Karene Vilela é uma estudiosa que dedica muitas horas ao estudo em busca do título de Master of Wine, certificação disputadíssima e dificílima de obter – há apenas 422 pessoas com este título no mundo. Com diploma em Propaganda e Marketing e pós em Negócios, Karene obteve o Diploma da Wine and Spirit Education Trust (WSET) na Inglaterra, é certificada pela Court of Master Sommeliers e fez diversas especializações na Wine Scholar Guild.
Além do foco nos estudos, Karene atua no Brasil, Portugal e Inglaterra como diretora comercial e de marketing do grupo Bacalhôa, uma das principais empresas de vinhos portugueses. Também é presidente da Câmara de Comércio Portuguesa de São Paulo e dá aulas de vinhos na The Wine School Brasil.
Entre os dias 9 e 11 de abril de 2026, na Casa Tés, no Vale da Grama (SP), e na Eno Cultura, em São Paulo (SP), foi realizado pela primeira vez no Brasil o curso introdutório ao Masters of Wine (na foto acima o grupo que participou da imersão). A inciativa da Enocultura trouxe ao país os Masters of Wine Marina Gayan e Demetri Walters com a proposta ampliar a presença latino-americana no programa.
Karene esteve lá não como aluna para conhecer o curso introdutório – “se tem uma coisa que eu já sei é o que é esse programa do Master”, brinca ela – esteve lá no jantar oferecido pela ViniPortugal aos participantes do evento.
Personagem recorrente aqui no Brasil de Vinhos – grande incentivadora do nosso trabalho -, Karene: já teve seu perfil apresentado em uma reportagem que realizamos certa vez com mulheres do vinho e foi entrevistada no Brasil de Vinhos RECEBE exatamente por conta de sua dedicação aos estudos em busca das iniciais MW ao lado de seu nome.
Desta vez pedimos a ela um depoimento sobre a importância deste olhar do Instituto Masters of WIne para o Brasil.
Confira abaixo a opinião da especialista.
O curso introdutório do Master of Wine no Brasil foi apenas o começo
por Karene Vilela
A minha trajetória no programa do Institute of Masters of Wine nunca foi linear: foi feita de idas e vindas, de pausas necessárias e de regressos turbulentos. De entusiasmo e exaustão, de conquistas silenciosas e de dúvidas profundas sobre o meu futuro no programa. Como tantas jornadas que realmente importam, ela foi e continua sendo longa e, muitas vezes, solitária.
Ainda estou na segunda fase do programa e preciso passar na prova prática para encarar o último round e me tornar Master of Wine. Mas ainda assim há dúvidas sobre se realmente chegarei lá um dia.
Durante anos, estudar para o Master of Wine significou estudar quase sozinha no Brasil. Olhar ao redor e encontrar pouquíssimos colegas no mesmo caminho, especialmente na América do Sul – atualmente há apenas seis estudantes no continente. Um programa global, exigente ao extremo, mas que, geograficamente, parecia distante da nossa realidade. Não pela falta de talento, mas pela falta de acesso, de estrutura e de proximidade.
Talvez por isso, o que aconteceu nos dias 9 e 10 de abril de 2026 em São Paulo tenha um significado que vai muito além de um simples curso.
A realização do curso introdutório do Master of Wine no Brasil não foi apenas um marco educacional, foi um gesto emblemático. Um sinal claro de que o eixo do conhecimento e da ambição pode se descolar e se descentralizar da Europa.
Pela primeira vez, vimos o programa se aproximar fisicamente de um país que, por muito tempo, esteve à margem das grandes narrativas do vinho mundial. E isso, definitivamente, é um grande marco para todo o trade brasileiro.

Um marco encabeçado pela Enocultura, na pessoa do Thiago Mendes (segundo à esquerda na foto acima, ao lado de Marina Gayan MW, Karene Vilela e Demetri Walters MW), que convenceu o Instituto de que faria sentido trazer o curso de apresentação do programa para o Brasil. Tive a honra de testemunhar esse feito durante um jantar patrocinado pela ViniPortugal, na quinta-feira, no qual pude apresentar dez produtores excelentes do país e colocar os vinhos portugueses como protagonistas diante dessa audiência tão qualificada.
Os dois dias foram conduzidos por dois Masters of Wine, Demetri Walters MW e Marina Gayan MW, e serviram para explicar a lógica do curso a aqueles que têm ambição de se inscrever e iniciar a sua jornada. Depois de alguns anos no programa, acredito que esses dois dias serviram para algo ainda maior: mostrar que o Brasil e a América do Sul podem, sim, estar nos grandes palcos de discussão do vinho no mundo.
E esse movimento não acontece isoladamente.
Nos últimos anos, temos assistido a uma mudança gradual, mas consistente, no posicionamento da América do Sul no cenário internacional. A recente publicação do guia de vinhos brasileiros por Tim Atkin MW trouxe uma nova lente de análise ao país. A conquista do título de Master of Wine por Amanda Barnes, baseada na Argentina, reforça que este caminho, embora difícil, é possível a partir do nosso continente. O protagonismo da ProWine São Paulo, que cresce a cada ano, também reforça esse movimento.
Ao mesmo tempo, movimentos macroeconômicos, como o acordo entre Mercosul e União Europeia, colocam o Brasil num novo lugar de relevância, ampliando não só as trocas comerciais, mas também o interesse global pela nossa produção, pelo nosso mercado e pela nossa cultura.
Tudo isso converge em um único ponto: visibilidade. E visibilidade, no mundo do vinho, é transformação.
O curso introdutório do Master of Wine no Brasil foi apenas o começo.
Um convite para que mais profissionais se aproximem do conhecimento com mais profundidade. Para que mais vozes brasileiras participem das discussões globais. Para que, no futuro, quando falarmos de excelência no vinho, o Brasil não seja apenas um espectador, mas também um protagonista.
Depois de tantos anos percorrendo esse caminho quase em silêncio, ver, no Brasil, uma sala cheia discutindo o Master of Wine com curiosidade, ambição e brilho nos olhos é, acima de tudo, emocionante!
Porque talvez, pela primeira vez, essa jornada tenha deixado de ser solitária. E pode, definitivamente, se tornar coletiva!
Karene Vilela é MW Student baseada no Brasil
Fotos: divulgação Enocultura
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