De maio a outubro quatro grandes feiras movimentam o mercado de vinhos no Brasil e entram na pauta das vinícolas e dos profissionais envolvidos no segmento. Pelo calendário a primeira delas é a Wine South America (foto acima, da edição 2025), realizada entre os dias 12 e 14 de maio em Bento Gonçalves (RS), na sequência, de 25 a 27 de junho, vem a Expovitis Brasil, em Brasília (DF).
Em seguida a Naturebas, que ocorre nos dias 27 e 28 de junho, em São Paulo (SP), mesma cidade que recebe a ProWine em outubro, entre os dias 6 e 8. Trazemos aqui uma breve degustação de cada uma delas, apresentada por quem comanda os eventos a cada ano: Marcos Milaneze, Ronaldo Triacca, Lis Cereja e Malu Sevieri, respectivamente.

Wine South America
Realizada desde 2018 pela Milanez & Milaneze – subsidiária do grupo italiano Veronafiere, que executa a Vinitaly, em Verona (ITA), a WSA começou com a presença de 100 vinícolas brasileiras. Em 2025 foram 200 marcas do Brasil apresentando seus produtos, e para este ano a expectativa é de pelo menos 280 empresas expondo para cerca de 7 mil profissionais do mercado do vinho, vinícolas que vêm de 6 estados – Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Bahia, Goiás e Espírito Santo – além do Distrito Federal.
A WSA é realizada em um momento estratégico do calendário. Antecedendo o inverno, período de maior consumo no Brasil, a mostra foca ainda mais na definição do que será ofertado ao consumidor nos meses seguintes. “Além disso”, pontua Marcos Milaneze (foto acima), “há um efeito importante de qualificação do mercado. Profissionais mais preparados – sommeliers, compradores ou varejistas – elevam o nível da experiência do consumidor, influenciando diretamente na forma como o vinho é apresentado, comunicado e consumido”.
Em temos financeiros a feira aponta crescimento constante: em 2025 foram gerados cerca de R$ 100 milhões em negócios e a previsão para este ano é de um incremento de pelo menos 10% neste valor. Os organizadores estimam que aproximadamente R$ 70 milhões deste total devem ser originários de negócios com vinho brasileiro.
“Feiras como a Wine South America cumprem um papel estratégico no desenvolvimento do setor porque concentram em poucos dias um ambiente altamente qualificado de negócios e relacionamento”, reflete Marcos, “para as vinícolas isso significa acesso direto a compradores, importadores, distribuidores e formadores de opinião, o que acelera significativamente o ciclo comercial e amplia o alcance de mercado”, avalia o diretor da WSA.
As associações de produtores são presença marcante no evento. Nesta edição, até o momento, há pelo menos oito entidades com estandes confirmados:
AFAVIN (RS)
Altos Montes (RS)
APEG (RS)
Aprobelo (RS)
Aprovale (RS)
Asprovinho (RS)
Vales da Uva Goethe (SC)
Vinhos de Altitude (SC)
A organização da feira aponta como destaque os novos terroirs que demonstram a expansão da vitivinicultura nacional fora do eixo tradicional do Sul – Brasília, Goiás e Espírito Santo são exemplos disso. Foco também na presença da representação de Pinto Bandeira primeira Denominação de Origem exclusivamente para espumantes do Novo Mundo.
Qual o futuro do vinho brasileiro, Marcos?
O vinho brasileiro vive um momento bastante positivo, marcado por evolução consistente em qualidade, inovação e reconhecimento. O futuro passa por alguns pilares fundamentais como fortalecimento da identidade dos nossos terroirs, investimento em posicionamento e branding, ampliação da presença no mercado externo e, principalmente, ganho de eficiência e competitividade. Acredito que o Brasil tem potencial para se consolidar não apenas como um grande mercado consumidor, mas também como um produtor relevante no cenário global e as feiras têm um papel importante nessa construção.

Expovitis Brasil
A mais nova destas quatro feiras deve quase duplicar a quantidade de vinícolas participantes em seu terceiro ano. Isso reflete a pujança da região: dados informais apontam que há pelo menos 60 produtores de uvas em Brasília e adjacências. Dez vinícolas produzem comercialmente há algum tempo ao redor da capital federal, reunidas no mesmo espaço de vinificação, a vinícola Brasília, marca coletiva do grupo de produtores que praticamente desde sua criação vem acumulando prêmios no Brasil e no exterior.
Se em 2024 eram 70 vinícolas brasileiras expondo na Expovitis Brasil, em 2026 pelo menos 120 marcas verde amarelas devem apresentar seus vinhos no parque Ivaldo Cenci, no PAD-DF.
“É uma excelente oportunidade de fixar marca, fazer negócios B2B e conhecer as novidades tecnológicas”, conta Ronaldo Triacca (foto acima). O presidente e idealizador da mostra lembra também que a Expovitis Brasil é realizada no ‘quintal’ do Congresso Brasileiro: “outro mote do evento é que seja palco de discussões dos gargalos do setor, como a alta tributação atual e os impactos do acordo Mercosul e União Europeia, entre outros temas”, complementa.
As empresas expositoras vêm de 8 estados – Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Goiás – além do Distrito Federal.
Algumas associações já garantiram a participação:
Altos Montes (RS)
Anprovin (MG, SP, RJ, BA, GO e DF)
Vinhos de Altitude (SC)
E ainda há outras a confirmar, como a Uva, de Minas Gerais, e a Aviva, do Rio de Janeiro. “Caso a Aviva participe imaginamos que as vinícolas da Serra Fluminense terão um grande destaque”, aponta Ronaldo, que acredita que um dos pontos altos do evento será a presença de diversas marcas premiadas no Brazil Wine Challenge e na Grande Prova de Vinhos do Brasil.
Diferente da WSA ou da ProWine, feiras que tem foco em negócios, a Expovitis busca também o consumidor final: “a capital do Brasil tem um público de grande renda per capta e formador de opinião. A feira foca nestas pessoas que têm valorizado cada vez mais o vinho brasileiro”, argumenta Ronaldo. Para ele, o grande propósito do evento é o sentimento de pertencimento e valorização do produto feito no Brasil: “nosso vinho tem muita qualidade e não é caro comparado aos que vem de fora, apesar da alta tributação aplicada ao vinho brasileiro”, constata.
Qual o futuro do vinho brasileiro, Ronaldo?
Sou um grande otimista quanto ao futuro do nosso vinho – apesar de o brasileiro consumir menos de 3 litros per capta/ano, boa parte dele ainda de vinho estrangeiro. Mas vejo que estamos numa crescente, vivendo um ótimo momento, com muitas premiações internacionais de vários terroirs de todo o país, e de fato um novo olhar de pertencimento e valorização. Precisamos aproveitar, unir o setor e criar um grande movimento para que mudemos culturalmente também, e que passemos a ter uma espécie de ‘bairrismo benéfico’: primeiro e em maior participação vem o vinho brasileiro, seja em cartas de restaurantes ou em qualquer evento comemorativo. Estamos no início de um longo caminho, mas com muito otimismo e muita luz: viva o vinho brasileiro!

Naturebas
Mais antiga das feiras que apresentamos aqui, a Naturebas – considerada como o maior evento de vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos do Hemisfério Sul -, nasceu em 2013, dentro da Enoteca Saint VinSaint – restaurante e bar de vinhos pioneiro no ramo dos naturais no Brasil – e desde lá é realizada anualmente em São Paulo (SP). A feira, que tem foco na aproximação entre o consumidor final e os produtores, conta com a participação de muitas vinícolas de outros países, bem como importadoras.
O espaço e o a presença dos produtores brasileiros foi crescendo na Naturebas: se na primeira edição eram 19 vinícolas do Brasil, para este ano Lis Cereja (foto acima) estima 60, vindas de estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo.
A organizadora da feira reitera que o evento não foca em lançamentos, mas sim nos produtores em si e no fortalecimento do movimento do vinho natural: “gostamos que as pessoas vão lá pelos produtores, e não para caçar novidades”, diz, “mas como esse mundo do vinho natural é muito dinâmico, os produtores sempre apresentam coisas novas em todas as edições. Dezenas deles levam suas ‘invenções’ do ano”.
Assim com a participação das vinícolas brasileiras aumenta, o público também está mais presente: se na primeira edição, realizada ainda na Enoteca, 100 pessoas participaram, no ano passado, em um dos pavilhões do parque do Ibirapuera, foram 2,5 mil visitantes. “É a grande oportunidade pras vinícolas mostrarem seu trabalho ao público especializado profissional e também ao consumidor interessado, fazer grandes vendas diretas sem intermediários e ainda conectar-se com todas as pessoas que fazem parte do movimento, criando comunidade”, comemora a idealizadora da feira.
Sobre os destaques, aponta três diferentes trabalhos: “gosto muito do produtor BellaQuinta, um natural no meio da super industrial São Roque (SP), da vinícola Lorenzo (o único natural de Minas Gerais) e do Terroir da Vigia (na fronteira do Uruguai, com um projeto lindo e cultivo de castas georgianas)”, reflete.
Lis é uma verdadeira embaixadora do movimento natural: “a maneira mais eficiente de você levar o discurso da sustentabilidade do vinho natural é fazendo com que quem bebe o vinho conheça quem produza. Muitas pessoas não têm a real ideia de como os vinhos são elaborados, e muitos já perderam a noção de que existem pessoas reais por trás das garrafas. Degustar e conversar direto com quem produz o seu vinho é uma experiência que não tem volta”, argumenta, “além disso, é uma grande oportunidade para pessoas afins se encontrarem. Eu sempre digo que recebemos 2,5 mil visitantes na feira, que serão potenciais 2,5 mil novos amigos”.
Qual o futuro do vinho brasileiro, Lis?
Acredito que o vinho, da mesma maneira que a alimentação, deixará cada vez mais de ser algo plastificado. A era do super industrial, do super pontuado, da super modificação já passou. O mundo inteiro caminha para um paradigma mais sustentável e coletivo, e da mesma maneira com que o vinho sempre acompanhou as curvas da alimentação e dos modos de vida, ele também irá acompanhar pouco a pouco. Cada vez mais brasileiros têm orgulho de beber vinho nacional, e vinho nacional já deixou de ser pejorativo faz muito tempo.

ProWine São Paulo
‘Irmã’ da ProWein de Düsseldorf, na Alemanha, a ProWine São Paulo foi lançada em 2019 e hoje é o quarto maior evento de vinhos e destilados do mundo, o maior nas Américas, com a participação de 1,5 mil marcas de 36 diferentes países, entre eles o Brasil. Realizada no segundo semestre do ano, ainda há um bom tempo pela frente até a consolidação dos expositores, mas as informações das edições anteriores já mostram a grandiosidade do evento, que dobra o espaço físico e passa a ser realizada em dois pavilhões.
“Feiras como a ProWine São Paulo ampliam de forma significativa a visibilidade das vinícolas, especialmente no mercado internacional. O nosso encontro posiciona o Brasil de maneira mais relevante no cenário global e ajuda a ampliar a percepção sobre a diversidade da produção nacional”, afirma Malu Sevieri (foto acima). “Fora do país ainda existe uma visão limitada do Brasil como produtor de vinhos, a feira contribui diretamente para mudar esse cenário ao permitir que compradores e produtores estrangeiros conheçam, na prática, a variedade de regiões, estilos e propostas existentes”, diz a diretora da ProWine São Paulo, “esse contato direto é fundamental para colocar o Brasil no mapa de forma mais consistente”, conclui.
Se em 2019 a ProWine São Paulo teve a presença de 2,6 mil participantes do trade – profissionais do setor de vinhos e destilados, como importadores, distribuidores, varejistas, sommeliers, compradores e outros agentes do segmento – no ano passado mais de 20 mil pessoas percorreram o pavilhão durante os três dias.
Os números são mesmo superlativos: na edição de 2025 os organizadores da ProWine contabilizaram cerca de R$ 250 milhões em negócios diretos, com impacto estimado de R$ 500 milhões nos meses seguintes. A feira não tem dados consolidados de negócios envolvendo apenas as empresas brasileiras, mas até o momento estima a presença de pelo menos 200 vinícolas do Brasil para a edição 2026, com os contratos de participações ainda sendo fechados.
No ano passado estiveram presentes produtores de nove estados – Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo – além do Distrito Federal, muitos deles reunidos em associações de produtores que mais uma vez já confirmaram a presença:
Altos Montes (RS)
Anprovin (MG, SP, RJ, BA, GO e DF)
Aprovale (RS)
Vinhos de Altitude (SC)
Vinhos do Vale do São Francisco (PE, BA)
“O Sul segue como principal polo, mas regiões menos tradicionais vêm ganhando espaço, especialmente o Nordeste, com o Vale do São Francisco e a Chapada Diamantina, que produzem vinhos em condições climáticas únicas e com mais de uma safra por ano”, pondera Malu, “esse avanço mostra um mapa do vinho brasileiro mais amplo e ainda em transformação”, reflete, e destaca também o crescimento qualificado da produção de vinho no país como um ponto alto da participação das marcas brasileiras na feira. “No caso do Brasil, esse movimento é particularmente interessante: há uma variedade crescente de estilos, regiões e propostas que ainda surpreendem muitos profissionais do setor. Mais do que um lançamento isolado, o que tende a se destacar é essa evolução consistente da produção nacional dentro de um ambiente altamente competitivo e internacional”.
Qual o futuro do vinho brasileiro, Malu?
De expansão e consolidação. O Brasil deve ganhar mais reconhecimento pela diversidade de regiões e estilos, com avanço em qualidade, profissionalização e presença internacional. Ainda é um mercado em desenvolvimento, mas com espaço claro para crescer em valor e posicionamento.
Confira as datas e locais das quatro principais feiras de vinho no Brasil
De 12 a 14 de maio
Bento Gonçalves (RS)
De 25 a 27 de junho
Brasília (DF)
De 27 a 28 de junho
São Paulo (SP)
De 6 a 8 de outubro
São Paulo (SP)
Fotos: César Silvero, divulgação Expovitis, divulgação Naturebas e divulgação ProWine.
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