Enoturismo nas Américas – qual o nosso lugar?

Enoturismo nas Américas – qual o nosso lugar?

Um encontro inédito reuniu diversas lideranças do Turismo no Brasil em São Paulo no mês de agosto, já relatamos algo aqui no Brasil de Vinhos. Uma programação intensa que apontou caminhos, direcionamentos e cutucou pontos importantes para o crescimento do Enoturismo, um representativo motor para economia do Brasil.

Deborah Villas-Bôas Dadalt, jornalista e CEO do SPA do VINHO (foto acima), entre outras diversas atividades ligadas ao setor que exerce, esteve presente no I Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas de duas formas, como espectadora e como palestrante. Passados alguns dias do evento, ela compartilha conosco algumas de suas reflexões.

Boa leitura


 

Enoturismo nas Américas – qual o nosso lugar?

*Deborah Villas-Bôas Dadalt

Um expressivo público formado por entidades do Turismo, investidores, produtores, especialistas e representantes de 10 governos, em especial Argentina, Chile, Uruguai, Peru, Paraguai e México, reuniu-se em um esforço colaborativo inovador: estruturar uma plataforma valiosa de articulação entre poder público, organismos internacionais e iniciativa privada para fortalecer o Enoturismo e a Gastronomia das Américas, utilizando vinho e produtos de origem como instrumentos de desenvolvimento territorial, geração de negócios, emprego e renda.

A grande estrela da integração continental

“O Brasil recebeu 5,26 milhões de turistas internacionais no primeiro semestre de 2026, que gastaram R$ 28,7 bilhões em um setor que emprega 2,4 milhões de trabalhadores”. Com estes números recordes, Gustavo Feliciano, ministro do Turismo, abriu os debates do Fórum, pontuando que “mais de 85% das vinícolas do Brasil já oferecem experiências relacionadas ao turismo. O que precisamos é fomentar cada vez mais essas experiências e a qualidade do nosso produto”. Além do vinho, café, erva-mate, cacau, queijos, azeites e chocolates foram apresentados dentro de uma ampla lógica de desenvolvimento territorial nas Américas – o turismo de experiência com produtos certificados. Neste cenário, a estrela do evento foi com certeza o Enoturismo, eleito estrategicamente como principal ferramenta de desenvolvimento e integração socioeconômica no turismo do continente. “O Enoturismo é uma nova linha de receita, promoção de marca, fidelização e impulso exportador, com um pensamento sistêmico que, no final das contas, fixa o produtor e desenvolve a região produtora”, declarou o CEO e Publisher de ADEGA, Christian Burgos.

O 1o Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas foi lançado oficialmente em 21 de julho deste ano, no Hotel Unique, em São Paulo, com a presença do ministro Feliciano e de Heitor Kadri, diretor regional da ONU Turismo para as Américas. A capital paulista foi definida como cidade- sede por sua relevância como destino gastronômico e porta de entrada do turismo internacional no Brasil. Em prazo recorde, o núcleo idealizador e executor integrado pela Revista ADEGA/Inner Group e a ONU Turismo, através do Diretor de Investimentos Daniel Nepomuceno, estruturou o evento com colaboração institucional e financeira da Prefeitura de São Paulo a apoio da Embratur. Uma projeção da consultoria Persistent Market Research, muitas vezes repetida em diferentes painéis do evento, dá conta de US$ 138,4 bilhões movimentados globalmente até 2033 pelo turismo de experiências imersivas em territórios produtores de vinho. “Este Fórum colocará nossa região dentro dos principais roteiros do mundo”, afirmou Daniel Nepomuceno, diretor do escritório da ONU Turismo para as Américas e Caribe, inaugurado recentemente no Rio de Janeiro para estimular iniciativas de desenvolvimento regional. Foi o crescimento do Enoturismo nos últimos anos que motivou o evento, para debater políticas públicas, investimentos e a promoção internacional das rotas do vinho. No mesmo contexto, a Gastronomia figurou como pilar de identidade cultural e competitividade turística. Dados apresentados pelos organizadores mostraram que 75% dos turistas das Américas consideram a culinária local um fator decisivo na escolha de um destino, enquanto cerca de um terço dos gastos durante a viagem é destinado à alimentação e bebidas. No Brasil, apurou-se que 90% dos turistas estrangeiros avaliam positivamente a culinária nacional.

Outro tema abordado foi a necessidade de aproximar produtores rurais de investidores e instituições de fomento. Representantes de agências como Invest SP, Invest Minas e Invest RS participaram das discussões sobre financiamento e capacitação para pequenos e médios produtores. José Vicente Ramos, da Artos Capital, ressaltou a necessidade de “transformar a produção agrícola em experiências turísticas de maior valor agregado, com investimentos em infraestrutura, qualificação profissional e criação de novos roteiros.” A discussão sobre a cadeia de valor do setor e a gestão do enoturismo contou com representantes de vinícolas, operadores de turismo, restaurantes e profissionais ligados ao setor, como a arquiteta especializada em vinícolas, Vanja Hertcert. Especialistas como Ivane Fávero, Lucinara Masiero e Artur Farias apresentaram índices do mercado e a recém-lançada Escola de Enoturismo, destinada a qualificar os profissionais do setor. Entre os cases nacionais e internacionais de sucesso, estiveram presentes cidades brasileiras que ostentam títulos e tradições culinárias expressivas, como Belém (PA) e Belo Horizonte (MG). Representantes do café, outro pilar cultural e econômico brasileiro, trouxeram iniciativas aliadas ao turismo, a exemplo da dinâmica produtora Eliana Rodrigues, idealizadora da Cooperativa de Café Especiais das Mulheres, em Boa Esperança (MG).

Com foco no enoturismo, Matheus Vigel, diretor da plataforma Wine Locals, detalhou os números e tendências no mercado de experiências do vinho. Os cases de sucesso convidados foram as vinícolas Miolo, Ercoara e Philosophia, além do condomínio vitivinícola SPA do VINHO, complexo enoturístico do Vale dos Vinhedos em plena expansão para o Brasil e a Europa. “O turista internacional precisa incluir o Brasil no roteiro sul-americano do vinho, pois já temos estrutura, diversidade e qualidade de vinhos para competir de igual para igual. A expansão da marca SPA do VINHO acontece dentro da estratégia dos novos destinos que buscam ampliar sua oferta de Enoturismo para o público premium, respaldando o desenvolvimento econômico da sua região”, ressaltei em minha exposição como CEO do complexo. Malu Sevieri, da ProWine São Paulo, mediou os cases internacionais das vinícolas Garzon, Santa Rita, Concha y Toro e Andeluna. Na gastronomia, Christian Burgos mediou os sucessos gastronômicos ORO, Guaspari, Torres, UVVA, Nicolino, Azeite Zuccardi e Azeite Batalha.

A programação também reservou espaço para um ativo networking no almoço e no Cooking Show da Embratur ao final dos painéis, reforçando o caráter B2B e institucional do encontro. A área de exposição e degustação ofereceu produtos das cinco macrorregiões do Brasil por meio das Centrais de Abastecimento (CEASAs). O Walking Tasting apresentou diferentes rotas gastronômicas do país e vinhos da Miolo, Salton, Casa Perini, UVVA, Guaspari, Catena Zapata, Zuccardi, Santa Rita, Concha y Toro, Emiliana Organic, Bodega Garzón, Viña Edén e Bracco Bosca Winery, entre outras.

O paradoxo brasileiro

Em suas falas, mercado e governos se alinharam na percepção de que vinho há muito deixou de ser somente o produto vendido na garrafa e hoje funciona como âncora de uma cadeia longa da economia de experiência. O pioneirismo do Vale dos Vinhedos, com seus 450 mil visitantes por ano, foi destaque como um exemplo de gestão e preservação, através da APROVALE e de seu cluster consagrado de empreendimentos e vinícolas certificadas pela primeira e mais completa Denominação de Origem do país. Um modelo de sucesso que extrapolou as fronteiras gaúchas e inspira outras 18 regiões vitivinicultoras do país, como nos cases apresentados por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Distrito Federal. São Paulo brilhou como um “multidestino” à parte por sua impressionante capacidade de atração, com 87 atrativos em cinco rotas distribuídas por 38 municípios.

Sem surpresa, governos, ONU Turismo, produtores, empreendedores e mercado mostraram-se bastante alinhados sobre o valor econômico e territorial do Enoturismo. Afinal, há anos o Ministério do Turismo sustenta que o vinho deve ser associado à gastronomia, hospedagem, natureza e cultura para aumentar a receita das vinícolas, gerar emprego, renda e fortalecimento dos destinos rurais. Mas o grande consenso de que o enoturismo tornou-se uma estratégia poderosa de desenvolvimento contrastou com uma tensão particularmente interessante: a constatação, de quem atua na prática do setor, de um alinhamento muito menor quanto ao papel do vinho brasileiro nesta alavancagem. É possível desenvolver o enoturismo a partir de vinhos que carregam clara desvantagem competitiva no mercado global por sua tributação e ausência de fomentos? Este dilema é com certeza um dos primeiros desafios a serem enfrentados pelo Brasil frente aos seus vizinhos nas Américas.

Conclusões, contradições e potenciais inegáveis

Durante o Fórum foi lançado o documento “Good Practices in the Development of Gastronomy Tourism”, publicação da ONU Turismo que reúne experiências internacionais voltadas ao fortalecimento do turismo gastronômico, produzido em parceria com o Basque Culinary Center. Também foi lançado o Guia ADEGA de Rotas de Vinhos das Américas, publicação produzida em colaboração com a ONU Turismo, testemunhando que Argentina, Chile, Uruguai e Brasil já dividem simbolicamente o mesmo espaço no enoturismo das Américas. Estas publicações coadunam com a proposta da ONU Turismo e da Revista ADEGA em privilegiar a integração regional, apontando a importância do evento na construção de uma marca enoturística latino-americana.

É uma conclusão inegável que o nosso Brasil é um dos países americanos mais privilegiados para transformar produção agrícola, território diverso, gastronomia e cultura regional em produtos turísticos incomparáveis. Nossos governos projetam um Brasil protagonista no turismo, com recordes de visitantes, geração de emprego, gastronomia, diversidade territorial, investimentos e experiências. Mas quando o assunto foca especificamente no produto vinho, o Fórum deixou claro que estamos muito aquém das políticas praticadas no resto do continente. Diversas falas do setor produtivo foram unânimes em apontar a necessidade de se reduzir a assimetria competitiva ao longo da idealizada integração continental. A realidade do novo regime tributário e os acordos com Mercosul e Europa vem na contramão desta necessidade.

A integração do enoturismo nas Américas é, portanto, uma estratégia precisa e premente que impõe, em precedência, fomentar o nosso enoturismo através do apoio ao vinho brasileiro. Neste panorama, a excelente curadoria do Fórum trouxe à luz o paradoxo que precisará ser resolvido para a tão desejada integração brasileira às rotas internacionais do vinho e da gastronomia: convidamos o turista a descobrir o enoturismo brasileiro, enquanto como consumidor ele continua fortemente exposto ao produto estrangeiro e pouco incentivado pelas políticas governamentais a comprar nossos próprios vinhos. Dentre as importantes conclusões que emergiram neste visionário Fórum está a urgência em posicionar o Brasil com destaque na prateleira do enoturismo das Américas, desenvolvendo uma estratégia eficaz de diferenciação, valorização e competitividade do nosso vinho e da nossa gastronomia.

*Deborah Villas-Bôas Dadalt é jornalista, CEO do SPA do Vinho e Ales Victoria, diretora de Enoturismo da APROVALE e VP da Associação Brasileira de Enoturismo

Fotos: Deborah Villas-Bôas Dadalt | arquivo pessoal

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