A parte inicial da segunda visita ao Brasil de Yvette van der Merwe, presidente da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), foi uma sucessão de primeiras vezes: a primeira visita a uma concentradora de sucos, o primeiro sabrage, a primeira degustação de um espumante Moscatel, a primeira prova direto de um tanque (com direito a ‘operar’ a torneira), o primeiro ensaio para fazer um blend de suco de uva, a primeira dose de grappa e o primeiro Cappelletti – afinal, a viagem começou pela Serra Gaúcha, mais especificamente Bento Gonçalves (RS).
Apesar da extensa e cansativa agenda, Yvette se mostrou muito receptiva e simpática, sempre gentil e solícita. Um dos seus principais objetivos no país, repetiu diversas vezes, é tentar entender o comportamento do consumidor, por isso também questiona bastante: “sou muito curiosa”, diz ela, enquanto pede mais informações sobre o trabalho de gravura no corrimão das escadas de acesso às caves da Casa Valduga. Atenta às explicações dos anfitriões nos mais diferentes locais, fez muitas fotos de detalhes externos de cada empreendimento: os jardins, as flores, a vegetação, a lua.
Yvette esteve na capital brasileira do vinho a convite da ConceptWine, como palestrante principal do 2o Enomeeting, congresso técnico focado em vinho, enologia e viticultura. Em uma das últimas apresentações dos três dias do encontro, Yvette, economista de formação, discorreu a respeito das perspectivas da OIV sobre sustentabilidade, mercados e consumidores de um setor vitivinícola global em transição.
Segunda visita ao país
Até então a única vez que tinha estado no Brasil havia sido há 10 anos: em 2016, Yvette participou do Congresso Mundial da OIV, naquele ano realizado no Brasil, também em Bento Gonçalves. Na época, a presidência estava sob a responsabilidade de uma mulher, a alemã Monika Christmann; em 2018 foi a vez da brasileira Regina Vanderlinde, que ficou no cargo até 2021.
Uma década depois – agora à frente da OIV, uma organização científica e técnica, formada por 51 estados membros, como ela fez questão de ressaltar diversas vezes – leva as melhores impressões da indústria do vinho no país. Em suas primeiras falas já deixou claro que gostaria de saber mais a respeito do Enoturismo brasileiro, e também sobre o comportamento do consumidor, mas externou que tem muita curiosidade a respeito da técnica da Dupla Poda, sistema que possibilita a produção dos Vinhos de Inverno no Sudeste e Centro Oeste brasileiros, fazendo com que o Brasil seja o único país no mundo capaz de produzir vinhos a partir de três diferentes tipos de viticultura, Tradicional, Tropical e de Inverno. Um pouco sobre esse pioneirismo brasileiro pode conhecer na palestra de Isabela Peregrino – enóloga consultora de diversas vinícolas que utilizam o sistema, principalmente em Minas Gerais – no Enomeeting.
Acompanhamos a primeira etapa da viagem de Yvette pelo Brasil, em Bento Gonçalves e Flores da Cunha. A presidente da OIV fica no Brasil até os primeiros dias de setembro, e antes de retornar ao seu país de origem, a África do Sul, deve conhecer a região dos Campos de Cima da Serra e depois estará em Brasília, conhecendo de perto vinhedos e provando vinhos elaborados a partir do sistema de Dupla Poda. A passagem pela capital federal tem na agenda algumas reuniões com representantes do ministério da Agricultura.
Três dias na Serra Gaúcha

A missão da presidente da OIV no Brasil começou com uma visita à Tecnovin, uma grande indústria de processamento e beneficiamento de frutas, especializada na produção de sucos concentrados e matérias-primas para as indústrias de bebidas, alimentícia, de cosméticos e química. Ali Yvette foi recepcionada pelo gerente corporativo administrativo Everton Milani – também presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados – que apresentou todas as etapas dos processos produtivos. À noite, em jantar na vinícola Maison Forestier, fez uma breve fala salientando que “não era o momento de discutir questões técnicas da OIV e sim apreciar uma bela refeição, com excelentes vinhos e aproveitar a companhia de todos”. Foi ali também que a curiosa Yvette ajudou na preparação e provou, pela primeira vez, o pinhão na grimpa – antes já tinha feito seu primeiro sabrage (na foto acima, com Everton Milani).

Na Casa Valduga, conduzida pelos enólogos Juliano Perin (foto acima) e Daniel Dalla Vale, ficou admirada com a quantidade de experiências enoturísticas oferecidas pela empresa, desde rápidas degustações no balcão do varejo até cursos mais técnicos de cerca de quatro horas, com visita aos vinhedos e à produção, ministrados por enólogos e com direito a certificado. Ali a faceta da economista especialista em comportamento do consumidor apareceu bastante: quando informada que a maior parte do público do Enoturismo é de 30 anos ou mais logo questionou o que a empresa está fazendo para reter os clientes entre 18 anos e 30 anos.
A resposta para esta pergunta não é assim tão simples, mas uma parte dela estava alguns passos a frente, na sala de expedição de espumantes – estilo de vinho declaradamente preferido de Yvette: “por que não fazer do espumante um produto do dia a dia?”, perguntou ela, “por que o espumante ainda é, para muitos, algo a ser bebido apenas em momentos comemorativos?”, questionou?
E como espumante não precisa de um momento especial, foi o 130 da Casa Valduga que abriu o almoço no qual Yvette foi apresentada ao Cappelletti. Antes de ir embora, sorriu ao provar a Grappa branca.

À tarde, com uma plateia lotada por especialistas, estudantes, enólogos, sommeliers e profissionais de diversos segmentos da indústria do vinho, Yvette abriu a 2ª edição do Enomeeting: “Hoje, o Brasil é um importante país produtor e consumidor de vinho, com notável diversidade, variedades de uvas e sistemas de produção. Uma nação que tem muito a aprender com outros países produtores de vinho, mas também há muito que a comunidade vinícola internacional pode aprender com o Brasil”, disse em seu discurso de abertura, uma fala que se fortaleceu durante os dias que esteve aqui.

No dia seguinte, em encontro setorial organizado pelo Consevitis-RS, após uma breve apresentação de dados da indústria do vinho no Brasil, degustou diversas amostras de suco de uva produzido a partir de diferentes variedades BRS, assinadas pela Embrapa – gostou tanto do que provou que deixou uma sugestão no ar: “quem sabe um dia, ao sair da OIV, eu possa ser a embaixadora do suco de uva brasileiro?”, brincou. Ou não, porque ao lado de Fernanda Spinelli, Engenheira de Alimentos brasileira delegada da OIV, que a acompanhou durante todo o tempo, ensaiou seu primeiro blend de suco, com as BRS Carmem, Cora e Rúbea.

Acompanhamos Yvette em mais uma visita, desta vez na sede da Nova Aliança Vinícola Cooperativa, em Flores da Cunha. Lá, Heleno Facchin, CEO, e Sidimar Fleck, presidente, apresentaram a companhia e os produtos resultados do trabalho de 620 famílias cooperadas. Foi na cantina da Nova Aliança que Yvette provou, pela primeira vez, um Moscatel, que ela mesma serviu, direto do tanque.
Sete perguntas para a presidente da OIV
Como a OIV percebe a viticultura brasileira?
Como membro da OIV nós valorizamos a contribuição do Brasil. Nós sabemos que um país tem uma contribuição para fazer, independente de onde está em sua trajetória. Se é um novo país na indústria, se é um país mais ou menos desenvolvido no setor. Onde quer que estejam no espectro da sua jornada, de vinho, nós sentimos que eles têm uma contribuição para fazer.
Como OIV, nós temos que dar valor aos nossos membros. E o valor para nós é trazer todos os especialistas juntos para interagir ideias, conhecimento, expertise, pesquisa, inovação. E precisamos dos jovens, porque precisamos da energia e de novas ideias, mas também precisamos de experiência, confiança e conhecimento.
Nós vemos o Brasil, como vemos cada país membro que tem uma contribuição para fazer: sempre temos algo para aprender deles.
E como ocorrem as mudanças e os aprendizados na OIV?
Para mim é algo muito emocionante. Estou na OIV há quase 26 anos, passei por diversas posições. Se analisarmos como era e como está hoje são muitas mudanças. Sou a primeira presidente do continente africano, nós temos um CEO da Hemisfério Sul (John Barker, natural da Nova Zelândia). São duas pessoas do Hemisfério Sul, em 26 anos isso nunca tinha acontecido, sempre foi tudo muito francês, muito europeu, e eu pude ver isso mudar com o tempo.
Um mundo muito antigo, mas lembre que este mundo antigo – França, Espanha, Itália, ainda tem um pouco mais de 50% de produção mundial, então ainda é um grande componente dentro da OIV, mas você vê as vozes dos novos países do mundo.
E quais os desafios disso?
Nós vemos, por exemplo, a França, Bordeaux, lutando, nós vemos alguns dos outros países lutando com exatamente os mesmos desafios que os novos países do mundo. Agora, de repente, eles percebem que não são mais os únicos, que não são mais os principais, mas que têm os mesmos desafios dos menores.
O consumo que está declinando, as mudanças climáticas…Eu acho que isso cria uma necessidade para que as pessoas comecem a se engajar com os outros países.
E com tudo isso como o Brasil ganha espaço dentro da OIV?
O Brasil tem muito o que aprender com a OIV, mas a OIV também tem muito o que aprender com o Brasil. A cultura dentro da Organização se tornou muito mais colaborativa. O Brasil tem voz, tem direto a voto, eu amo isso sobre a OIV. O que é importante é que tenhamos diversidade de especialistas dentro das nossas comissões, subcomissões e nossos grupos de trabalho.
É importante que os países entendam a importância de enviar seus especialistas. Porque se a Fernanda Spinelli não tivesse vindo, se a Aline Barcellos não tivesse vindo, se a Regina Vanderlinde não tivesse vindo, então onde estaríamos? Então, nós sempre enfatizamos quando nos engajamos com o governo – porque somos uma organização intergovernamental – para que as indústrias deem o valor, enfatizamos esse valor da pesquisa e da ciência.
Quais tuas expectativas sobre o Brasil?
Bem, estou aqui há apenas dois dias, mas posso dizer que percebi que mudou muito para melhor. Nós vimos muito progresso da produção brasileira – e lembre que eu analiso do ponto de vista do consumidor.
Nesse pouco tempo que estive aqui pude ver a indústria de suco concentrado, saber mais sobre o Enoturismo, era isso que que quer conhecer de perto. E agora eu pude vivenciar isso, pude comprovar que houve muito progresso.
Estando na OIV, atualizada com o que está acontecendo eu não precisaria vir aqui para saber o que está ocorrendo com a indústria do suco de uva e para entender que houve muito progresso no Brasil. E progresso não apenas do ponto de vista da produção, mas também em conseguir que o consumidor aumente o seu consumo, especialmente o jovem, fazer com que ele se envolva com a categoria.
Como comparas o Brasil a outros países produtores de vinho que já visitaste?
Do pouco que eu vi até agora acho que vocês têm uma resposta rápida sobre o que está acontecendo na indústria. Estive em vários países e digo que o que vocês fazem em termos de Enoturismo fazem excepcionalmente bem. Estou conhecendo projetos nos quais percebo que a indústria está buscando fazer o consumidor se engajar com o vinho, mas sem tirar o consumo do vinho. Para mim isso é muito importante: a primeira coisa é o vinho.
O Brasil está emitindo pequenos sinais de como conectar ao consumidor, não tentando educá-los, mas os ouvindo e oferecendo o que eles querem.
Tua próxima parada, depois do Rio Grande do Sul, será Brasília e os Vinhos de Inverno: o que esperas ver lá?
Não faço ideia, risos. Mas é por isso que quero ir e ver, sou bastante curiosa, quero muito conhecer a Dupla Poda, sei muito pouco sobre isso, por esse motivo quero ir e ver, não sei se outro lugar do mundo faz isso. Eu tenho muitas perguntas sobre essa técnica, estou muito ansiosa para conhecer e saber, por exemplo, por que só no Brasil?

Da objetividade dos números para a subjetividade da uva e do vinho: conheça Yvette van der Merwe, a economista que está no comando da ‘ONU’ do vinho
Em 2024 a sul-africana Yvette van der Merwe, economista e especialista em tecnologias da informação, assumiu a é presidência da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Eleita para um mandato de três anos, é a primeira presidente africana na história da entidade — um marco que coincide com a entrada da OIV em seu segundo século de existência.
Há quase três décadas no setor vitivinícola sul-africano, Yvette ocupa o cargo de CEO da South African Wine Industry Information and Systems (SAWIS), organização responsável pela administração do sistema de denominação de origem (Wine of Origin) e pela gestão de dados estatísticos e inteligência de negócios da indústria do vinho na África do Sul.
Sua trajetória na OIV começou em 2000, como integrante da delegação sul-africana. De lá ara cá, acumulou passagens por diferentes frentes técnicas da Instituição: foi vice-presidente do grupo de especialistas em Direito e Informação ao Consumidor entre 2013 e 2016, presidiu o grupo de especialistas em Análise Econômica, Mercados e Consumo de 2016 a 2021, e chegou à presidência da Comissão III – Economia e Direito, cargo que ocupou de 2022 a 2024, pouco antes de assumir a presidência geral da organização.
Formada em economia, com atuação também voltada a sistemas de informação e inteligência de mercado, construiu reputação como referência em regulamentação vitivinícola, estatísticas do setor e políticas internacionais do vinho — um perfil técnico ajuda a explicar sua ascensão a um posto historicamente ocupado por representantes europeus.
Fotos: Brasil de Vinhos | Lucia Porto e divulgação OIV
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