Se setembro é um mês de comemorações patrióticas, aproveitamos esse gancho, claro, pra promover o vinho brasileiro. Mas bem sabemos que uma coisa somos nós mesmos falando do que fazemos, apresentando as nossas qualidades e virtudes e deixando de lado eventuais falhas. Por outro lado, nos enche de orgulho ver o produto brasileiro ganhando o mundo, sendo apresentado em outros idiomas, gerando relatórios, frequentando páginas de livros, sites, jornais e revistas internacionais.
Para marcar esse período digamos, cívico, do ano, conversamos com cinco profissionais de diferentes países que visitaram o Brasil – ou neste caso, Brazil – em diferentes momentos, com um grande objetivo: apresentar o vinho brasileiro ao mundo.
Com vocês alguns pensamentos, opiniões e percepções de Amanda Barnes, Daniel Arraspide, Gabi Zimmer, Nikka Shevela e Pierrick Bourgault.

“Uma página em branco para o vinho brasileiro”
A jornalista britânica Amanda Barnes (na foto acima, a segunda da direita para a esquerda, em degustação em Monte Belo do Sul, em 2023) vive na América do Sul desde 2009, quando se mudou para a Argentina e passou a percorrer as regiões vinícolas do continente. Ao longo desses anos, visitou mais de 50 regiões produtoras ao redor do mundo — da França à Nova Zelândia, passando por Espanha, Itália, Geórgia, Grécia, Estados Unidos, África do Sul e Malta —, além de países vizinhos como Chile, Uruguai, Bolívia e Peru. O Brasil entrou no seu radar logo no início dessa trajetória: já foram seis viagens às regiões vinícolas do país entre o Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, que resultaram em reportagens para veículos do Reino Unido e dos Estados Unidos e em capítulos do seu livro South America Wine Guide. “As minhas primeiras visitas foram mais voltadas ao turismo, porque naquela época eu escrevia muito sobre viagens”, lembra Amanda, “mas as mais recentes têm sido focadas em provar os vinhos e conhecer as diferentes regiões”, pontua. Amanda recorda com surpresa a primeira incursão mais aprofundada ao Vale dos Vinhedos, por volta de 2012: “Fiquei realmente impressionada com o número de hotéis e restaurantes naquela época, não esperava tanto turismo de vinho, o que hoje já se tornou praticamente comum”.
Amanda avalia que o turista que vem ao Brasil muitas vezes ainda tem o país como destino tropical e de praia, e desconhece os vinhos produzidos aqui: “em termos de vinho, o Brasil tem uma página em branco, o que é uma ótima oportunidade”, conclui. A jornalista destaca ainda a velocidade com que a indústria evoluiu desde suas primeiras visitas, mas alerta para um obstáculo a superar: o clima. “As safras podem variar bastante, e isso afeta a consistência mesmo dentro do próprio produtor.” Na avaliação de Amanda, o maior trunfo do país é a paixão crescente dos brasileiros pelo vinho, um mercado em expansão que ainda tem muito espaço para conquistar consumidores fora de São Paulo e do Rio de Janeiro. Mas quando fala em espaço no exterior, é direta: “é preciso consistência. O Brasil compete com países como Argentina, Chile e Espanha, que têm safras e condições climáticas muito mais estáveis e conseguem produzir vinhos de personalidade, qualidade alta e preço competitivo. Não é um desafio fácil.”

“O Brasil não tem um estilo único, é um mundo com grande diversidade”
Sommelier uruguaio com quase 20 anos de carreira dedicados à comunicação do vinho, Daniel Arraspide (na foto acima, em Garibaldi, em 2024) construiu seu olhar percorrendo países onde a uva e o vinho fazem parte da cultura popular. Conheceu diferentes regiões de Portugal, surpreendendo-se com o alto consumo de um povo que não trata o vinho como produto de luxo, passou por La Rioja, Euskadi e Catalunha, na Espanha, além de Mendoza, Salta, Córdoba e Patagônia, na Argentina. Radicado no Uruguai, atravessou o país de ponta a ponta e acompanhou de perto nas últimas duas décadas, a diversificação dos estilos de Tannat e a ascensão da Albariño por lá. Mas nenhum desses destinos recebeu tanta atenção quanto o Brasil: “o que começou como uma curiosidade há 19 anos tornou-se uma paixão que não para de crescer”, confessa,
Desde a primeira viagem à Serra Gaúcha, em 2007, Daniel já voltou à esta região dezenas de vezes: visitou vinícolas, participou de eventos e descobriu tecnologias. Mas também esteve em outros locais como a Campanha Gaúcha, a Serra da Mantiqueira, onde aprendeu a técnica da Dupla Poda para os Vinhos de Inverno e recentemente visitou o Vale do São Francisco, onde foi apresentado à viticultura tropical.
Daniel recorda que aquela primeira viagem, motivada pela pura curiosidade de conhecer os vinhos brasileiros, superou as expectativas: “encontrei um país rico em diversidade de produtos e estilos, com profissionais prósperos atuando em um setor de forte concorrência por conta do grande volume de rótulos importados”, conta. Ao longo dos anos identificou que a principal dificuldade do vinho brasileiro não está na entrada de vinhos estrangeiros, mas na alta carga tributária que recai sobre o produto nacional, somada à falta de credibilidade que muitos brasileiros ainda demonstram diante do que é produzido no próprio país, “algo que acontece por falta de conhecimento “, reflete.
Em contrapartida, o jornalista destaca a criatividade e o trabalho profissional dos enólogos como o maior trunfo do setor, traduzido em espumantes de qualidade e em vinhos frescos, aromáticos e marcados pelo terroir de origem.
Para que o vinho brasileiro conquiste novos mercados no exterior, Daniel avalia que seja importante aumentar a presença do produto em feiras internacionais e degustações voltadas a formadores de opinião, sempre com rótulos que expressem as características de um país de dimensões continentais e três tipos distintos de viticultura: “o Brasil não tem um estilo único, é um mundo com grande diversidade”.

“O vinho brasileiro mostra um potencial que merece atenção séria”
Sommelière e comunicadora de vinho com mais de uma década de carreira, a uruguaia Gabi Zimmer fundou a Tinta, agência especializada em comunicação de vinho, e a Tinta Academy, primeira escola aprovada pela WSET no Uruguai. Formada pela WSET em Londres, trabalhou em vindimas na França, publicou o livro Uruguay en vinos, atua como jurada em concursos internacionais e hoje integra a equipe de degustadores de Tim Atkin MW para Uruguai e Brasil. Já visitou mais de 300 vinícolas em países como Espanha, Portugal, França, Itália, Argentina, Chile, China, Chipre e Reino Unido.
Com o Brasil a relação é mais antiga e pessoal: filha de pai brasileiro, com família em Porto Alegre e em Ijuí, viaja ao país desde criança. Sua primeira incursão pelas regiões vinícolas aconteceu em 2018, em Bento Gonçalves, para onde voltou em 2022, 2023, 2025 e 2026 para visitar produtores. Em 2025 conheceu também São Roque, em São Paulo, e o Vale do São Francisco, regiões que são parte do Brazil Special Report 2026, o primeiro com a chancela de Tim Atkin MW no Brasil: “meu trabalho como degustadora para o relatório me levou a percorrer o país com um olhar novo sobre um lugar que conheço desde sempre”, resume.
Gabi diz que nunca viaja com ideias preestabelecidas sobre o que vai encontrar, prefere o sabor das descobertas, e quando se fala em vitivinicultura o Brasil é um prato cheio pra isso: “o país tem diferentes modelos de produção convivendo ao mesmo tempo, a viticultura tradicional do Sul, a tropical do Vale do São Francisco e os vinhos de inverno, e isso é incrível”.
A comunicadora não enxerga dificuldades, mas oportunidades: o Brasil tem um mercado interno enorme a conquistar, uma diversidade de regiões e estilos única e uma geração de produtores trabalhando com cada vez mais precisão”, avalia. Gabi reflete que o mercado interno é justamente o maior ativo do país, em uma cultura que celebra o que é seu como poucas: “Acredito que o produtor brasileiro deveria focar em apaixonar primeiro a sua própria gente”, aconselha, “quando isso acontecer, o crescimento virá naturalmente”. Essa evolução está acontecendo, e de acordo com Gabi, de forma acelerada: “o Brasil está percorrendo esse caminho mais rápido do que muitos imaginam”, relata, “o vinho brasileiro mostra uma diversidade e um potencial que merecem atenção séria”, conclui.

“O Brasil gosta de ultrapassar os limites do possível”
Educadora e comunicadora de vinho há 15 anos, a jornalista Nika Shevela construiu sua reputação como especialista em vinhos espanhóis, mas seu radar sempre foi mais abrangente: já cobriu regiões históricas e emergentes que vão da Polônia à Geórgia, além de destinos clássicos do Velho e do Novo Mundo.
Sua primeira vez no Brasil foi em julho de 2025, quando participou de uma missão de imprensa internacional promovida pelo projeto Wines of Brazil pelas regiões de São Roque e pelo Vale do São Francisco. “Fui atraída pela imagem de dinamismo e certo grau de experimentação do país, junto com os contrastes surpreendentes que eu sabia que encontraria”, conta, acrescentando que também estava ansiosa para conhecer de perto a viticultura tropical “com todas as suas improbabilidades”. Nesta vinda o que mais a impressionou foi a criatividade simultânea à resiliência de vinicultores e enólogos, especialmente no cenário tropical, onde é possível colher uvas em qualquer época do ano: “a adaptabilidade é incomparável”
Nika chegou ao país sem ter ideias preconcebidas, mas admite que esperava encontrar um foco forte em espumantes. Com isso em mente foi surpreendida com a variedade de brancos e tintos tranquilos e com a diversidade de castas, desde as clássicas franceses a cepas menos conhecidas. Com a experiência de quem já rodou vários mercados, Nika observa com otimismo o crescimento do consumo de vinho no Brasil em comparação a outros países, mas pondera que será preciso acompanhar como os vinhos brasileiros vão se posicionar nos Estados Unidos agora que o acordo entre União Europeia e Mercosul torna os rótulos europeus mais acessíveis.
Para a jornalista, o maior ativo do setor é a abordagem criativa na vinificação, a sede de experimentação e uma mistura única de tradição e modernidade: “o inesperado e os contrastes são o que torna o Brasil tão empolgante”. Nika também defende uma presença mais ativa no cenário internacional, tanto no comércio quanto em eventos para consumidores, para ganhar espaço lá fora: “o vinho brasileiro continua traçando seu próprio caminho, o quê às vezes envolve ultrapassar os limites do que é possível”,

“Vinhos brasileiros são discretos, mas de grande qualidade técnica”
O jornalista Pierrick Bourgault formou-se em Ciências Naturais e Etnologia e se qualificou como Engenheiro Agrícola, unindo desde cedo o interesse pelo mundo natural ao interesse pela vida das pessoas. Ao longo da carreira, produziu reportagens sobre agricultura e produção de vinho em cerca de quarenta países, em cinco continentes. Foram duas as viagens que fez ao Brasil, percorrendo o país de Norte a Sul. “O que me motivou foi a chance de descobrir esse vasto país com seus climas bastante variados, onde não é comum cultivar uvas para produção de vinho”, conta. Pierrick relata que o que mais o surpreendeu foi a diversidade do povo e da terra brasileiros, “desde os pequenos ofícios dos artesãos locais até o profissionalismo dos negócios e a abertura do país ao mundo”, resumida num ditado que ouviu por aqui e considera verdadeiro: “brasileiros trabalham duro e se divertem muito”.
Pierrick admite que sabia pouco sobre vinho brasileiro antes de chegar e esperava rótulos mais exuberantes ou tropicais, mas encontrou o oposto: “Os rótulos não são exuberantes ou tropicais, como se poderia esperar, mas pelo contrário, são muito discretos, com um estilo distintamente clássico.” Para ele, o mercado doméstico é hoje o principal cliente do produtor brasileiro, parte de uma tendência global em que países sem longa tradição vinícola passam a valorizar seus próprios rótulos, e o maior trunfo do setor é justamente ser local e saber expressar isso. Mas para conquistar espaço no exterior, argumenta que é necessário deixar mais claro na garrafa a origem brasileira da bebida: “não é imediatamente óbvio, são muito discretos”. Ao avaliar tecnicamente os vinhos brasileiros que degustou, o jornalista francês é enfático: “vinhos de excelente nível técnico, ainda que ‘um pouco contidos demais’.
Fotos: arquivo pessoal dos entrevistados
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