do problema que aflige a todos, não interessa o tamanho da vinícola: a maior dificuldade do negócio sim, é vender vinho.

A vontade de fazer vinho e a procura incessante pela cor ideal

E vender é algo que está no DNA de Noemir Capoani desde muito cedo. Começou na vida profissional ajudando o pai na lida do campo – nos anos 70 seu pai, Volmir, cultivava Malvasia e Cabernet Franc na mesma área em se hoje fica a sede da vinícola – que até pouco tempo era o prédio da administração da indústria de móveis da família – mas isso é outra história.

Noemir lembra que muitas vezes provocou o pai, dizendo que queria ter uma vinícola, queria fazer vinho, mas ele não queria: “meu pai era um dos maiores produtores de uvas finas da região, vendia para grandes marcas, para multinacionais. Ele nunca quis fazer vinho, eu sim”.

Na década de 1990, já à frente da indústria, empresa que teve origem a partir de seu trabalho como marceneiro, Noemir viajava o mundo participando de feiras e articulando negócios. Em uma destas viagens, em um free shop em um aeroporto, viu algo que nunca esqueceu: “caixas e caixas laranjas do champagne Veuve Clicquot. Vi aquilo e pensei: ainda vou fazer isso”. Era 1994 e aquilo ficou em sua memória: “se algum dia eu for fazer vinhos com as uvas da minha família, eu quero uma cor única”.

Em 2010 quando o pai de Noemir faleceu, deixou 24 hectares plantados, a maioria em latada, que o filho vem convertendo: hoje já são 13 hectares em espaldeira e ideia é chegar a 40, nos 60 hectares totais que o produtor/empresário possui.

Capoani não teve pressa: vendia uma parte das uvas e com outro tanto a partir de 2011 foi produzindo e guardando umas garrafas, “estoquei durante cinco anos, porque não sabia que cor usar”, lembra.

Sim, Noemir é um produtor com veia de empresário (ou seria o contrário), e atropela a história para largar uma manchete: “neste ano vamos inaugurar a primeira franquia da vinícola em um shopping de Porto Alegre, na sequência uma loja em Canela”.

Depois volta no tempo e lembra que na conversa ele ainda não tinha contado como foi que a cor, finalmente, surgiu: “um dia a cor veio”, conta, entusiasmado. “Envolvi apenas a minha família e disse pra eles que iam me ajudar a escolher uma cor para os rótulos. Dei como exemplo a ‘viúva’ Clicquot. Mas não teve jeito, isso levou quatro ou cinco anos”, conta, “até que um dia meu filho foi pros Estados Unidos para atender um cliente dos móveis – o vinho já estava pronto e engarrafado, guardado. Na volta passou na minha casa e abriu uma mala, dentro dela tinha dentro uma sacola da Tiffany: quando eu botei o olho, eu soube.”, sorri, “aquela era a nossa cor.”

E é a marca registrada da Capoani e dos 33 rótulos que tem em seu portfolio atualmente. Assim como a variedade Sagrantino, por exemplo, que segundo Noemir só a Capoani produz no Brasil, ou como a Pinot Meunier (foto acima), uma das variedades autorizadas para a produção de champagnes na França, e que em Monte Belo devem se tornar, em breve, matéria prima para espumantes. E também para perfumes – por que não?

Percorrer o vinhedo e antecipar o que vem pela frente

“Para chegar à perfeição um vinhedo precisa de pelo menos 10 anos”. Quem diz isso é Felipe Marques Pereira, que desde 2014 é produtor de uvas e vinhos na Quinta da Orada (capela na foto de topo), uma área com 9 hectares de vinhedos implantados na linha Armênio. Ainda sobre perfeição, Felipe rapidamente complementa dizendo que não atingiu esse ponto: “em 2017 comecei a reformar a área, e fui ‘louco’ o suficiente para ao mesmo tempo mexer em 9 dos 10 hectares então plantados”, recorda.

Há 6 anos, depois de muitos problemas enfrentados com a falta de mão de obra, fez sua mudança para Monte Belo do Sul: “eu sempre quis trabalhar com agronegócio, era só uma questão de tempo”, diz o hoje produtor de uvas que começou no mundo rural, trabalhando em uma fazenda de criação de búfalos, antes de arrendar a propriedade, adquirida por ele integralmente em 2015.

Hoje a área em aclive, construída em patamares, tem pelo menos 13 variedades cultivadas, entre elas a Marzemino – e até onde Felipe sabe, é dele o único vinhedo do país que produz e vinifica esta uva. Ela está implantada na parcela que ele chama de Cru dos Jerivás (foto acima): “é uma uva da região Norte/Nordeste da Itália, que ganhou muita projeção através do Mozart – era a uva que resultava no vinho favorito dele, que inclusive o ‘cantou’ na ópera Don Giovanni”, conta.

Além da Marzemino, Felipe cultiva as tintas Nebbiolo, Merlot, Cabernet Franc, Tannat, Teroldego, Syrah, Pinot Noir e Malbec. Entre as brancas, Sauvignon Blanc, Semillon, Chardonnay e a Alvarinho, casta que é objeto de um experimento realizado em parceria com o produtor James Carl, da vinícola Negroponte, também de Monte Belo do Sul: “estamos fazendo a seleção massal da Alvarinho, buscando as melhores plantas para a produção de vinhos e espumantes para re-enxertia na época mais adequada”, explica James (foto acima).

 

O vinhedo percorrido por Felipe diariamente está praticamente todo reformado, e teve as suas áreas de latada convertidas em espaldeiras, mas a cada fileira que passa, o produtor faz algum comentário ou aponta alguma mudança necessária a ser feita – subir a linha, providenciar uma cobertura, muito vento, pouco vento…

Pensando bem, talvez aquela afirmação sobre a perfeição de um vinhedo seja verdadeiramente uma utopia.

Uma nova forma de contar a mesma história

A história da Casa Fantin, é uma história de família. Uma história muito recente e ao mesmo tempo muito antiga. Júlia, aos 24 anos, é uma enóloga recém-formada no Instituto Federal de Bento Gonçalves: “mas trago muito da experiência do que aprendi e aprendo no dia a dia com meu pai”, ressalta.

O pai, Aristides, abriu o negócio em 2001, mas já produzia uvas antes disso: “já plantava, mas resolvi fazer minha vinícola focando na qualidade e não na quantidade”. A empresa é nova, mas a experiência no trabalho vem de gerações: o vinhedo original era de José – pai de Aristides e de suas três irmãs – que herdou o gosto pela terra e pelos vinhedos de Ângelo, seu pai e avô de Aristides. Quem começou toda essa história foi Pietro Fantin – pai de Ângelo – que veio da Itália com a imigração, no final do século XIX. A casa de pedra onde fica o restaurante, um pequeno museu e o receptivo da vinícola foi construída em 1878 – originalmente a casa dos imigrantes funcionava também como local onde o vinho era produzido.

Nas décadas de 40 e 50 as uvas produzidas em sistema de latada por seu José, pai de Aristides, tinham como destino a unidade da Companhia Vinícola Riograndense, em Bento Gonçalves, mas com o passar do tempo as frutas tiveram como destino também marcas como Bacardi Martin, Salton, Chandon e Valduga. Naquela época eram muitas as variedades cultivadas pelos Fantin, entre elas Chardonnay, Riesling Itálico, diferentes Malvasias, Prosecco, Merlot, Barbera, Bonarda, Cabernet Franc. “Tínhamos uvas muito boas naquela época, mas muitas desapareceram, uma pena”, lamenta Aristides. O produtor é muito apegado à Bonarda, por exemplo: “lutei um monte pra recuperar essa variedade, isso é meu sonho. Tínhamos os vinhedos que meu pai cultivava em latada, gostaria muito de cultivar novamente, mas agora só importando as mudas”.

Quando José faleceu Aristides herdou os clientes para quem vendia uvas, até que passou a produzir seus próprios vinhos e deixou de fornecer uvas: “eu passei a vinificar aqui e precisava de matéria prima”, conta.

O negócio inicial em 2001, era uma sociedade com primos que faziam vinho para ser vendido a granel – entre estes primos estava Eugênio Mezacasa, hoje proprietário da tanoaria que leva seu sobrenome. Mas o que Aristides queria mesmo era produzir vinhos finos , então fez mais uma mudança: “em 2007 a empresa passou a ser minha e comecei a conversão dos vinhedos para o sistema de espaldeira simples, a partir do que conheci em algumas viagens pela Itália”, lembra o produtor.

Atualmente a vinícola tem 6.4 hectares plantados, e cerca de 40% desta área já foi convertida para espaldeira: “toda a uva fina que utilizamos na vinícola hoje é derivada de espaldeira simples”, assegura Júlia. O restante da produção, em latada, é vendido a terceiros.

Entre as variedades cultivadas agora para a produção dos finos estão Chardonnay, Prosecco, Moscato Canelli, Marselan, Pinot Noir, Malbec, Merlot e Cabernet Franc.

Entre os rótulos produzidos pela Casa Ângelo Fantin se destaca a linha Reserva Nobre, e nela o vinho por apassimento – produzido ao estilo do Amarone, que Aristides conheceu em suas viagens à Itália. “Nosso foco foi trazer algo diferente”, diz Júlia. O vinho produzido pela Fantin, diferente do original italiano, geralmente produzido a partir de uvas como Corvina, Rondinella e Corvinone, vem em duas versões: um varietal de Cabernet Franc e um corte de Merlot e Cabernet Franc. “Meu objetivo também é em breve começar a elaborar com Marselan”, projeta o produtor.

Além de testar variedades e recuperar uvas que fazem parte de sua história de vida, Aristides tem (pelo menos) mais um sonho: “gostaria que o consumidor conhecesse o processo pelo qual é feito o vinho de apassimento, tivesse contato com a fruta em todas as suas etapas”. A experiência já está sendo planejada e a vinícola está passando por uma reforma para ter esse espaço dedicado, tanto que e pai e filha imaginam que em dois anos já possa ser oferecida aos interessados: “desde a colheita até uva passando pelo processo de secagem em cima das telas (foto acima), como é feito o Amarone, na Itália”, conta Aristides, entusiasmado.

Agora é uma questão de tempo.

Assim como a hora de colher.

 

Leia a matéria a anterior pra tentar entender mais sobre o atraso da safra 2026

Saiba mais sobre a (tentativa de acompanhar) colheita da uva em Monte Belo do Sul:

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aqui no site: Safra com muita uva, mas um pouco atrasada

Fotos: Lucia Porto | Brasil de Vinhos

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