Profissionais do IF Sertão-PE e da Embrapa Semiárido estiveram conhecendo as vinícolas Verano Brasil e Rio Sol em uma programação apoiada pelo Instituto do Vinho do Vale do São Francisco. Durante a visita puderam realizar uma imersão nas principais características do terroir tropical do Vale do São Francisco, além de acessar novidades e degustar os produtos de maior destaque desenvolvidos por cada vinícola.
A iniciativa marcou a primeira etapa de uma série de visitas técnicas que serão realizadas pelas empresas vitivinícolas da região, fortalecendo a integração entre os profissionais das instituições parceiras do Vinhovasf e ampliando as ações de valorização e desenvolvimento da Indicação de Procedência Vale do São Francisco para vinhos. Um importante momento para salientar as características e diferenciais locais: os vinhedos do Vale do São Francisco coexistem com a vegetação nativa da caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, onde o clima é semiárido, como vemos acima na foto feita na vinícola Terranova, em Casanova (BA). Um milagre possível graças aos projetos de irrigação, implantados na década de 70.
Um dos participantes do grupo, o Engenheiro de Alimentos, Mestre e Doutor em Engenharia e Ciência de Alimentos e Especialista em Enologia Maurício Bonatto Machado de Castilhos, nos traz aqui sua visão sobre as peculiaridades da região e os resultados disso em seus vinhos.
Boa leitura.
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A qualidade do resiliente terroir Vale do Submédio São Francisco
por Maurício Bonatto Machado de Castilhos
O vinho é uma das bebidas mais complexas do mundo pelo fato de apresentar inúmeros compostos químicos, responsáveis por determinar sua qualidade e perfil sensorial. Toda e qualquer sensação percebida no vinho, seja ela positiva ou negativa, é explicada pela influência das substâncias que fazem parte da bebida, interferindo na cor, odor, aroma, sabor, na qualidade final e na satisfação do consumidor. A variedade e concentração dessas substâncias depende de inúmeros fatores, sendo um dos principais o terroir.
Tradicionalmente, o termo terroir é associado às características do ambiente onde a videira é cultivada, tais como amplitude térmica, altitude, qualidade do solo, índice de pluviosidade, entre outros. Entretanto, o termo é mais amplo. Além das condições ambientais, engloba aspectos relacio- nados ao manejo da videira, como época de poda, floração e irrigação; às práticas de vinificação adotadas pelas vinícola e, mais recentemente, ao chamado terroir microbiológico, representado pela atuação de leveduras autóctones (selvagens) durante a fermentação, capazes de influenciar o proces- samento do vinho.
O contexto de terroir ajuda a compreender a grande evolução observada na região do Submédio Vale do São Francisco quando se trata do cultivo de uvas viníferas. Do solo árido foi possível cultivar uvas de alta qualidade, por meio do manejo das videiras e programação da colheita, tornando o Submédio Vale do São Francisco uma das regiões vinícolas emergentes mais relevantes do país. Com a obtenção da Indicação de Procedência, conquistada em 2022, a região se consagrou, ocupando uma posição de destaque também na produção de vinhos tropicais no mundo.
A evolução do setor pode ser observada tanto nos vinhedos quanto nas vinícolas instaladas na região, onde tecnologias de produção e processos de vinificação vêm sendo continuamente aperfeiçoados. Entre as cultivares que mais se destacam estão Syrah e Malbec, que demonstraram excelente adaptação às condições do Semiárido, originando vinhos de personalidade marcante e características sensoriais próprias, que refletem a identidade regional.
Nesse cenário, diferentes vinícolas têm contribuído para consolidar a reputação dos vinhos produzidos no Vale do São Francisco, entre elas a Rio Sol, Verano Brasil e Garziera. Um dos exemplos é o rótulo Resiliente, da Garziera, elaborado com a variedade Malbec, cujo nome faz referência à capacidade de adaptação da videira e ao trabalho do vitivinicultor diante do terroir semiárido, sentido quando se degusta esse vinho encorpado, pungente e vibrante.
Assim, a ascensão da região do Submédio Vale do São Francisco mostra que, apesar de ser uma região árida e com condições diferentes das tradicionalmente associadas às grandes regiões produtoras do mundo, é um exemplo da resiliência da ciência e do vitivinicultor, produzindo uvas e vinhos com qualidade ímpar. A aplicação de tecnologias direcionadas para esse terroir faz da região um polo de destaque na produção de uvas e vinhos tropicais de qualidade. Vale a pena conferir e se surpreender com esse terroir.

* Maurício Bonatto Machado de Castilhos é Engenheiro de Alimentos, Mestre e Doutor em Engenharia e Ciência de Alimentos e Especialista em Enologia. É pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Semiárido, Petrolina (PE) na área de Enologia e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Alimentos, Nutrição e Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual Paulista ”Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).
Fotos: divulgação VINHOVASF
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