Vertical do Lote 43: uma viagem no tempo e uma aula de história da vitivinicultura brasileira

Vertical do Lote 43: uma viagem no tempo e uma aula de história da vitivinicultura brasileira

O sorriso estampado no rosto dos dez participantes (foto abaixo) comprova: que grande noite. Uma noite que vai ficar na história e na memória desses 10 amigos que já há alguns anos se encontram para degustar belos vinhos, e que na noite de 14 de julho de 2026 foram coadjuvantes da maior e única vertical completa do Lote 43 de toda a história.

Sim, coadjuvantes, porque o personagem principal dessa história é o vinho, o Lote 43, um corte bordalês lançado pela Miolo em 1999 e só elaborado em safras excepcionais.

O nome Lote 43 faz referência à propriedade adquirida pelo imigrante italiano Giuseppe Miolo ao chegar ao Brasil em 1897. Localizado no atual Vale dos Vinhedos (RS), este terreno deu origem à sede da vinícola Miolo.

Leonardo Contini, um dos sortudos presentes nesta noite, integrante da confraria que organizou o encontro, garante: “o potencial de evolução do Lote 43 é indiscutível e consolida o Brasil no mapa dos grandes vinhos de guarda do mundo”.

E ele conta isso feliz, com aquele característico tom arroxeado nos dentes, resultado de boas horas de diversão e felicidade.

Confira abaixo o relato que ele fez desta noite.

Vertical do Lote 43: uma viagem no tempo e uma aula de história da vitivinicultura brasileira

* Leonardo Contini

Participar da vertical do Miolo Lote 43 foi mais do que uma degustação, foi uma verdadeira viagem no tempo e uma aula de história da vitivinicultura brasileira.

O ritual começou já na abertura das garrafas. Abrir o exemplar de 1999 exigiu o uso delicado de um abridor especial para safras antigas. A rolha, embora intacta, estava completamente impregnada pelo vinho, denunciando a passagem de quase três décadas. O serviço exigiu decantação cuidadosa para separar as borras, seguida de uma aeração rápida, apenas o suficiente para despertar o vinho.

A grande surpresa e unanimidade da noite foi, sem dúvidas, a safra 1999. É um vinho que quebra paradigmas. Naquela época, o vinhedo ainda era conduzido em sistema de latada, a tecnologia na vinícola era escassa e a maturação foi feita em barricas americanas usadas, trazidas de Mendoza (elementos que, teoricamente, poderiam prever um vinho cansado). No entanto, o que provamos foi uma obra-prima que remete aos grandes Bordeaux envelhecidos. Apresentou um nariz delicado de amora e cereja, aromas terciários de perfil terroso e, em boca, uma estrutura impressionante com taninos de altíssima qualidade e uma sutil mineralidade. Isso prova que, acima de qualquer tecnologia, a qualidade da uva e a força do ano (safra 1999 foi histórica na nossa região) são soberanas.

Outro ponto fascinante foi perceber a evolução histórica na taça. Nas safras entre 1999 e 2005 (com destaque também entre os participantes para a excelente safra 2005), sentimos a pegada mais pura do terroir do Vale dos Vinhedos. É uma elegância clássica, com perfil mais sutil e europeu.

A partir da safra 2011, a mudança de estilo rumo ao modernismo ficou evidente. O vinho ganhou um perfil de “Novo Mundo”: mais estruturado, potente e com teor alcoólico mais elevado (na casa dos 14% a 15%, o que nos faz refletir também sobre o impacto das mudanças climáticas no campo). Essa transição trouxe uma maciez notável no meio de boca, claramente impulsionada pelo aumento da proporção de Merlot no corte.

Se no passado a Miolo teve a coragem (e assumiu os custos) de ser a precursora – ou uma das –  da transição da latada para a espaldeira no Vale, hoje colhemos os frutos dessa evolução.

Já tive a oportunidade, junto dos mesmos confrades, de fazer a vertical do Sesmaria completa, mas a experiência de provar o Lote 43 abaixo de 2008 (vinhos que já alcançaram sua plenitude) é incomparável, na minha opinião. É até uma injustiça comparar esses ícones maduros com as safras jovens, que ainda têm um caminho brilhante pela frente.

Fica a provocação e o entusiasmo para o futuro: se em 1999, com recursos tão limitados, a família Miolo entregou um vinho que brilha intensamente após 27 anos, o que será das safras extraordinárias como 2012, 2018 e, especialmente, a histórica de 2020 daqui a três décadas? O potencial de evolução do Lote 43 é indiscutível e consolida o Brasil no mapa dos grandes vinhos de guarda do mundo.

Um agradecimento especial ao Francesco Miolo, que nos proporcionou o privilégio único de provar, em primeira mão, a safra 2023, que em breve será lançada no mercado. Ter essa prévia exclusiva coroou o encontro e consolidou esta experiência como a maior e única vertical completa do Lote 43 de toda a história.

* enófilo, proprietário da Raros Vinícola Boutique, localizada em Garibaldi (RS)

Imagens: arquivo pessoal Leonardo Contini

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