Biotecnologia, vinho e sertão

Biotecnologia, vinho e sertão

O Vale do São Francisco é hoje a única região do país capaz de produzir mais de uma safra de uva por ano, um feito que rompe paradigmas e exige constante atualização e conhecimento de ponta em manejo e biotecnologia. No coração do semiárido nordestino, ciência e vitivinicultura ajudam a moldar um terroir tropical de identidade própria.

Quem fala desse assunto com propriedade é Hendor Neves Ribeiro de Jesus, biotecnologista, mestre e doutor em Bioquímica e Biologia Molecular e professor do IFSertãoPE (Campus Petrolina Zona Rural). Hendor detalha os bastidores da produção vinícola do semiárido e mostra como a pesquisa aplicada em diferentes etapas está modelando um dos terroirs mais singulares do país.

Boa leitura


 

Biotecnologia, vinho e sertão

*Hendor Neves Ribeiro de Jesus

Em tempos atrás, se elencássemos as principais características das regiões produtoras de vinho e as comparássemos com o perfil do sertão nordestino, certamente não encontraríamos elementos em comum. Ainda assim, a ousadia, a tecnologia e muita dedicação transformaram o Vale do São Francisco em um instigante ambiente produtor de vinhos de excelência em pleno semiárido nordestino.

O que à primeira vista é mais fascinante é constatar que a viticultura no Vale do São Francisco é dinâmica, com grande diversidade de variedades cultivadas e a possibilidade de realizar colheitas todo o ano. Isso se dá em razão da obtenção de duas safras de uva anualmente, um feito surpreendente e que rompe com paradigmas vitais do setor, o que exige constante aperfeiçoamento do manejo para garantir boa produtividade e saúde das videiras, fatores que atraem grande projeção para a viticultura brasileira.

Ao conhecer as vinícolas e compreender os caminhos percorridos do vinhedo até o produto final, percebe-se que o sucesso da produção não deriva exclusivamente dos fatores ambientais, mas do empenho de profissionais capacitados que, com conhecimento e inovação, moldam as condições ideais para o desenvolvimento da vitivinicultura regional. Esse ecossistema se desenvolveu graças aos anseios do setor privado em sinergia com a coordenação do poder público, fomentando a pesquisa, o ensino e a inovação. Esse panorama é reflexo do reconhecido trabalho de instituições como a Embrapa Semiárido e o IFSertãoPE, que promovem não apenas o crescimento técnico do setor, mas também o desenvolvimento social e econômico regional.

Outra percepção que se torna evidente é a capacidade de produzir vinhos finos de elevada qualidade, mas também a capacidade de atender às tendências do mercado e permanecer aberta à inovação, sempre com foco na qualidade. Esse cenário é reflexo da forte presença de profissionais experientes e entusiasmados em desenvolver o setor e trazer o frescor com novos produtos e novos consumidores.

Ainda que próspero, é necessário estar atento aos desafios e superá-los para tornar os processos sustentáveis, aplicando metodologias mais sofisticadas e permitindo extrair o máximo do potencial regional. Nesse cenário, a biotecnologia tem se mostrado estratégica no desenvolvimento de novos produtos e processos, como na bioprospecção de novas linhagens de leveduras de Saccharomyces e não-Saccharomyces na região, servindo como método para o desenvolvimento de novas cepas com tolerância ao estresse, perfis aromáticos únicos e bioacidificação. Outra abordagem que pode se somar é o uso de tecnologias de DNA recombinante e engenharia metabólica de leveduras e bactérias, que direcionam o melhoramento genético para solucionar gargalos industriais mais complexos. Há espaço para a biotecnologia auxiliar na valorização dos resíduos da vinificação, desenvolvendo a economia circular dentro do setor e dando novas aplicações para subprodutos como bagaço, engaço, borras e sementes, transformando-os em coprodutos de valor agregado, como compostos bioativos, suplementos alimentares e polímeros biodegradáveis, promovendo o upcycling na indústria vinícola e abastecendo diversos outros setores industriais.

Hoje, vitivinicultura é uma das marcas da identidade do Vale do São Francisco, transformando uma paisagem antes estigmatizada pela aridez em um verdadeiro polo da vitivinicultura no Brasil. Dessa forma, o Vale do São Francisco encontrou o seu jeito de produzir uvas e vinho com excelência, demonstrando que inovação, conhecimento e dedicação são capazes de florescer e moldar um terroir tropical, cuja assinatura é tão única quanto a resiliência, a criatividade e o orgulho tão próprios do povo nordestino.

 

* Biotecnologista, Mestre e Doutor em Bioquímica e Biologia Molecular, é professor de Biotecnologia do Instituto Federal do Sertão Pernambucano Campus Petrolina Zona Rural (IFSertãoPE). Vem desenvolvendo estudos sobre o metabolismo de microrganismos aplicados a indústria através da bioinformática, genômica e metagenômica.

Fotos: topo laboratório do IFSertãoPS | Luiz Gustavo Lovato e foto Hendor | Paula Theotônio.

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