Barricas de madeira brasileira de Monte Belo do Sul para o mundo

Barricas de madeira brasileira de Monte Belo do Sul para o mundo

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Movida a Amburana, madeira que virou febre entre produtores de conhaque e bourbon, a Tanoaria Mesacaza embarcou nesta semana mais um lote de barricas para a França e amplia o volume que segue para os Estados Unidos. Mas quem manda no negócio da família, hoje na terceira geração, garante: o coração continua na bebida produzida no Brasil.

Monte Belo do Sul, no Vale dos Vinhedos, tem pouco mais de 2.500 habitantes e uma vocação conhecida: a uva. Foi ali que Miguel Arcângelo Mesacaza, nos anos 1960, começou a fabricar barris no porão de casa para atender a vizinhança, na época forte na produção de vinho colonial. Décadas depois, quem toca o negócio é o neto Mauro e a tanoaria que carrega o sobrenome da família virou fornecedora de barricas para a produção de conhaque na França e de Bourbon nos Estados Unidos. Mas a empresa não deixa atender os produtores de vinho – agora não mais colonial, mas fino, envelhecido em barricas de carvalho francês.

Essa semana marcou um dos embarques mais aguardados do ano. Um lote de 40 barricas de 400 litros especialmente produzidos seguiu para a França (na foto acima, à direita, Mauro, com a filha Catarina, o pai dele, Eugênio, e uma parte da equipe de funcionários da Mesacaza providenciando o transporte das barricas), com destino à região de Cognac — o carregamento deveria ter saído no início do mês, mas ficou represado pelo congestionamento no Porto do Rio Grande, que segue com fluxo intenso de cargas. Até o final do ano a Mesacaza deve mandar ainda 180 barris menores, voltados à maturação de bourbon para os Estados Unidos. Somando os dois destinos, a tanoaria projeta terminar 2026 com cerca de 400 barris exportados, equivalente a dois ou três contêineres, algo entre 5% e 10% de tudo o que a empresa produz no ano.

A relação com a França começou em 2016, quando uma empresa referência na produção de conhaque encomendou a primeira remessa para teste. Na época foram 63 barricas de 225 litros, divididas entre Amburana, Cabreúva e Grápia. O teste deu certo: os franceses se apaixonaram pela Amburana para a finalização da bebida. Dois anos depois os barris passaram a ser produzidos em 400 litros (foto acima), volumetria padrão usada na produção de conhaque na França.

Para os Estados Unidos, o primeiro embarque saiu em 2017 e o lote mais recente embarcou em janeiro deste ano. A aproximação começou quando um grupo americano especializado em barris para bourbon, esteve em Curitiba para um festival de cervejas e aproveitou a viagem para visitar empresas do setor de bebidas no Sul do país. Intrigados por encontrar uma produção de barricas de porte industrial tão distante da floresta de onde vem parte da madeira, os americanos rodaram vinícolas e cachaçarias da região antes de fechar negócio com a Mesacaza. De lá para cá, a empresa americana compra e revende os barris gaúchos para clientes em diferentes países, barricas com a marca de Monte Belo do Sul podem ser encontradas no México, Canadá, Ilhas Caribenhas, Escócia, Irlanda, Polônia e Bélgica.

Para Mauro, a explicação pela preferência pelo uso da Amburana está no perfume: “a Amburana carrega notas intensas de baunilha e caramelo e transfere sabor com rapidez para a bebida”, diz, “o oposto da fama de ‘pouco amadeirada’ que ronda alguns destilados brasileiros no exterior’, conta.

Madeira certificada na origem

Cada espécie usada pela tanoaria tem origem definida. A Amburana vem do Acre; o Bálsamo, de Rondônia; a Castanha-do-Pará é reflorestada, dentro de um projeto de recuperação chamado Fazenda Aruanã, perto de Itacoatiara (AM); Grápia e Cabreúva são compradas no próprio Rio Grande do Sul; e o Jequitibá Rosa chega do Mato Grosso. Já o Carvalho é importado, seja dos Estados Unidos, vindo de regiões como Missouri, Kentucky e Pensilvânia; de Portugal ou da França, das florestas de Limousin e Allier.

Como no Brasil não existe uma serraria dedicada exclusivamente à tanoaria, a compra da madeira nativa segue um protocolo rígido: a tora é adquirida ainda verde, o que garante rastreamento por DNA, cadeia de custódia e o Documento de Origem Florestal (DOF), comprovando que veio de área de manejo legal. Depois disso a madeira passa ainda dois anos secando no pátio da Mesacaza antes de virar barrica: “esse tempo ao sol e chuva é necessário para curar a madeira, reduzir notas resinosas e amargores, assegurando a qualidade exigida pelos clientes internacionais, que renovam anualmente a checagem de certidões e balanços da empresa antes de fechar qualquer pedido”, detalha Mauro.

O ritmo de exportação também mudou a estrutura da empresa. Em 2001, quando a família se instalou no endereço atual, a área construída era de 450 m². Passou por ampliações ao longo dos anos e durante a pandemia deu um salto: um novo pavilhão de três andares, construído só para a tanoaria, elevou a área total para 2.100 m². Hoje a fabricação de barris novos ocupa o galpão mais recente, enquanto o prédio original foi reservado para o serviço de reforma.

Cachaça é maioria, mas o vinho segue no sangue

Na ponta do lápis, entre 80% e 90% de tudo o que sai da tanoaria hoje vai para o destilado, sobretudo a cachaça, que só pode levar o rótulo de envelhecida após pelo menos um ano de barril, o que garante demanda recorrente todo ano. “O vinho representa uma fatia bem menor do volume produzido”, reconhece Mauro, mas o tanoeiro lembra que foi o vinho que manteve a empresa viva quando os recipientes de madeira quase saíram de cena, no fim dos anos 1990. “Sem os pedidos de vinícolas como da Miolo por barricas de Carvalho, dificilmente teríamos nos mantido no setor de fabricação de barris de madeira”, confessa o tanoeiro, “muito deste conhecimento aplicado aos barris de vinho foram necessários para melhorar os barris para cachaça”, argumenta.

Esse histórico ajuda a explicar porque Mauro e seu pai, Eugênio, que trabalha junto a ele, não largam o vinho de vista mesmo com a cachaça dominando a produção. A tanoaria segue fornecendo barricas produzidas com madeira brasileira para teste para pequenos produtores de vinho da região, para vinícolas como Arte Viva, Garbo, Terroir da Vigia e Seis Mãos – liderada pela enóloga Caroline Gonzatti, esposa de Mauro. “É uma tentativa de consolidar um estilo de vinho envelhecido em madeira genuinamente brasileira, com espécies como Grápia, Cabreúva e Castanha-do-Pará no lugar do Carvalho de sempre”, diz Mauro.

“A gente nunca esquece o vinho, porque foi por causa dele que a gente continuou existindo”, conta, “mas com a cachaça surgiu a oportunidade de exportar e tornar a madeira brasileira conhecida”, resume o tanoeiro, que diz que essa é a mesma lógica que guia os planos de expandir ainda mais as exportações sem descuidar do mercado nacional e da preservação da floresta.

Fotos: Mauro Mesacaza | arquivo pessoal e Brasil de Vinhos | Lucia Porto

Brazilian wooden barrels from Monte Belo do Sul reach the world

Powered by Amburana, a wood that has become a craze among cognac and bourbon producers, Tanoaria Mesacaza shipped another batch of barrels to France this week and is expanding the volume it sends to the United States. But the people running the family business, now in its third generation, insist the heart of the operation remains the beverage produced in Brazil.

Monte Belo do Sul, in the Vale dos Vinhedos, has just over 2,500 residents and a well-known calling: grapes. It was there that Miguel Arcângelo Mesacaza began making barrels in his home’s basement in the 1960s to supply neighbors, at a time when colonial wine production was strong in the area. Decades later, his grandson Mauro runs the business, and the cooperage that carries the family name has become a supplier of barrels for cognac production in France and bourbon production in the United States. Still, the company has not stopped serving wine producers — no longer colonial wine, but fine wine aged in French oak barrels.

This week marked one of the most anticipated shipments of the year. A batch of 40 specially made 400-liter barrels headed to France, bound for the Cognac region — the shipment was originally supposed to leave earlier in the month but was delayed by congestion at the Port of Rio Grande, which continues to face heavy cargo traffic. By year’s end, Mesacaza is expected to send another 180 smaller barrels for bourbon maturation in the United States. Combining both destinations, the cooperage projects finishing 2026 with roughly 400 barrels exported, equivalent to two or three containers — somewhere between 5% and 10% of everything the company produces annually.

The relationship with France began in 2016, when a leading cognac producer ordered the first shipment as a trial. At the time it was 63 barrels of 225 liters, split among Amburana, Cabreúva, and Grápia wood. The trial was a success: the French fell in love with Amburana for finishing the spirit. Two years later, the barrels began to be made in the 400-liter format, the standard volume used in cognac production in France.

For the United States, the first shipment went out in 2017, and the most recent batch shipped this past January. The connection began when an American group specializing in bourbon barrels visited Curitiba for a beer festival and used the trip to visit beverage-industry companies in southern Brazil. Intrigued to find industrial-scale barrel production so far from the forest that supplies part of the wood, the Americans toured wineries and cachaça distilleries in the region before closing a deal with Mesacaza. Since then, the American company has bought and resold the gaúcho barrels to customers in various countries; barrels bearing the Monte Belo do Sul mark can now be found in Mexico, Canada, the Caribbean islands, Scotland, Ireland, Poland, and Belgium.

For Mauro, the preference for Amburana comes down to aroma: “Amburana carries intense notes of vanilla and caramel and transfers flavor quickly to the beverage,” he says, “the opposite of the ‘lightly wooded’ reputation that surrounds some Brazilian spirits abroad,” he adds.

Wood certified at the source

Each species used by the cooperage has a defined origin. Amburana comes from Acre; Bálsamo from Rondônia; Castanha-do-Pará is reforested wood, part of a recovery project called Fazenda Aruanã, near Itacoatiara (Amazonas); Grápia and Cabreúva are purchased within Rio Grande do Sul itself; and Jequitibá Rosa arrives from Mato Grosso. Oak, meanwhile, is imported, whether from the United States — from regions such as Missouri, Kentucky, and Pennsylvania — from Portugal, or from France’s Limousin and Allier forests.

Since Brazil has no sawmill dedicated exclusively to cooperage, purchasing native wood follows a strict protocol: logs are acquired while still green, which allows for DNA tracking, chain of custody, and the Forest Origin Document (DOF), proving the wood came from a legally managed area. After that, the wood spends two more years drying in Mesacaza’s yard before becoming a barrel. “That time in the sun and rain is necessary to cure the wood and reduce resinous notes and bitterness, ensuring the quality required by international clients, who renew their check of the company’s certificates and financial statements every year before closing any order,” Mauro explains.

The pace of exports has also reshaped the company’s structure. In 2001, when the family moved to its current address, the built area totaled 450 square meters. It expanded over the years and took a major leap during the pandemic: a new three-story building constructed exclusively for the cooperage brought the total area to 2,100 square meters. Today, new barrel production takes place in the newer building, while the original structure has been set aside for refurbishing services.

Cachaça leads, but wine remains in its blood

By the numbers, between 80% and 90% of everything that leaves the cooperage today goes to spirits, primarily cachaça, which can only carry the “aged” label after at least a year in a barrel — guaranteeing recurring annual demand. “Wine represents a much smaller share of the volume we produce,” Mauro acknowledges, but the cooper recalls that it was wine that kept the company alive when wooden barrels nearly disappeared from the scene in the late 1990s. “Without orders from wineries like Miolo for oak barrels, we would hardly have stayed in the wooden barrel business,” the cooper admits, “much of the knowledge applied to wine barrels was necessary to improve the barrels used for cachaça,” he argues.

This history helps explain why Mauro and his father, Eugênio, who works alongside him, keep an eye on wine even as cachaça dominates production. The cooperage continues to supply barrels made from Brazilian wood on a trial basis to small regional wine producers, including wineries such as Arte Viva, Garbo, Terroir da Vigia, and Seis Mãos — led by winemaker Caroline Gonzatti, Mauro’s wife. “It’s an attempt to establish a style of wine aged in genuinely Brazilian wood, using species like Grápia, Cabreúva, and Castanha-do-Pará instead of the usual oak,” Mauro says.

“We never forget wine, because it’s the reason we’re still here,” he says, “but cachaça brought the opportunity to export and make Brazilian wood known,” the cooper sums up, adding that this same logic guides the company’s plans to further expand exports without neglecting the domestic market or forest preservation.

Photos: Mauro Mesacaza | personal archive, and Brasil de Vinhos | Lucia Porto

 

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