Uma rota singular bem plural

Uma rota singular bem plural

Um dia é pouco pra conhecer as vinícolas da Rota Singular, na Serra Gaúcha. E não é pela distância que as separam ou pela quantidade delas, afinal são apenas cinco em um trecho curto. Entre as mais extremas – a Berra & Corbelini, que fica na Linha 130 da Leopoldina, em Santa Tereza, e a Henrique Dal Castel, quase na entrada do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves – há pouco mais de 21 quilômetros, cerca de meia hora de carro pelas lindas paisagens da RS 444, a Estrada do Vinho. 

Entre estas duas, há ainda a Adega Giovanni Tasca, na Capela Santo Isidoro, em Monte Belo do Sul; a Zilio – antiga Bodegone – na Linha Leopoldina e a Artisti Vinhos, na Via Trento, ambas já em Bento Gonçalves. 

Cada uma destas vinícolas, de uma forma ou de outra, carrega muito da tradição a qual tanto nos acostumamos a ouvir quando um produtor de uvas e vinhos da região conta sua história: um imigrante, um começo de vida, um novo país, a esperança de um futuro melhor, a expectativa do amanhã. 

Mas hoje, além destas, as cinco vinícolas que visitamos têm mais coisas em comum: enólogos jovens tomando decisões estratégicas e não apenas seguindo os passos dos pais ou avós – mas ao mesmo tempo com eles sempre por perto, seja fisicamente, seja em lembranças e exemplos de conduta replicados com orgulho. 

Pois no início de 2026 Cristian Corbelini e Lucas Berra (Berra & Corbelini), Pedro e Lucas Tasca (Giovanni Tasca), Henrique Dal Castel (Henrique Dal Castel), Matheus Zilio, (Zilio) e Gabriel Fontanive (Artisti Vinhos) resolveram se unir e tirar do campo das ideias o projeto da Rota Singular, algo que já vinha sendo fermentado em churrascos, provas de vinhos e intermináveis conversas no grupo de whatsapp. A iniciativa era simples e prática; unir as vinícolas dos ‘piás’, como eles mesmos se referem – o mais velho é safra 1990 e o mais novo safra 2002: “tudo nasceu com uma ideia que o Gabriel teve”, disse Henrique, “reunir quem faz mesmo o vinho, pensar em estratégias juntos, marketing, plano de negócios, dividir ideias, pensamentos e contas pra gente se ajudar mesmo”, explicou. “Queremos usar uma marca única para fortalecer as nossas vinícolas, criar um nome forte, um indicar o outro, viabilizar vendas coletivas, criar um box com os nossos vinhos”.  

Ideias por ali, não faltam. 

Primeira parada – Berra & Corbelini 

Quem nos recebeu foi o Cristian Corbelini – safra 1990, o mais experiente do grupo – que ao lado do Lucas Berra é a vinícola toda. Sim, estamos falando de pequenas propriedades, pequenas produções, pouca estrutura e mão de obra, um trabalho puramente artesanal.  

A área da vinícola hoje tem 2 hectares plantados em Santa Tereza – 1,2 nas terras de Lucas e 0,8 nas de Cristian – em uma altitude que oscila entre 350 metros e 485 metros em meio a uma grande área de vinhedos das famílias, produtoras de uvas para terceiros há gerações. “Temos muitas variedades italianas, com as quais produzimos com a menor intervenção possível, fermentação espontânea e sem nenhuma correção, sempre com poucas garrafas de cada vinho”, diz Cristian. 

E são poucas garrafas mesmo. Em alguns casos, como o vinho produzido a partir da híbrida Cabernet Eidos, entre 300 e 600 – a cada safra a Berra & Corbelini produz, em média, cerca de 7 mil garrafas de vinho.  

Entre as variedades cultivadas, Montepulciano, Nebbiolo e Teroldego, tintas, Vermentino e Pecorino, brancas. Além disso, também tem áreas com tradicionais castas europeias, como Tannat, Merlot, Pinot Noir e Chardonnay – as duas últimas também utilizadas em espumantes. De olho nas experimentações, a Berra & Corbelini vinifica a georgiana Saperavi e a Cabernet Eidos, uma PIWI que nasceu em laboratório italiano a partir do cruzamento entre a Cabernet Sauvignon e a Bianca, variedade híbrida que se adapta muito bem a climas úmidos como o da Serra Gaúcha.

Segunda parada – Giovanni Tasca 

Vindo de Santa Tereza chegamos ao nosso destino por um lindo acesso de vinhedos, uma descida que desemboca na sede da vinícola, que teve seu espaço construído em 2020. O negócio, tocado hoje pelos primos Pedro, Lucas e Leonardo Tasca, está na família há gerações – o Giovanni que dá nome à adega, imigrou para a região no final do século XIX, trazendo consigo a tradição e o talento no cultivo das uvas.  

E esse talento para a produção da fruta – e capricho, como propagandeiam diversos produtores de vinhos que compram uvas dos Tasca – fez com que os primos, mais de 100 anos depois, buscassem um modo de agregar valor ao produto e trazer mais visibilidade à marca: “somos a quarta geração da família”, diz Pedro, “quando começamos a vinificar tínhamos 6 ou 7 rótulos. Hoje temos 15”.  

Dos 12 hectares cultivados com 21 diferentes variedades pelos Tasca em Monte Belo do Sul, cerca de 25% ficam para vinificar na adega, o restante vai para terceiros. “Nosso produto, seja a uva ou o vinho, destaca a região, o terroir de Monte Belo do Sul”, afirma Pedro. 

Terceira Parada – Henrique Dal Castel  

Henrique é o mais falante do grupo – se a Rota Singular precisar de um porta voz já abrimos nosso voto aqui: fala com propriedade sobre os vinhedos, os vinhos, sobre Enologia: “nos falta ainda avançar na Viticultura, mas nossa Enologia já está muito adiantada, temos muito conhecimento enológico, muita inovação, muita tecnologia e esse certamente é um dos objetivos da Rota Singular como grupo”, explana. 

No meio hectare que cultiva com o pai, Ivair Carraro, tem implantadas Tannat, Cabernet Franc, Malbec, Merlot e Cabernet Sauvignon. O vinhedo, um topo de montanha pedregoso e bem drenado, tem segundo ele um conceito ‘de Velho Mundo’, levando as uvas até praticamente a sobrematuração: “nossa ideia é aproveitar esses solos ‘magros’, com poucos nutrientes, estamos fazendo diversos testes”, conta.  

Atualmente a vinícola que leva seu nome produz cerca de 8 mil garrafas a cada safra, volume que quer mais que dobrar, chegando a pelo menos 15 mil. As degustações, conduzidas por Henrique tendo sempre Ivair ao seu lado, são feitas no térreo da casa da família, um ambiente acolhedor que nos próximos meses deve passar por uma reforma para poder atender ao cada vez mais crescente número de visitantes.  

Quarta parada – Zilio  

Se Henrique é o falante da turma, Matheus é o quieto do grupo. Tímido, de poucas palavras, prefere escutar a falar. Na cantina da vinícola – que começou a sua história no porão de Genuíno Pastório, avô de Matheus, que cultivava videiras e vinificava pequenas quantidades para consumo próprio – Matheus trabalha ao lado do pai, Adilson. 

Se as palavras são poucas, as ideias são muitas. Questionado sobre o estilo de vinhos da Zilio – que até há pouco atendia pelo nome de Bodegone – Matheus é direto: “não penso em um perfil de vinhos para copiar, buscamos nossa identidade”, diz o jovem enólogo que vinifica entre 3 a 4 mil garrafas por ano e não pretende que essa quantidade passe de 10 mil. 

A produção da vinícola está implantada em quatro hectares cultivados com as variedades Rebo, Merlot, Teroldego, Moscato e Glera, além de algumas cultivares de mesa para a produção de suco.  

Com a história iniciada pelo avô e a continuidade nas mãos do pai, faz pouco tempo que Matheus sente a vinícola como ‘dele’. A mudança de nome ajuda nisso e também seu vinho predileto, o primeiro vinho feito 100% por ele, o Gran Reserva Zilio, um Teroldego 2022, com 14 meses de barrica: “foi a última safra do vinhedo que ficava aqui junto à cantina, um vinho pra guardar na memória, que nunca mais vai se repetir”, conta. 

Ao chegarmos lá ainda restavam algumas garrafas. Ao saírmos esse estoque diminuiu um pouco.

Última parada – Artisti Vinhos  

Finalizar um roteiro de vinhos depois de degustar em pelo menos quatro vinícolas e se deparar com a Divina Comédia é algo no mínimo intrigante. É um momento no qual não sabemos se o que nos espera é a Queda, o Inferno, o Purgatório, o Paraíso, tudo isso junto ou nenhuma das anteriores. Na Artisti tudo isso te espera – e mais um pouco também. Ouvir o Gabriel Fontanive contar porque escolheu a obra de Dante para ilustrar seus rótulos e tentar compreender a filosofia por trás dos vinhos que ele produz é meio que entrar numa fenda no tempo.  

As (ins)pirações de Gabriel não vêm em linhas, nascem de processos artísticos que resultam em lotes únicos e tiragens exclusivas – a safra 2026, por exemplo, promete apenas 2 mil garrafas. Mergulhar nos blends de terroirs pensados pelo enólogo e passear pelas criações de Gabriel – um misto de moda, arte, literatura, filosofia e, claro, vinhos – é nadar em um labirinto. 

Uma forma bem apropriada de finalizar essa rota singularmente plural.  

Mas pensando bem, talvez fosse bem interessante ter começado por ela. 

Fica a nota de rodapé pro retorno.  

 

Fotos: Brasil de Vinhos | Lucia Porto 

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