Vinte mulheres que investigam a uva e o vinho no Brasil

Vinte mulheres que investigam a uva e o vinho no Brasil

Quem gosta de vinho geralmente conhece o nome da vinícola ou da uva, algumas vezes sabe onde aquele vinho foi produzido, outros têm conhecimento do nome do enólogo ou do produtor, mas muitas vezes a informação para por aí.

Mas algo que poucas – arriscaria dizer – pouquíssimas pessoas sabem, é o tamanho do envolvimento da pesquisa, da ciência, da tecnologia e do estudo que há por trás de cada garrafa de suco de uva ou vinho que abrimos. E de cada cacho de uva que comemos.

E o que menos pessoas ainda sabem é como é grande o envolvimento das mulheres nesse bastidor do vinho e da uva: são engenheiras agrônomas, de alimentos, farmacêuticas, administradoras, geólogas, biomédicas, biólogas – mestres, doutoras, pós-doutoras – profissionais que ocupam laboratórios, cantinas, vinhedos, que viajam, que degustam, que pesquisam, que inovam: que fazem muitos dos vinhos que degustamos com frequência.

Com vocês 20 mulheres espalhadas pelo Brasil todo que ajudam a qualificar cada vez mais o vinho brasileiro!

Um brinde à ciência, a pesquisa e ao talento profissional de Ana Paula Barros, Andreia Hansen Oster, Ariana Sgarioni, Bruna Carla Agustini, Caroline Dani, Claudia Rita de Souza, Daniela Zottis, Fernanda Spinelli, Isabella Teixeira Bonato, Mara Fernandes Moura Furlan, Patricia Ritschel, Paula Miotto, Raquel Bondan de Lima, Renata Vieira da Mota, Rosemary Hoff, Rosemeire de Lellis Naves, Shana Sabbado Flores, Suziane Antes Jacobs,Tarina Lenk e Thais de Cássia Ogliari.

Saquem a rolha de um belo vinho brasileiro a aproveitem a leitura!

A escolha profissional não foi determinada por eu ser mulher, mas ser mulher me dá ainda mais motivação. Sei que minha trajetória pode servir de referência para outras meninas e mulheres que desejam ocupar espaços na ciência e na vitivinicultura.

Ser servidora pública muitas vezes me blinda de manifestações mais explícitas do machismo estrutural, já que o ambiente acadêmico possibilita progressão baseada em mérito, por exemplo. Ainda assim, a carga invisível que acompanha o fato de ser mulher (e mãe!!!) é real e desafia nossa rotina diariamente.

Ana Paula André Barros é enóloga pelo Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE) e doutora em biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para Ana, a ciência é a principal aliada do desenvolvimento do setor vitivinícola: “o mercado consumidor está em constante transformação, e a indústria precisa acompanhar esse movimento aliando qualidade, inovação e sustentabilidade. Nesse contexto, o apoio institucional e os investimentos contínuos em pesquisas são essenciais para assegurar a consolidação, a expansão e a longevidade do setor”, diz.

Nordestina do sertão baiano, conta que há mais de vinte anos ser enóloga era uma formação profissional que nem conhecia. Incentivada pelo irmão mais velho, ingressou na primeira turma do Curso de Viticultura e Enologia do IFSertãoPE e iniciou os estudos na área em 2005. Depois de formada, atuou por alguns anos na indústria vitivinícola, experiência que consolidou sua escolha profissional e ampliou a compreensão sobre os desafios e as potencialidades do setor. Em 2010, retornou ao IFSertãoPE como docente do Curso de Viticultura e Enologia, e a partir desse momento a pesquisa passou a ocupar um papel importante na em sua trajetória profissional.

Como professora a principal dedicação de Ana Paula é contribuir para a formação de excelência de novos enólogos e enólogas, preparados para atuar no desenvolvimento da vitivinicultura brasileira. Junto a isso, desenvolve pesquisas no IFSertãoPE e em parceria com outras instituições públicas, em estudos que envolvem práticas enológicas voltadas à estabilidade e ao potencial nutracêutico de vinhos e derivados, além do desenvolvimento de novos produtos vitivinícolas, tendo como maior foco dessas pesquisas o avanço e o fortalecimento da região do Vale do São Francisco como polo de referência da vitivinicultura tropical. Além disso, parte dos trabalhos também têm contribuído para a avaliação de viabilidade e consolidação de novas regiões vitivinícolas no Nordeste, como o Agreste pernambucano.

Tiveste a influência de alguma pessoa, algum ‘modelo’ profissional, Ana?

“Minha mãe, Rita. Professora da educação básica, dedicou grande parte da sua carreira à alfabetização de adultos. É, sem dúvida, minha maior referência profissional. Mãe de três filhos, mesmo com todos os desafios, transformou a vida de muitas pessoas por meio da educação. Levo comigo esse mesmo propósito”

Ana foi a primeira doutora da família. Não era algo que ela ou seus pais pudessem sonhar, simplesmente porque não sabíamos que era possível, nem quais caminhos deveriam ser percorridos para alcançar esse título. “Essa conquista vai muito além de um diploma acadêmico, ela representa um avanço geracional e a abertura de novas possibilidades para quem vem depois de mim”, reconhece.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

“Acredite que você é capaz. As barreiras existem, mas não estamos sozinhas. Ao longo da minha trajetória encontrei mulheres fortes, generosas e inspiradoras, que me acolheram e me ensinaram muito. Hoje, tenho a sorte de trabalhar ao lado de um grupo de mulheres que me inspiram e me apoiam diariamente. Juntas, somos potência”.

Sou formada há 35 anos em Agronomia, época em que poucas mulheres escolhiam seguir nessa especialidade. Neste caso, teria sido mais fácil escolher outra profissão. Mas acredito que sou movida a desafios e fui corajosa para seguir em frente mesmo quando o ambiente não era muito propício. A boa notícia é que as coisas melhoraram e hoje somos muitas mulheres na Agronomia e conquistamos nosso espaço. Um bom exemplo é que nossa equipe de trabalho na Embrapa tem sido essencialmente feminina! As meninas na Ciência!

Andreia Hansen Oster (na foto, ao centro), é engenheira agrônoma pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, com Mestrado em Agronomia, na área de Fisiologia Pós-Colheita, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Doutorado em Horticultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

É pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) desde 2005, atuou na Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza (CE), e há sete anos trabalha na Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves (RS).

Andreia afirma que várias áreas do conhecimento estão envolvidas no vinho que degustamos na atualidade e a ciência garante a segurança e a qualidade do bom vinho. Tudo começa no material genético da planta (melhoramento vegetal), no manejo do pomar, no papel da microbiologia, através das fermentações (o papel das leveduras e das bactérias láticas), na influência da geologia e clima (terroir) e tantos outros temas que contribuem para a excelência do produto final.

Na vida da engenheira agrônoma os seus estudos sempre estiveram voltados à uva: “deixo o vinho para meus colegas enólogos’, brinda. Em 2013, ainda como pesquisadora na Embrapa Agroindústria Tropical, fez parte da equipe que realizou uma pesquisa trabalhando com variedades de uvas de mesa desenvolvidas pela Embrapa Uva e Vinho. O objetivo da pesquisa foi caracterizar a resposta fenológica, a exigência térmica e as características físicas e físico-químicas no ponto de colheita das uvas apirênicas – cultivares de uva naturalmente sem sementes, ideais para consumo in natura e tendência de mercado – como ‘BRS Morena’, ‘BRS Clara’ e ‘BRS Linda’, nas condições do Vale do Submédio do São Francisco. Para isto, foram caracterizados os períodos fenológicos, desde a poda até o início das fases de brotação, floração, frutificação, maturação e colheita além dos requerimentos térmicos para cada fase, expressos em graus-dia. Em outras palavras, estudamos a adaptação destas novas variedades na época, sob diferentes condições de clima e manejo.

Tiveste a influência de alguém, algum modelo profissional, Andreia?

“Muitas pessoas contribuíram para minha formação e continuam contribuindo. Sou o resultado profissional de muitas pessoas.Não tenho um modelo: tenho um coletivo!”, afirma.

Com a chegada na Embrapa Uva e Vinho em 2019, naturalmente Andreia foi demandada para atuar mais fortemente na viticultura, atuando como pesquisadora nas áreas de Patologia Pós-Colheita de Frutas e Fisiologia e Tecnologia Pós-Colheita: “estamos focados em estudar as doenças que ocorrem nos frutos, principalmente aquelas que ocorrem na fase de pós-colheita (na fase em que este fruto será armazenado ou comercializado) e buscamos desenvolver conhecimentos e tecnologias aplicadas para reduzir ou mesmo controlar estas doenças, que causam tantas perdas econômicas ao setor”, esclarece.

A pesquisadora explica que atualmente seu foco de pesquisa é o Controle Biológico, através do desenvolvimento de Bioinsumos, utilizando microrganismos benéficos para controlar microrganismos patogênicos, causadores de doenças.

Uma das coisas boas da profissão é ver seu trabalho reconhecido e podendo beneficiar quem produz. Recentemente, como resultado de anos de investimento em recursos e conhecimento, baseado no trabalho de uma equipe multidisciplinar, um projeto de pesquisa com financiamento público/privado do qual Andreia faz parte resultou no desenvolvimento de um bioinsumo para controle de doenças em uva. “Este bioinsumo terá seu registro junto ao MAPA e poderá ser comercializado pela empresa parceira, com benefícios para a viticultura”, comemora.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Ser uma mulher cientista no Brasil continua sendo um grande desafio…. de qualquer forma, seguir esta carreira requer anos de estudo, planejamento de carreira, persistência e trabalho em equipe e redes.

Não sei se o fato de ser mulher determinou minha escolha profissional, eu nunca pensei nessa escolha ser atrelada de alguma forma ao gênero. Para mim era uma vontade, um sonho desde pequena. Porém, se avaliar como um todo uma das minhas avós sempre ajudou ativamente na produção da uva, a outra trabalhou com a produção de vinho ajudando meu avô. Minha mãe assumiu toda a produção de vinho da nossa vinícola. Então, sempre tive muitos exemplos de mulheres trabalhando na área, dessa forma, trabalhar com isso foi natural para mim.

Ariana Sgarioni é formada em Nutrição pela Universidade de São Paulo e em Tecnologia em Viticultura e Enologia pelo IFRS.

“O vinho tem um grande potencial econômico e de transformação regional social, econômica e cultural”, afirma, “temos como exemplo tantos países onde a produção do vinho é grandemente impactante economia nacional. Do meu ponto de vista, o vinho brasileiro tem esse potencial, mas para isso o desenvolvimento da cadeira do vinho precisa ser amparada por um sério programa de governo e nesse programa um dos pilares principais deve ser a pesquisa/ ciência”.

O envolvimento de Ariana com o vinho começou em casa desde a infância, com a família produtora de uvas e vinhos há gerações. Quando entrou na Universidade era muito nova para estudar sozinha em outro Estado, então escolheu estudar Nutrição e durante toda minha graduação já estava envolvida com pesquisas sobre os benefícios do vinho para a saúde, seu conteúdo polifenólico e sua atividade antioxidante. Quando se formei na primeira gradução, finalmente decidi mudar para o Rio Grande do Sul e estudar Enologia.

Atualmente é a enóloga responsável pela produção de vinhos e espumantes da vinícola da família, a Beraldo di Cale, localizada em Jundiaí (SP), e além disso gerencia uma empresa chamada Enoconexão que tem como atividade principal a comercialização de uvas para processamento. Junto com o marido e sócio, administra cursos de vinificação e promove um evento técnico anual chamado Encontro Enoconexão, onde traze pesquisadores de diversos lugares do Brasil e do mundo para discutir os temas mais atuais da viticultura e enologia com os produtores de uva e vinho paulistas.

“Algo que me dá muito orgulho foi ter ajudado a unir o setor vitivinícola paulista quando assumi a presidência da Câmara Setorial da Uva e do Vinho do Estado de São Paulo e depois com um setor mais unido e fortalecido criamos juntos a Associação Paulista dos Produtores de Uva, Vinho e Derivado – Vitis Paulista”, lembra Ariana, com orgulho.

Tiveste a influência de alguma pessoa, algum ‘modelo’ profissional, Ariana?

“Sim, da minha mãe. Ela sempre trabalhou na área administrativa, até que em 2001 resolveu assumir a produção do vinho junto ao meu avô e tornar uma abrir a vinícola comercialmente. Eu era pequena nessa época, mas lembro da determinação e dedicação que ela tinha em entender os conceitos e aprender os processos para a produção do vinho. Foi desafiador pois era um universo completamente diferente do que ela estava acostumada. Isso despertou em mim a vontade de também aprender, entender e mais tarde degustar e elaborar vinhos”

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Seja bem-vinda! É uma carreira apaixonante e dinâmica. A profissão ainda é majoritariamente masculina, porém com número crescente de mulheres na atividade e na liderança de grandes projetos e assinando grandes vinhos.


Atuar na pesquisa é uma experiência desafiadora, que exige resiliência e posicionamento firme. Esse ambiente me ensinou a ser mais assertiva, garantindo meu espaço e minha contribuição sem perder a cordialidade.

Bruna Carla Agustini é farmacêutica, e iniciou seus estudos com uva e vinho ainda na graduação participando de um grupo de extensão em melhoria da qualidade do vinho na cidade de Colombo (PR) em 2007. Ao final da graduação iniciou o mestrado na mesma temática com enfoque na identificação de aminas biogênicas em vinhos de uvas Vitis labrusca. Na sequência fez o doutorado, em parceria com a Embrapa, com foco na identificação de leveduras vínicas e caracterização do seu potencial enológico.

Bruna afirma que a ciência é fundamental para garantir sustentabilidade, qualidade e tipicidade ao vinho brasileiro. “No contexto da microbiologia podemos atuar desde o vinhedo até o produto final. Passamos pela seleção de leveduras autóctones de forma a trazer regionalidade, complexidade aromática e ganhos tecnológicos para a vinificação, além destes elementos terem o potencial de contribuir com a sanidade da uva ou com o desenvolvimento da videira quando selecionadas para uso no campo”, relata.

Atualmente Bruna trabalho com uma coleção de microrganismos da Embrapa que contempla mais de 4500 linhagens de leveduras, as quais são estudadas em duas grandes linhas: enologia e controle biológico. Na enologia atua na seleção e caracterização de leveduras autóctones a fim de enaltecer o terroir das diferentes regiões vitivinícolas brasileiras, enquanto no controle biológico o enfoque é em encontrar leveduras que possuam potencial antagônico às principais pragas e doenças da videira, reduzindo o uso de defensivos químicos e aumentando a sustentabilidade da produção.

“Trabalhar com uma biodiversidade tão grande de recursos genéticos fez nossa equipe ampliar o escopo de caracterização da coleção para além da Enologia, descobrindo um manancial de potencialidades que nos permitiu atuar em campos incrivelmente diversos: probióticos, nutrição animal e vegetal, biorremediação e controle biológico. A versatilidade desses microrganismos é a chave para a inovação, pois são capazes de se adaptar e de gerar valor a partir de variados contextos”, explica a pesquisadora.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

A pesquisa com microrganismos é fascinante, com possibilidades de pesquisa em diferentes escopos, desde alimentos e saúde, até meio ambiente e agricultura. A biodiversidade microbiana encontrada no território brasileiro é um tesouro a ser explorado e, na Enologia, pode enaltecer o terroir e a tipicidade do vinho brasileiro nas suas diferentes regiões produtoras. 

Caroline Dani é biomédica e descobriu sua vocação na área ao fazer o mestrado e ser apresentada à proposta de realizar um projeto envolvendo derivados da uva e saúde: “mergulhei nesse universo”, confessa.

Para Caroline a pesquisa e a ciência são fundamentais, não existem decisões sem pesquisa. A especialista lamenta que ainda por vezes seja necessário explicar isso: “não existe qualquer tipo de evolução sem pesquisa”, reitera, “e o imediatismo às vezes leva a pouca compreensão da ciência, precisamos nos estruturar melhor para ter resultados futuros consistentes”, resume.

Atualmente o foco da estudiosa é o suco de uva e derivados ligado à saúde, com o objetivo de entender como se comportam os produtos nacionais na composição fenólica e a saúde, em especial entender o papel do suco de uva.

Quando pensa em inspiração, Caroline imediatamente lembra do pai, Darci Dani, referência no setor: “mas a professora Mirian Salvador foi uma grande inspiração”, complementa.

Entre as grandes oportunidades de sua vida profissional, Caroline lembra sua participação em um programa Globo Repórter, um momento muito marcante.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Eu acho a pesquisa o cerne de tudo, não existe qualquer decisão sem pesquisa. Eu super aprovo, uma pena que no Brasil o pesquisador ainda seja pouco valorizado. Precisamos melhorar o papel desse profissional no dia a dias das empresas.

Acredito que a ciência não é influenciada pelo gênero. A pesquisa exige, acima de tudo, vocação e dedicação, atributos que são universais. Por isso, nunca vi o fato de ser mulher como um fator que ditasse minha escolha profissional. Eu diria que a profissão que escolhi influenciou muito mais a minha vida como mulher do que o contrário. Ser pesquisadora me completou e moldou a mulher que sou hoje.

Claudia Rita de Souza é doutora em Agronomia/Fisiologia Vegetal, e começou nessa trajetória em1996, na EPAMIG de Caldas, onde realizou sua especialização, logo após a graduação em Agronomia na Universidade Federal de Lavras: “foi na EPAMIG, entre os vinhedos mineiros, que me apaixonei pelas videiras”, confessa. No entanto, percebeu que para entender os resultados agronômicos do campo, precisava ir além do visível e conhecer a fundo a fisiologia das plantas.

A pesquisadora acredita que ciência é fundamental em todas as etapas que garantem a produtividade e a qualidade: “dentro de uma garrafa não está apenas o vinho, mas o resultado de vários processos que exigem rigor científico o tempo todo, desde a gema dormente até a vinificação”, pontua, “é ciência que tem permitido a elaboração de uma infinidade de perfis diferentes de vinhos, trazendo para a taça a complexidade de sabor e aroma dos vinhedos”.

Essa curiosidade levou Claudia de volta à UFLA para o mestrado em Fisiologia Vegetal, onde deu os primeiros passos como cientista explorando os processos metabólicos da videira. A pesquisadora avalia que o grande salto em sua carreira científica ocorreu durante o doutorado no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Portugal, onde pode explorar a ecofisiologia em profundidade, focando no metabolismo fotossintético e nas relações hídricas sob estresse hídrico.

Hoje Claudia trabalha com pesquisa em ecofisiologia da videira, focando no entendimento de como a planta responde às variações ambientais e ao manejo. O objetivo do estudo é identificar as melhores estratégias para equilibrar vigor, produção e qualidade da uva, garantindo que a videira expresse seu máximo potencial no terroir onde está inserida.

Tiveste a influência de alguma pessoa, algum ‘modelo’ profissional, Claudia?

“Sim, tive. Meu maior modelo profissional e um exemplo a ser seguido é minha orientadora de doutorado, a Dra. Manuela Chaves. Ela é uma cientista portuguesa reconhecida mundialmente pela excelência em ecofisiologia da videira. Com ela, aprendi o rigor científico necessário para investigar os mecanismos fisiológicos mais complexos das plantas e conectá-los à realidade prática da viticultura”.

Quando pensa em momentos marcantes da profissão, Claudia lembra de ter participado ativamente de projetos de pesquisa de grande importância aplicada: “estive envolvida no desenvolvimento do manejo de irrigação com déficit hídrico, fundamental para aumentar a eficiência do uso da água nos vinhedos e, mais recentemente, na consolidação da técnica de dupla poda para induzir a colheita de inverno no Sul de Minas. Trabalhar na EPAMIG, junto à equipe que validou essa técnica e permitiu inserir o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil em um novo e próspero cenário vitivinícola é, sem dúvida, o fato mais marcante da minha carreira”, conclui.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Fazer pesquisa é uma excelente oportunidade para as mulheres que buscam uma profissão que nos enriquece constantemente em conhecimento. É uma carreira que exige muita dedicação, mas retribui com descobertas maravilhosas. E se você puder unir ciência, uva e vinho, o caminho fica melhor ainda!

Ser mulher não determinou minha escolha profissional, mas certamente moldou minha trajetória. Atuar em áreas científicas, regulatórias e estratégicas historicamente ocupadas majoritariamente por homens trouxe desafios adicionais no início, mas também fortaleceu minha resiliência, minha capacidade de liderança e minha convicção na importância da diversidade também nos espaços de decisão.

Fernanda Rodrigues Spinelli é engenheira de alimentos com mestrado e doutorado em Biotecnologia e percebeu que o vinho entrou definitivamente em sua vida em 2004, quando fez uma disciplina de Análise Sensorial na faculdade com a professora Regina Vanderlinde, atual presidente honorária da OIV. Fernanda foi convidada por Regina para trabalhar no Laboratório de Referência Enológica onde atua até hoje: “meu primeiro projeto de pesquisa, na época como estagiária, foi sobre os teores de trans resveratrol (composto fenólico benéfico para a saúde) em vinhos brasileiros”, recorda.

Para Fernanda, pesquisa é fundamental: “ciência é a essência do vinho. É ela que nos permite compreender a vinha, interpretar o terroir, preservar identidade e garantir autenticidade. A ciência transforma tradição em conhecimento estruturado, dá respostas diante dos desafios climáticos, tecnológicos e regulatórios, e sustenta a qualidade com base em evidências palpáveis”.

Atualmente, com mais de duas décadas de experiência no setor vitivinícola, a atuação de Fernanda ainda é principalmente na área analítica aplicada à qualidade, autenticidade e rastreabilidade, sendo especialista no desenvolvimento, validação e implementação de métodos analíticos com foco em conformidade normativa.

Nos últimos 10 anos passou também a acumular funções na liderança técnico-científica na definição de padrões analíticos e regulatórios para o vinho e derivados da uva, com atuação estratégica em organismos internacionais e no arcabouço normativo brasileiro. Fernanda atua na Organização Internacional da Vinha e do Vinho como delegada científica do Brasil e presidente de subcomissão de métodos de análise, contribuindo para a harmonização de padrões globais, participa de discussões regulatórias no MERCOSUL, no Codex Alimentarius, na International Federation of Fruit Juice Producers (IFU) e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Além disso, na área de consultoria, assessora o setor público e privado em legislação vitivinícola, métodos analíticos, bem como no atendimento a requisitos regulatórios nacionais e internacionais, atuando integradamente com ciência analítica, interpretação normativa e posicionamento estratégico, oferecendo suporte qualificado para decisões regulatórias e para a garantia da identidade e qualidade dos produtos.

Fernanda, tens algum modelo profissional em quem te inspiras?

“Já percorri por muitos grupos, instituições, organizações, eventos, fiz cursos de sommelier, WSET, tive diversos professores, profissionais que conheci na caminhada, enfim… já me inspirei, fui influenciada (e continuo sendo) por muitas pessoas. Uma grande influência profissional sempre foram os meus pais, que me ensinaram os princípios de vida que nortearam o meu caminho, dos quais eu não abro mão – integridade, respeito, humildade e paixão pelo que eu faço”.

Quando pensa em momentos importantes na sua trajetória profissional, Fernanda volta no tempo: “aconteceu ainda no início da formação. Em meio a dificuldades profissionais e incertezas sobre o futuro, cheguei a considerar deixar o setor vitivinícola para trabalhar em um frigorífico, buscando maior estabilidade imediata. Foi um período de dúvidas reais sobre qual caminho seguir. Felizmente, meus pais me incentivaram a não desistir da área pela qual eu sempre tive paixão. Hoje, olhando para trás, percebo que aquela decisão foi extremamente determinante. Persistir no setor vitivinícola não apenas definiu minha carreira, como também reforçou em mim a convicção de que momentos de incerteza fazem parte da construção de trajetórias sólidas”, reflete.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Venha para o time!

Entre com segurança e invista em uma formação sólida. Construa sua trajetória com consistência, estudo e responsabilidade. Competência e preparo são os pilares de uma carreira respeitada. O setor da vinha e do vinho é amplo e apaixonante, você NUNCA mais vai sair dele! 

 

Ser mulher não influenciou na escolha da profissão, mas na forma como me posiciono. Ainda vivemos em contextos machistas, hoje esse machismo é mais sutil, porém persistente. Lembro claramente de quando fui comprar um trator para o vinhedo: o vendedor perguntou se era para o meu pai, irmão ou namorado. Quando respondi que era para mim, ele disse que não acreditava, mas que faria o orçamento ‘mesmo assim’. O choque só não foi maior quando ele descobriu que o trator seria usado para plantar uva em Brasília. Essas situações só reforçam o quanto precisamos existir nesses lugares.

Isabella Teixeira Bonato é engenheira agrônoma, mestre em Agronegócios, e sempre acreditou que o vinho é um dos produtos agrícolas que mais traduzem o trabalho do agrônomo, afinal: “o vinho é dedo duro e entrega tudo o que ele viveu”, entrega. Sempre quis trabalhar com videiras, mas crescer em Brasília fazia esse sonho parecer muito distante. Com o avanço da viticultura de colheita de inverno e o projeto da vinícola Brasília, o que parecia impossível se tornou o dia a dia de Isa: “hoje posso falar que vivo muito mais do que eu sonhei”, comemora.

Sobre a importância da ciência, ela é direta: “a ciência está em absolutamente tudo que fazemos. O vinho é química, física, matemática, filosofia. A ciência nos permite entender o que estamos fazendo, fazer escolhas melhores, aprimorar processos e caminhar rumo à excelência”, sentencia.

A trajetória acadêmica de Isabella passou por melhoramento citogenético, estudo de competitividade e análise de mercados, mas ressalta dois marcos importantes: a conquista do mestrado onde comparei as três regiões vitícolas no Brasil, e o trabalho com os pesquisadores da Vitis Cerrado, pessoas que já eram referência para mim. No projeto, o grupo estudou o comportamento da videira no Cerrado de altitude, construindo as bases para futuras denominações de origem e mensurando antioxidantes nos vinhos da região.

Hoje atua produzindo vinhos no Cerrado de Altitude, à frente de dois projetos: Oma Sena Vinhos e Vinícola Brasília, sempre agregando pesquisa e ciência nos processos produtivos.

Tiveste algum modelo profissional, Isabela?

“Sim! Muitas mulheres moldaram minha visão de mundo e de trabalho. A principal delas é a minha mãe, que sempre foi meu exemplo de força, visão e coragem e que me ensinou a ocupar espaços que não foram projetados para nós, mulheres.”

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Crie uma rede de apoio. Cerque-se de mulheres que já trilharam esse caminho. Referências femininas são fundamentais para que a gente não se sinta sozinha e avance mais rápido.

Nunca tive qualquer problema por ter escolhido a carreira de pesquisadora.

Mara Fernandes Moura Furlan é engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Goiás, mestre e doutora em Genética e Melhoramento de Plantas pela mesma universidade e tem Pós-doutorado na Itália, na Fondazione Edmund Mach.

Mara começou a trabalhar com uvas quando ingressou no Instituto Agronômico (IAC) em 2005. No ano seguinte assumiu o programa de melhoramento genético da videira e desta forma começou a trabalhar com o banco de germoplasma de videira, que atualmente possui mais de 400 variedades de uvas.

Sobre a ciência, Mara é enfática: “a ciência é extremamente importante para toda a cadeia da vitivinicultura, desde a vinha até à garrafa. Para desenvolver novas cultivares ou adaptar as já existentes às alterações climáticas e às novas condições de cultivo, os estudos científicos nas áreas de genética e melhoramento genético, enologia, fitotecnia, fitopatologia e biotecnologia são fundamentais. Sem investigação, não há inovação nem evolução sustentável em qualquer cultura agrícola.

Além disso, a ciência permite compreender melhor a interação entre solo, clima, casta e práticas culturais — o chamado terroir — possibilitando decisões mais precisas na gestão da vinha. Por meio da análise de solos, do estudo da fisiologia da videira e da monitorização de pragas e doenças, é possível aumentar a produtividade, melhorar a qualidade da uva e reduzir o uso de produtos fitossanitários, promovendo uma viticultura mais sustentável.

Na Enologia, a investigação científica contribui para o controle rigoroso das fermentações, para a seleção de leveduras mais adequadas, para a estabilidade microbiológica e química do vinho e para a sua conservação ao longo do tempo. Técnicas analíticas modernas permitem garantir a segurança alimentar, a consistência sensorial e a autenticidade do produto.

Por fim, a ciência também desempenha um papel crucial na adaptação do setor às exigências do mercado e às preocupações ambientais, apoiando práticas mais sustentáveis, eficientes e resilientes. Assim, a ciência não é apenas um suporte técnico, mas também um motor essencial de qualidade, inovação e competitividade no mundo do vinho”.

Atualmente Mara trabalha na caracterização e na seleção de genótipos da coleção de germoplasma da videira do Instituto Agronômico, tendo como principal foco o desenvolvimento de cultivares de uvas para vinho com resistência aos principais fungos, como o míldio e o oídio. “Nos últimos anos, tenho trabalhado tanto na caracterização fenotípica quanto na genotípica dos acessos da coleção. Nesse período, selecionamos uma cultivar de uva para vinho branco, ‘IAC Ribas’, e a registramos no Ministério da Agricultura e Abastecimento”, pontua.

Além disso coordena parcerias com instituições nacionais e internacionais para avaliação de cultivares PIWIs em condições brasileiras.

Muito estudo, trabalho e dedicação trazem resultados: “quando ingressei no Instituto Agronômico, a maioria dos servidores de apoio não acreditava que eu pudesse permanecer na carreira de pesquisadora trabalhando com uvas, mas, com o tempo, fui adquirindo confiança e experiência na área de viticultura, na qual permaneço até hoje”.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional, Mara?

“Sim, o Dr. Maurilo Monteiro Terra, meu tutor quando ingressei no IAC. Excelente profissional que me apoiou desde o início, fornecendo subsídios para meu conhecimento atual”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Vá em frente! Trabalhar com uvas e vinho é maravilhoso.

De certa maneira, o mundo da Enologia ainda é muito machista, muitas barreiras já foram superadas. Hoje eu me sinto confortável no IFRS e no mundo da pesquisa, onde nós mulheres somos respeitadas. Às vezes ainda acontecem situações, mas muito esporadicamente.

Paula Miotto é bióloga e caiu no mundo do vinho porque passou no concurso do IFRS como técnica de Laboratório e começou a explorar a parte científica.

Paula trabalha com pesquisa de microrganismos autóctones (leveduras e bactérias láticas) para fortalecer a imagem das denominações de origem brasileiras: “meu trabalho é buscar fundamentos científicos para qualificar o vinho brasileiro”, resume.

“O vinho é a bebida mais antiga do mundo”, diz Paula, “e por isso mesmo precisa de pessoas que o tratem com curiosidade e seriedade! O vinho brasileiro é cheio de desafios e oportunidades, e cabe a nós cientistas desbravar este caminho”.

Estudos, pesquisas e dedicação não têm hora nem lugar, como comprova uma lembrança de Paula: “o último projeto que aprovei, sobre vinhos Laranja, me surgiu no final de um dia exaustivo. Estava tomando banho e pensei “vinho laranja é pobre em revesratrol ou ele aparece em quantidades baixas porque não ocorre fermentação com a casca?”. Aí busquei na internet se havia pesquisas neste sentido, então bingo: enviei o projeto pra FAPERGS e obtive aprovação”, comemora.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional, Paula?

“Sim, minha mãe que foi professora durante muitos anos. Me inspirando nela fui buscando realizar um sonho, sempre quis estudar e compartilhar os meus conhecimentos, então trabalhar com educação seria a melhor escolha a ser feita”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

A enologia é apaixonante e muitas vezes muda nossa vida para sempre!

Na verdade, dificultou um pouco no início, já que é um ambiente bastante masculino. Assim, no início da minha carreira, tive um pouco de dificuldade em ser ouvida, mas atualmente já consegui superar esta questão.

Patricia Ritschel (na foto ao centro, de branco) é engenheira agronôma, com pós-graduação em Melhoramento Genético de Plantas, e começou sua vida profissional na Embrapa na área de melhoramento genético de hortaliças, principalmente de batata-doce e cenoura. Em 2005, foi transferida para a Embrapa Uva e Vinho, especificamente para a equipe do programa de Melhoramento Genético “Uvas do Brasil”, que já existia desde 1977, iniciado pelo pesquisador Umberto Almeida Camargo. Embora sejam produtos muito diferentes, o modo de reprodução da batata-doce e da videira são semelhantes e esta experiência prévia me ajudou bastante ao iniciar as atividades no melhoramento genético da videira.

“Apesar de não ter sido inventado, a história do vinho é pura ciência”, diz Patricia, “foi descoberto pelo homem primitivo, certamente um muito curioso, que decidiu experimentar o suco de uvas esmagadas, fermentado naturalmente. Inicialmente a uva era coletada pelo homem, que ainda era nômade, em plantas que ocorriam naturalmente, até que a videira foi domesticada, possibilitando seu cultivo e a evolução de técnicas agronômicas visando o aumento da produção e da qualidade”, ensina. Segue contando que a elaboração do vinho foi aperfeiçoada ao longo do tempo começando com a pisa com os pés, a fermentação em ânforas e o desenvolvimento das primeiras noções do terroir. “A disseminação da videira por todo o mundo também exigiu pesquisa para conhecer as variedades que melhor se adaptavam aos novos ambientes.  E hoje estamos desenvolvendo cultivares para plantio e elaboração de vinhos em novas regiões, como em áreas de clima tropical”, pontua.

Atualmente, Patricia é pesquisadora e coordenadora deste programa, que tem como objetivo geral o desenvolvimento de novas cultivares de videira adaptadas às condições brasileiras e tolerantes às principais doenças que ocorrem no Brasil. O programa é bastante amplo, desenvolve cultivares para diversas finalidades como consumo in natura, para processamento e também porta-enxertos: cada finalidade apresenta objetivos específicos. “Já foram lançadas 24 novas cultivares e nosso maior sucesso é, sem dúvida a BRS Vitória, uma uva de mesa preta, sem sementes, de sabor agradável e muito popular entre os consumidores.  E no caso de uva para processamento, a BRS Lorena e a BRS Magna. Em 2026, foram lançadas três novas cultivares, a BRS Lis e a BRS Antonella, uvas tintureiras para processamento, e a BRS Pérola, uma uva de mesa branca, sem sementes”, resume, orgulhosa.

E importância e a dimensão do Programa de Melhoramento “Uvas do Brasil” sem dúvidas são muito marcantes para Patricia. Em viagem de trabalho aos Estados Unidos ela pode comprovar isso: “lá pude apresentar os resultados para o diretor da Welch – uma das maiores cooperativas norte-americanas, produtora de suco de uva. Ele ficou muito impressionado com a abordagem brasileira, de disponibilizar um grupo de grande de cultivares com esta finalidade, já que nos EUA só se produz suco de uva com a cultivar Concord”.

Tiveste algum ‘modelo’ profissional nesse caminho, Patricia?

“Sim, de uma professora da graduação, na Universidade de Brasília, na matéria de Fisiologia Vegetal, a Professora Linda Caldas. Ela despertou meu interesse na pesquisa, a cadeira de Fisiologia Vegetal foi uma das primeiras monitorias em que eu trabalhei na graduação, auxiliando a professora Linda no planejamento e preparo das aulas práticas”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira: 

O mundo da uva e do vinho é fascinante e desenvolver novas cultivares de videira é ainda mais. Assim, prepare-se para ficar muitas vezes bastante concentrada na vida profissional.

Ser mulher não influenciou a escolha pela Enologia em si, mas certamente minha postura como profissional, as decisões em relação à minha carreira. Trinta anos atrás o número de mulheres na área era ínfimo – e as oportunidades de trabalho, menores ainda. Falo de trabalho em cantina/elaboração mesmo, como eu buscava. Às vezes os questionamentos eram em relação à capacidade técnica. Em outras, incertezas sobre a capacidade física.  Isso fez com que eu tivesse (e como eu, tantas outras antes e depois de mim) que buscar algo fora da zona de conforto.

Raquel Bondan de Lima é enóloga e descobriu o vinho em sua vida por volta dos 13 anos, quando estava concluindo a 8ª série e seus pais fizeram com que ela escolhesse um curso técnico junto ao ensino médio. Entre as opções Enologia tinha biologia/química, matérias das quais gostava: “além disso apreciava a ideia de ter laboratórios para estudar: fiz o exame de seleção e passei. Foi bem difícil no início, mas peguei gosto pela coisa e nunca mais saí da área – lá se vão 30 anos!”.

Para Raquel, a Ciência – ou o conhecimento científico –  está para o vinho assim como o farol está para o navegante: “tu sempre vais poder ir em frente, mas dificilmente vasi conseguir saber para onde está indo. A ciência reduz riscos, melhora a qualidade, aumenta a segurança do produto e garante consistência safra após safra. Claro que o enólogo (ou enóloga) conta muito com um olhar atento, olfato calibrado, sensibilidade e intuição… mas é a Ciência que transforma incerteza em decisão técnica”, resume.

Hoje o foco de trabalho de Raquel e onde mais gosta de atuar é dentro da vinícola, em meio aos tanques, envolvida com fermentações, afinamento, evolução e controle dos vinhos em suas diferentes etapas. A especialista atua na vinícola-escola do IFRS – Campus Bento, e sempre q possível realiza atividades em vinícolas de amigos e colegas, o que permite ter acesso às novidades técnicas, insumos, equipamentos: “é como atualizar o sistema operacional”, brinca.

Durante a atuação de Raquel como pesquisadora, ela já percebeu e viveu diversos momentos: novos modelos de negócios, novos consumidores buscando novos produtos – mas isso ainda gerido por pessoas que tem um pensamento antigo. Um problema e uma oportunidade. Há também a questão do Enoturismo, cada vez mais importante nas vinícolas: “responde por uma fatia grande do faturamento, apresenta os valores, a missão e os fundamentos para o público, vai muito além de simplesmente oferecer os produtos: entrega experiências potencialmente inesquecíveis para os visitantes. Acredito que deve ser cada dia mais bem organizado e aprimorado, pois pode fidelizar o cliente ou fazer ele correr dali”. Mais do que isso, Raquel reforça: o vinho cativa. “Não tenho certeza se o vinho em si, mas conheci e trabalhei com pessoas de áreas de trabalho transversais à Enologia (gestão, turismo, logística, TI) que passaram a se interessar, estudar ou atuar no setor vitivinícola depois de uma primeira oportunidade incidental”.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional, Raquel?

“Para entrar no setor vitivinícola, não. Mas a partir do momento que abracei a Enologia como minha ‘vocação’, algumas pessoas me inspiraram: professores Idalêncio Angheben, Rosa Milani e a saudosa Maria Antônia Ferreto. Muito aprendi também com Orgalindo Bettú. Admiro o trabalho de muitos outros colegas, seja pelos produtos que elaboram, seja pela humanidade que demonstram junto de suas equipes”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

SE JOGA!

Ela exige dedicação, vai tomar muitas noites, alguns finais de semana, todos os Carnavais e possivelmente um ou outro recesso de final de ano. Mas é uma profissão linda, cheia de possibilidades. E cada uma delas vai despertar curiosidade e interesse em outras tantas áreas de conhecimento. Enologia não é só Química, Biologia e Física. Tem História, Geografia, Artes… vale cada gota de suor!! 

 

 Acredito que não. Escolhi a engenharia agronômica por abranger as áreas de ciências exatas e biológicas e me encantei pela diversidade de opções de atuação profissional. Acabei seguindo para a área de pesquisa por afinidade também, porque sempre gostei do trabalho no laboratório.

Como mulher, acho muito importante ter certa flexibilidade, principalmente quando se tem filhos pequenos. Acho que esse seria um fator que influenciaria

Renata Vieira da Mota é engenheira agrônoma, doutora em Ciência dos Alimentos, e passou a trabalhar na área em 2003 quando entrou entrei na Epamig, no campo experimental de Caldas, como bolsista recém doutor do CNPq. Na ocasião, a pedido do coordenador da pesquisa, fez um projeto com processamento de frutas. Dois anos depois Murillo de Albuquerque Regina – um dos ‘pais’ do sistema da dupla poda – estava coletando os primeiros resultados com o experimento e a convidou para fazer parte da equipe. No mesmo ano prestou o concurso e em 2006 ingressei definitivamente como pesquisadora da equipe de vitivinicultura.

Atualmente trabalha com avaliação da composição das uvas e vinhos, verificação de manejo e a interferência do ambiente na composição física, química e sensorial.

Sobre a importância da ciência para o vinho, a pesquisadora é direta: “a ciência é essencial para o desenvolvimento em qualquer setor. O conhecimento da composição, dos processos, permite a ação humana na busca de melhoria da qualidade, elaboração de novos produtos, e isso impulsiona o desenvolvimento tecnológico, a inovação e a economia. Aqui no Sudeste a introdução da técnica da dupla poda da videira é um exemplo da aplicação do conhecimento no desenvolvimento de toda uma cadeia produtiva. Testamos cientificamente a hipótese de produzir uvas finas em um período com condições climáticas ideais para a maturação das uvas com o emprego de uma técnica de poda que possibilitasse essa produção. Avaliamos a produtividade, as condições edafoclimáticas, a composição das uvas e do vinho. Comprovamos a qualidade e o setor produtivo investiu neste conceito – hoje o vinho de colheita de inverno já ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais, sendo produzido em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Espírito Santo, Chapada Diamantina, Mato Grosso”, lista. E lembra que o crescimento não para: “as pesquisas continuam com indicação de cultivares, testes com porta-enxertos, técnicas de manejo, irrigação, nutrição, controle de doenças, leveduras, espécies de madeiras brasileiras como alternativas ao carvalho no envelhecimento, sempre buscando um produto final de qualidade e novas experiências para o consumidor”.

A pesquisadora lembra que quando entrou no laboratório da Epamig pela primeira vez em 2003 teve um choque de realidade. Recém-saída do laboratório de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, onde trabalhou com purificação enzimática, acompanhou alguns testes com biologia molecular em um laboratório que recebia pesquisadores do mundo inteiro, superequipado. Em Minas Gerais se deparou com um laboratório praticamente vazio, com um refratômetro, uma bureta, um pHmetro e uma balança: “foi realmente um choque, mas também um desafio conseguir fazer uma boa pesquisa nesta instituição que me acolheu. Conseguimos comprar um espectrofotômetro e dei conta de fazer as atividades previstas no projeto da bolsa de recém doutor. Com o tempo fomos aprovando novos projetos de pesquisa e hoje temos um laboratório bem equipado, que deixa algumas instituições invejosas da nossa estrutura. É uma conquista que traz muito orgulho”.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional, Renata?

“Meu modelo profissional na área analítica é o meu orientador de doutorado, o professor Franco Maria Lajolo, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas/ USP.  Na viticultura, o Dr. Murillo de Albuquerque Regina me ensinou muito sobre o cultivo da videira e o apreço por essa cultura”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

“A pesquisa é uma área fascinante e nunca monótona. Sempre tem uma novidade, uma nova descoberta, um novo caminho a trilhar. Mas é preciso disciplina, paciência, curiosidade e muita dedicação. Precisa gostar muito porque o pesquisador não tem horário de trabalho. Assim como conseguimos ter flexibilidade, é impossível ter finais de semana e feriados totalmente livres. Sempre tem artigos para ler e escrever, relatórios, prazos…Meu filho me disse que não quer seguir a minha profissão porque eu estou sempre trabalhando. Mas o conhecimento é contagiante e sempre temos muito a aprender.

Nunca busquei uma atividade por ser biologicamente mulher, apenas pelas minhas afinidades na ciência. Queria ser astronauta desde a ida da Apolo 11 na Lua, mas fiquei no estudo de imagens de satélite!

Rosemary Hoff é engenheira geóloga e especialista em gerenciamento ambiental (UNISINOS), mestre em sensoriamento remoto e doutora em Geociências (UFRGS), atua como pesquisadora em sensoriamento remoto e geoprocessamento na Embrapa.

O setor entrou na vida da pesquisadora em 2005 quando entrou na EMBRAPA por concurso público para a área de sensoriamento remoto e geoprocessamento, sendo direcionada para a Embrapa Uva e Vinho em Bento Gonçalves, onde atua com as indicações geográficas vitivinícolas.

“A ciência tem toda a importância, desde a escolha da região pelo solo, clima, manejo, fisiologia, fitotecnia, melhoramento: são tantas especialidades que vejo meus colegas da Embrapa desenvolverem que posso esquecer algum”, confessa.Em décadas de profissão, Rosemary pontua diversos momentos marcantes – as muitas viagens e trabalhos de campo que fogem da rotina do dia a dia são exemplos disso – mas talvez os mais emocionantes sejam bem recentes: “o trabalho nas áreas impactadas pelos eventos climáticos de 2023/2024 está sendo muito importante e, às vezes, chocante, mas solidário com as comunidades atingidas”, conta.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Faça TUDO o que quiser, não deixe de experimentar, siga em frente e não peça opinião de quem ou algo que possa freá-la! Somente que possa lhe adiantar na carreira.

Sim, e de forma determinante, ser mulher ainda exige um esforço constante de afirmação da nossa autoridade técnica. Frequentemente, nos deparamos com um ceticismo silencioso — seja no campo, junto aos produtores, ou no próprio ambiente corporativo — em que a credibilidade da nossa informação técnica é testada de uma maneira que raramente ocorreria com um colega homem. Superar essa barreira cultural requer um rigor profissional dobrado.

Além do desafio da legitimidade, há a complexidade da conciliação entre carreira e vida pessoal. Como pesquisadora e mãe solo, a logística de viagens constantes e a execução de projetos em diferentes regiões produtoras sempre impuseram um peso emocional e prático muito grande. A viabilização do trabalho virtual foi um avanço importante, mas a trajetória de quem precisa equilibrar a excelência na ciência com a criação de um filho é, por si só, uma prova de resiliência. Ocupamos esses espaços hoje porque nossa competência se impôs aos desafios.

Rosemeire de Lellis Naves é engenheira agrônoma, Mestre e Doutora em Fitopatologia e conta que a pesquisa no setor entrou em sua vida após ser aprovada em um concurso da Embrapa em 2002, quando foi trabalhar na Embrapa Uva e Vinho, na Estação Experimental de Viticultura Tropical, em Jales, SP. A partir dali, passou a se dedicar exclusivamente com doenças da videira.

“A Ciência é o alicerce da vitivinicultura moderna”, afirma Rosemeire, “é ela que fornece as ferramentas indispensáveis para a obtenção de vinhos com alta qualidade, consistência e valor agregado. Historicamente, a ciência transformou a produção de uma prática puramente intuitiva em uma atividade que une técnica, precisão e previsibilidade. Atuando da planta à taça, o rigor científico permite ajustes precisos no manejo do solo e do vinhedo, além de promover o melhoramento genético que amplia a diversidade de cultivares adaptadas a diferentes regiões — o que reduz a suscetibilidade a doenças e aumenta a sustentabilidade do setor. Aliada a técnicas enológicas refinadas, a pesquisa garante não apenas a segurança alimentar e a integridade do produto, mas, sobretudo, o aprimoramento sensorial da bebida. Em suma, a ciência é o que permite que o potencial de cada região seja entregue com o máximo de qualidade no produto final”.

Como fitopatologista, trabalha com diagnose, epidemiologia e controle de doenças da videira em regiões tropicais, um trabalho focado em identificar as doenças que ocorrem no vinhedo, estudar como elas progridem no campo e as variáveis climáticas que favorecem o seu desenvolvimento, bem como estabelecer medidas de controle para que elas não causem danos e perdas na colheita.

Quando pensa em um fato marcante, Rosimeri lembra de algo negativo, mas que marca a questão da condição feminina: “durante a prospecção de um projeto em uma propriedade vitivinícola, eu estava acompanhada de três colegas pesquisadores homens. Inicialmente, o proprietário assumiu um papel social para mim, acreditando que eu fosse a esposa de um deles. No momento em que minha função técnica como cientista foi esclarecida, a postura dele mudou para um assédio direto e desrespeitoso, passando a se referir a mim apenas como ‘menina’ — um termo utilizado ali para infantilizar minha presença e deslegitimar minha autoridade profissional. A situação tornou-se tão ostensiva que meus próprios colegas precisaram intervir para me resguardar das investidas e do tom pejorativo do produtor. Foi um episódio deprimente, mas que reforçou minha determinação em ocupar esses espaços, exigindo que a competência técnica seja o único critério de avaliação, independentemente do gênero”, lamenta.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional?

“Minha trajetória foi profundamente influenciada pelo ambiente acadêmico desde cedo. Durante a graduação em Agronomia, iniciei monitorias e projetos de iniciação científica no Departamento de Fitopatologia, onde segui até a conclusão do doutorado. Nesse período, o corpo docente foi fundamental na minha formação, especialmente meu orientador, o Prof. Vicente Paulo Campos, que foi um modelo de rigor científico e dedicação à pesquisa.

No entanto, tive uma referência feminina essencial: a Profa. Antônia dos Reis Figueira. Uma das poucas mulheres no departamento na época, ela se tornou uma inspiração pela excelência com que conduzia sua vida profissional — na liderança de pesquisas e na orientação de inúmeros alunos — sem abdicar da sua vida pessoal. Observar como ela equilibrava a autoridade científica com o papel de mãe e esposa foi, para mim, a prova de que era possível ocupar todos esses espaços com competência e naturalidade”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Àquelas que pretendem ingressar na carreira científica, especialmente nas ciências agrárias e na vitivinicultura, meu recado é: o caminho é árduo, mas extremamente recompensador. Não há nada mais gratificante do que ver o resultado de anos de pesquisa resolvendo um problema real no campo — salvando uma colheita ou impedindo que um produtor desista da sua atividade. É nesse momento, quando a confiança e a gratidão do produtor se manifestam, que percebemos o impacto social do nosso trabalho e as dificuldades ficam em segundo plano.

É fundamental ter em mente que somos plenamente capazes e eficientes para ocupar qualquer espaço que desejarmos, independentemente das barreiras que ainda tentem nos frear. Podemos, sim, assumir todos os papéis — profissionais e pessoais — conforme nossas escolhas, sem nos deixar afetar pelas pressões sociais que nos cobram diariamente. A nossa competência é a nossa maior resposta às expectativas externas.

Sabemos que o setor do vinho ainda é muito masculino, mesmo olhando no contexto internacional. Nós mulheres estamos cada vez mais presentes, e também galgando posições importantes dentro do setor, seja no âmbito institucional, profissional ou acadêmico, mas ainda é um longo o caminho a percorrer. A primeira turma de técnicos do IFRS era composta apenas por meninos! Hoje, as mulheres são maioria em todos os níveis.

Não sei dizer se ser mulher influenciou escolher as áreas que eu trabalho, mas certamente a minha forma de atuação acaba sendo diferente, por ter um outro olhar sobre a área e os seus desafios. 

Shana Sabbado Flores é bacharel em Administração, mestrado e doutorado em Geografia e entrou no mundo do vinho, segundo ela, por acaso: “primeiro que eu era uma jovem que nem bebia álcool! Aí durante o mestrado em gestão da cadeia logística na França tinha uma disciplina chamada Enologia, que era a ideia de dar uma formação mais geral para que os profissionais também tivessem outros assuntos de cultura geral em sua formação. Ali comecei a estudar as regiões e suas especificidades e não parei mais”, lembra.

Depois disso passou a se aprofundar em indicações geográficas e se envolveu com o processo da I.G dos vinhos da Campanha Gaúcha – e a partir dali não parou mais: “desde então atuo na coordenação do Programa pós-graduação em viticultura e Enologia (PPGVE)”, resume.

Hoje seu trabalho tem três linhas principais: indicações geográficas, sustentabilidade e inovação: “também participo de algumas redes internacionais de pesquisa no tema e como referência técnica. Estou representando o Brasil na OIV para as discussões referentes à patrimônio vitivinícola”, pontua.

Sobre vinho e ciência andando juntos, Shnna aponta direções: “a ciência atalha muitos caminhos! Coisas que na tentativa e erro levariam muitos anos, a ciência pode ter seus esforços otimizados. Além disso, contribui para fazermos coisas diferentes em todas as áreas, além fazer mais e melhor”, explica, “no mundo do vinho temos aquela máxima de aliar tradição e tecnologia. A ciência não é inimiga da tradição, ao contrário, pode ser uma ferramenta para reforçar a identidade”.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional?

“Na minha vida tive oportunidade de conviver com profissionais excepcionais, que foram mentores e depois se tornaram colegas de pesquisa. Vou destacar a Ivanira Falcade, professora da UCS, que nos deixou em 2024. Ela foi uma referência no trabalho com indicações geográficas e paisagem vitivinícola, extremamente técnica em sua área e aberta ao trabalho interdisciplinar. São características de excelência que busco desenvolver a cada dia”

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

Se fazer coisas novas e descobrir primeiro coisas que ninguém ainda viu faz os olhos brilharem, se joga!

A vida de pesquisador é difícil e nada glamourosa. São muitas e muitas horas lendo, analisando ou a campo, mas a sensação de ver as nossas descobertas e o nosso trabalho em prática, mesmo que na maioria das vezes a gente não seja citada diretamente, é muito especial, inexplicável.

Com dedicação, ética e trabalho, pode demorar, mas o resultado vem – mas não esqueça de ter um hobby. 

Por fim, não tenha medo de arriscar de vez em quando tem gente que tem medo de não dar conta, tenha medo de perder oportunidade. 

 Ser mulher pode influenciar a escolha profissional, mas não a determina. Acredito que a decisão por uma carreira está, sobretudo, relacionada ao propósito, aos interesses, às habilidades e às oportunidades individuais, sendo o gênero apenas um dos diversos elementos que compõem esse processo. Desde a infância, sonhava em ser professora; o perfil de pesquisadora, no entanto, foi sendo construído e reconhecido ao longo da graduação. Tive a oportunidade de estudar uva e vinho desde cedo e de retomar esse trabalho na pós-graduação, o que tornou minha escolha profissional resultado de um percurso consciente e consistente — não de um impulso, mas de uma decisão amadurecida ao longo do tempo.

Suziane Antes Jacobs é bacharel em Química de Alimentos e doutora em Biotecnologia. A Enologia passou a fazer parte da sua trajetória em 1996, quando iniciou o curso Técnico em Enologia na Escola Agrotécnica Federal Presidente Juscelino Kubitschek, em Bento Gonçalves, motivada pelo incentivo do irmão mais velho. Seu envolvimento com a pesquisa em uva e vinho consolidou-se em 2006, durante o mestrado. Atualmente, as pesquisas coordenadas por Suziane têm foco principal em Enologia e Viticultura de baixo impacto ambiental e uso de leveduras autóctones em processos de vinificação.

A ciência revolucionou o mundo do vinho — e continuará a transformá-lo”, diz a pesquisadora, “foi por meio dela que se demonstrou a possibilidade de produzir vinhos de qualidade em regiões antes consideradas impróprias para a vitivinicultura, ampliando a compreensão sobre tipicidade e expressão de terroir”, complementa. “Além disso, a pesquisa científica impulsionou o desenvolvimento de insumos, processos e equipamentos que modificaram profundamente a forma de cultivar uvas e elaborar vinhos, elevando padrões de qualidade e eficiência. Mas seu papel mais relevante talvez seja indicar os caminhos mais responsáveis para o futuro do setor. Não basta saber produzir um vinho de qualidade; é fundamental fazê-lo com consciência, sustentabilidade e responsabilidade ambiental, garantindo que inovação e preservação caminhem juntas”, resume.

Suziane conta um fato marcante na trajetória como pesquisadora que ocorreu durante o doutorado em Biotecnologia. “Iniciei o projeto utilizando frutos de morango como modelo biológico — cultivei e colhi os frutos, realizei a extração de RNA e a síntese de DNA complementar, armazenando cuidadosamente todo o material em ultrafreezer no departamento. Foram duas safras inteiras de trabalho intenso e minucioso”, lembra. “No meio do doutorado, prestei concurso para professora na Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e fui aprovada. Assumi o cargo em outubro de 2011. Em novembro, recebi a ligação da aluna que trabalhava comigo: havia ocorrido uma queda de energia, e todo o material armazenado — resultado de duas safras — havia sido perdido. Foi um momento extremamente difícil. Além do impacto emocional, precisei lidar com a necessidade de reestruturar completamente o projeto, agora já estabelecida como docente em Dom Pedrito”, conta. “Diante desse cenário, adaptei a pesquisa às condições e oportunidades locais. Foi nesse processo de reinvenção que nasceram meu interesse e minha paixão pelas leveduras autóctones, tema que passou a orientar minha trajetória científica a partir de então. Hoje, percebo que aquele episódio, embora doloroso, foi determinante para redirecionar minha carreira e consolidar minha identidade como pesquisadora”, constata.

Tiveste a influência de algum ‘modelo’ profissional?

“Meu irmão mais velho foi meu grande incentivador nessa escolha. Somos descendentes de imigrantes alemães, sem tradição familiar na vitivinicultura. Quando meus pais foram transferidos da região das Missões para a Serra Gaúcha, ele vislumbrou na mudança — e na minha afinidade com a Enologia — uma combinação promissora, que poderia resultar em uma trajetória de sucesso”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

A primeira dica que eu daria é a mesma que sempre dou para meus alunos: Sejam apaixonados! É preciso amar o que se faz para fazê-lo bem-feito e buscar sempre a excelência. Estudar muito e se atualizar sempre! Especificamente na Enololgia, é preciso saber que por trás de uma taça de vinho tem muito trabalho e pesquisa envolvidos.

Acredito que o meio acadêmico potencializou minha carreira como pesquisadora e professora de uma instituição pública de ensino, pois proporciona um ambiente mais igualitário e humano. A academia valoriza o conhecimento e a competência. Assim, ser mulher nesse ambiente de trabalho é muito gratificante e motivador.

Vejo muitas amigas que trabalham no setor privado, em fazendas e empresas, enfrentando desigualdades salariais e falta de oportunidades de crescimento. No IFSP, não enfrento esse problema; ao contrário, sinto-me muito valorizada. Desenvolvo pesquisas em diversas frentes e participo de editais que avaliam minha competência de forma técnica e criteriosa.

Incentivaria mais mulheres a se tornarem professoras de instituições públicas federais de ensino.

Tarina Unzer Macedo Lenk, Doutora e Pós-Doutora em Enoturismo, começou seu envolvimento com a pesquisa da uva equanto trabalhava como professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), em Petrolina (PE). “Nesse período, realizei estudos com mulheres trabalhadoras de fazendas de uva de mesa da região, ali tive a oportunidade de realizar pesquisas qualitativas, identificando a realidade de vida dessas trabalhadoras entre os anos de 2008 e 2011”, relata, “os frutos destes trabalhos contribuíram para a minha pesquisa de mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com a temática ‘A realidade de vida de mulheres trabalhadoras de fazendas de uva do Vale do São Francisco, em Petrolina’. Essa experiência abriu um novo olhar para futuras frentes de ação bem como compreender o setor produtivo da cadeia da uva e do vinho”, completa.

Alguns anos depois atuou na construção do curso de Tecnologia em Viticultura e Enologia (TVE) do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), na cidade de São Roque (SP), desde então atua como professora no local, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Tens algum modelo que te inspirou, Tarina?

“A principal pessoa que vem influenciando minha área de atuação é meu esposo e companheiro de vida, Fábio Laner Lenk. Nossa trajetória de parceria na área de estudo da Vitivinicultura começou em Petrolina e foi potencializada em São Roque, ao passarmos a trabalhar juntos no mesmo curso do IFSP. Trocamos experiências, projetos e perspectivas de vida sempre conciliando áreas de estudo e interesses para o desenvolvimento local. Posso dizer que são poucas as pessoas que têm o privilégio de trabalhar com alguém que é, simultaneamente, parceiro, mentor, amigo e amor da vida. Acredito que essa é a forma mais harmoniosa de amar alguém plenamente, com respeito, parceria e cumplicidade”.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

O recado que deixo às mulheres que desejam atuar no setor público como professoras de instituições de ensino é: buscar um local e um curso que atendam áreas de conhecimento com as quais você possa contribuir com projetos inovadores e efetivos. Busquem, antes de tudo, aquilo que vocês gostam de estudar. No meu caso, segui esse caminho ao estudar o setor do turismo e conciliá-lo com o setor de vitivinicultura: o Enoturismo. No ano de 2025 pude realizar pesquisas avançadas de Pós-doutorado na área de Enoturismo fora do país na Universidad de La Rioja na Espanha. Esta oportunidade conquistada, demonstra a seriedade do investimento em educação da rede federal de ensino, e que depende somente da competência profissional dos professores. A paixão pelo estudo e a vontade de contribuir para a melhoria de uma comunidade fazem com que você permaneça na instituição por muitos anos. No meu caso, já são mais de 20 anos de dedicação.

A ciência deve ser um espaço de competência e mérito. No entanto, é inegável que ser mulher na pesquisa ainda implica desafios específicos. Minha escolha profissional foi guiada por vocação e interesse intelectual, mas minha permanência e consolidação na área também envolveram resiliência e determinação. Hoje, vejo minha atuação como uma forma de ampliar a representatividade feminina no setor científico.

Thais de Cassia Ogliari, graduada em Tecnologia de Alimentos e Engenharia de Alimentos com especialização em Controle de Qualidade pela Universidade do Oeste da Santa Catarina – Campus de Videira (SC). Por muitos anos, trabalhou com análises físico-químicas, cromatográficas e sensoriais na pesquisa de componentes de vinhos e bebidas na Epagri e na Universidade do Oeste de Santa Catarina onde lecionou e coordenou projetos. Atualmente trabalha em laboratório com controle de qualidade de águas bruta, tratada e residual.

O envolvimento de Thais com o estudo da uva e do vinho iniciou em 1995, quando estava no segundo grau técnico e iniciou trabalhando pelo Sindicato das Indústrias do Vinho no laboratório de pesquisa da Epagri na realização das análises de qualidade dos vinhos fabricados. Além disso acompanhava os enólogos nas análises sensoriais e concursos de vinhos, sempre com foco principal está em análises de qualidade e dos compostos funcionais presentes em vinhos, bebidas, alimentos. No momento, o foco está principalmente relacionado à análise sensorial e harmonizações que realçam e combinam os sabores tanto do alimento como do vinho.

“O vinho é resultado de um processo biológico complexo”, diz Thais, “e a ciência é fundamental para compreender os fatores climáticos, genéticos, microbiológicos e tecnológicos que influenciam sua qualidade. Sem pesquisa, não há avanço em sustentabilidade, adaptação às mudanças climáticas, controle de qualidade ou desenvolvimento e melhoramento das técnicas”, pontua. “A ciência é o elo entre tradição e inovação no setor vitivinícola”, resume.

Tiveste algum “modelo” profissional?

Sim. Ao longo da minha trajetória, fui inspirada desde cedo por minha mãe Leonida Salete que era professora e tinha o sonho de trabalhar na área química e em laboratório, cuja postura ética, responsabilidade e dedicação à formação de estudantes serviram como modelo para mim. Após este período, poderia citar vários nomes de pessoas intimamente ligadas à enologia e à pesquisa, desde colegas de trabalho e professores que me incentivaram e deram suporte para que eu permanecesse com interesse na área. Ter referências sólidas é fundamental para consolidar uma carreira científica.

Um recado para quem pensa em seguir essa carreira:

“Invista em formação sólida, busque mentores e não subestime sua capacidade técnica. A área de pesquisa, controle de qualidade e tecnologia, seja ela relacionada a vinhos, alimentos ou mesmo à água é uma área multidisciplinar que exige conhecimento, curiosidade e perseverança. Há espaço para inovação, liderança e protagonismo feminino. A ciência precisa da diversidade de olhares para evoluir”.

 

fotos: arquivo pessoal das entrevistadas

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