Sommeliers brasileiros pelo mundo

Sommeliers brasileiros pelo mundo

Nova Zelândia, Japão, França, Itália, Argentina, Portugal, Canadá e Austrália: lugares distantes no globo, muito diversos entre si, mas com algumas coisas em comum. Uma delas é a presença de sommelières e sommeliers brasileiros trabalhando em restaurantes, bares de vinho, vinícolas, hotéis, maisons, chateaux, como consultores ou como empresários.

O vinho é mesmo um mundo, há muita coisa por descobrir.

Em cerca de 30 dias a partir de indicações daqui e dali, conversamos com 14 brasileiras e brasileiros, nascidos em diferentes partes do Brasil: tem gaúcho, mineiro, potiguar, paranaense, capixaba, baiana, catarinense, paulista e carioca – de nascimento ou de adoção – todos apaixonados pelo vinho e pela sommellerie, a arte de bem servir.

Foram trocas de mensagens de texto e áudio por whatsapp, fotos enviadas por e-mail, entrevistas informais que começavam em um dia e terminavam noutro – pensa em organizar o fuso horário dessa turma toda: é quase impossível.

A ideia é simples, apresentar quem são alguns das brasileiras e brasileiros que ganham a vida em outros países, muitos deles do Velho Mundo, berço do vinho, trabalhando com a bebida. Algumas pessoas saíram daqui com esse objetivo, outras se descobriram por lá. Aproveitamos a conversa para descobrir com eles o que o mundo sabe – ou não sabe – sobre o vinho brasileiro.

Esta é uma matéria longa, para degustar aos poucos, harmonizando com um bom vinho.  Saque a rolha de um rótulo que não conheças – de preferência brasileiro – e viaje pelo mundo conosco, descobrindo um pouco mais sobre a história de cada um deles.

E se tiveres alguma foto com eles por aí, publica no teu stories e nos marca @brasildevinhos, vamos adorar repostar.

Argentina

Eduardo Schiebel

Paranaense de Curitiba, mora e trabalha em Bariloche, na Argentina, onde é sócio de uma loja de vinhos e de um wine bar.

Eduardo entrou no mundo do vinho por necessidade. Formado em Gastronomia, trabalhava como gerente de restaurante. Ao receber uma nova oportunidade num local com uma extensa carta de vinhos, resolveu estudar. Fez a matrícula no curso de Sommelier do Centro Europeu e logo se apaixonou pelo tema, tanto que além do curso, passou a estudar por conta própria: hoje a paixão é tão grande que coleciona algumas tatuagens pelo corpo. Em determinado momento resolveu explorar a Europa e foi conhecer mais sobre vinhos estudando em Valência, na Espanha, onde se especializou em rótulos valencianos. No mesmo período, completou o nível 3 do WSET.

Hoje mora e trabalha em Bariloche, na Argentina, país que recebe milhares de turistas brasileiros. “A dificuldade de ser estrangeiro, muitas vezes, é ter que provar para os locais que entendemos do assunto”, diz Eduardo. “Durante meu período na Espanha aguentei alguns comentários desagradáveis, principalmente de pessoas de mais idade”, lamenta. ”Mas também tive muito reconhecimento de pessoas que entendiam de vinho, como professores e enólogos, por exemplo”, lembra. O que resume uma das vantagens em ser de outro país aprontadas por Eduardo: o interesse por conhecimento. “Vejo o brasileiro com vontade de aprender sobre todos os países produtores de vinhos do mundo, enquanto muita gente Europa é muito ‘bairrista’ e se interessa somente com os vinhos de seu país”, reflete. “Obviamente não se pode generalizar, mas acontece muito entre trabalhadores e consumidores, inclusive aqui na Argentina, é muito difícil encontrar vinhos que não sejam elaborados no país, e isso faz com que o consumidor conheça pouco sobre como um vinho pode ser diferente de um lugar para outro”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Se a pessoa tem a oportunidade de ir morar fora para se especializar, vá sem medo. Busque conhecimento, viaje e estude. O conhecimento é algo que não se perde, eu não me arrependo nada de ter saído do Brasil em 2018 e faria tudo de novo. A sensação de chegar em um lugar novo com o objetivo de explorar é inexplicável. Possivelmente minhas viagens não terminam aqui na Patagônia.

Sobre vinhos brasileiros

Não trabalho com vinhos brasileiros em nossa loja, somente com vinhos argentinos, já que nossos principais clientes são turistas brasileiros, que buscam por vinhos argentinos. Tenho muito amor e interesse pela história do vinho no Brasil, já visitei todas as regiões produtoras do Sul e espero conhecer todas as demais zonas do nosso país. Trabalhei durante um período na única vinícola que produz todos os seus vinhos a partir de suas próprias uvas no Paraná: a Vinícola Legado. Eu fazia todas as atividades de campo e cantina e realizava as degustações para os clientes. Sempre que vou ao Brasil faço questão de provar tudo que posso de vinhos brasileiros, que infelizmente são muito pouco conhecidos fora do nosso país. Na Argentina, ainda existem pessoas que conheçam um pouco do que produzimos, mas na Espanha e em outros países da Europa, é quase zero. Sempre que possível comento para enólogos e sommeliers sobre nossos vinhos.

Portugal

Giscard Muller

Gaúcho de Santa Vitória do Palmar, viveu a maior parte da vida em Pelotas, hoje mora e trabalha em Portugal, onde é sócio do grupo Gambar, em Lisboa.

 Como tantos jovens Giscard saiu do Brasil em busca de oportunidades e sem ter uma definição de sua vida profissional. Em Lisboa conheceu o sommelier Manuel Moreira que foi seu mentor e lhe abriu as portas do mundo do vinho. “Foi uma descoberta. O entusiasmo do Manuel Moreira logo me mostrou um caminho que agarrei com unhas e dentes, foi uma ótima escolha”, lembra. “O vinho não só me deu uma profissão como também uma reputação dentro desse mercado, o que me possibilitou estar no lugar que estou hoje”.

Giscard avalia o fato de ser um estrangeiro como algo neutro – trabalho e dedicação são o combustível para o sucesso. “Saber mais de vinho que um cliente nativo nem sempre é bem aceito, pelo menos até termos algum reconhecimento”, sentencia.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Em Portugal, é simples: há déficit de mão de obra qualificada em várias áreas, mas sobretudo na restauração: basta ser esperto e dedicado que as portas vão se abrir. Aqui se queres trabalhar e crescer, não faltam oportunidades.

Sobre vinhos brasileiros

Infelizmente não temos por aqui. Mesmo nos restaurantes de cozinha brasileira é difícil, até porque os brasileiros vêm em busca dos vinhos portugueses e os portugueses não estão muito abertos a vinhos do Novo Mundo. Em 19 anos que estou aqui só provei uma vez um vinho brasileiro, trazido por um sommelier do Club el gourmet do El Corte Inglês, para um almoço de amigos. Eu mesmo sei pouco, nas minhas idas ao Brasil senti que faltava incentivo dos sommeliers em vender os vinhos brasileiros. A percepção que os clientes daqui têm sobre os vinhos brasileiros é má, sem dúvida, porque nunca provaram e se provaram foram vinhos muito maus como alguns feitos no Vale do São Francisco.

Julieta ‘Ju’ Carrizzo

Nascida na Itália, mas criada no Rio de Janeiro, Ju é cidadã do mundo e atualmente mora em Lisboa, onde atua no grupo Irajá. 

Ju veio pequena para o Brasil, mas tem na memória os verões nos quais participava das colheitas e da produção do vinho da família no interior da Itália. Foi durante a faculdade de Hotelaria que se apaixonou pelo serviço do vinho, pelas histórias envolvidas e começou a estudar, fazendo sua formação pela ABS-RJ e também com o nível 3 do WSET. A segunda mudança de país foi quase tão natural quanto a primeira, já que Ju sentia falta de estar mais próxima dos produtores de vinho. Até então morando no Rio de Janeiro viajava 3 ou 4 vezes por ano para revisitar e conhecer novas vinícolas quando tomou a decisão de se dedicar ao trabalho direto com quem faz e seguir o conceito do campo ao copo.

Na Europa é importante o estrangeiro saber que, apesar da mentalidade bem mais aberta ao provar de tudo, existe o orgulho cultural em honrar a tradição do Velho Mundo. “Aos poucos vamos mostrando a riqueza e diversidade que o país tem, e o ‘encanto ou respeito’ pelo nosso trabalho acaba sendo mútuo”, diz.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Estudem bem a área e o mercado onde pretendem morar, se possível visitem mais de uma vez antes de tomar a decisão, e estejam preparados para dar alguns passos pra trás: depois de muita dedicação darão muitos para a frente.

Sobre vinhos brasileiros

Eu trabalho expondo pequenos produtores, e busco ter sempre nas cartas vinho brasileiro de alta qualidade, geralmente apresentando uma coisa totalmente nova – que a pessoa nunca imagina de que seja produzida no Brasil. Em 2014 lancei a minha primeira carta exclusiva de vinhos brasileiros, e continuo estudando e acompanhando a evolução do consumo e estilos de vinificação no Brasil. Sinto ainda  bastante falta de informação sobre os vinhos brasileiros, mas isso vem mudando muito nos últimos anos.

Pedro Henrique ‘Pedrones’ Ramos

Mineiro de Belo Horizonte, morou pelo Brasil todo graças à profissão do pai, engenheiro. Saiu do país com 4 anos, passou pelo Peru, Colômbia e Estados Unidos antes de voltar aos 16, direto para o Rio de Janeiro, onde passou boa parte da vida. Hoje mora e trabalha em Lisboa, Portugal, onde atua como Head Sommelier do restaurante Feitoria.

A ideia de morar na Europa veio da esposa de Pedrones, que em 2014 sugeriu a mudança de país e o incentivou o publicitário de formação a buscar a cidadania e estudar vinhos, sua paixão. Foi assim que tudo começou, estudando WSET 1 e 2, trabalhando em lojas de vinhos e festivais. Pedrones morou temporariamente em uma vinícola no Alentejo até que passou a trabalhar em restaurantes em Lisboa, começando pelo JNcQUOI Avenida. Um tempo depois foi para o restaurante Alma, onde foi Head Sommelier até a mudança para o Feitoria, que fica em Belém, ao lado da Torre, onde atua no mesmo cargo.

O sommelier sempre teve o vinho como uma algo que vinha de família, que passou do avô para o pai e depois para ele, o filho. “A ideia era buscar a profissionalização e ficar em Portugal”, conta, “se por acaso não desse certo eu voltaria com mais conhecimento”. Isso aconteceu há quase 10 anos, então parece que correu tudo bem por lá.

E por que Portugal? “Uma porta de entrada para a Europa toda”, diz ele, que complementa falando que sempre que pode escapa para um dos países próximos para buscar mais conhecimento.

“Inicialmente eu senti um certo preconceito por parte do público mais velho, algo do tipo: mas como um brasileiro está aqui me falando sobre os nossos vinhos portugueses?” Mas com conversa, compreensão e entendimento da seriedade do trabalho, a percepção mudou. Depois passando pelo Alma e agora no Feitoria, restaurantes Michelin, há uma espécie de chancela de qualidade que parece que atesta a competência de quem faz parte da equipe. “Há clientes que confiam cegamente nas minhas sugestões”, complementa. “A forma como o brasileiro se comunica ajuda a vender melhor, nos expressamos muito bem”, resume. 

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Não pode parar de estudar. No meu primeiro ano quando trabalhava em uma garrafeira – loja de vinhos – toda semana tinha degustação de produtor. Isso foi muito importante para eu me ambientar no mercado, conhecer os perfis diferentes de produtor. Naquele período eu tive um ‘intensivão’ de vinhos portugueses, foi excelente. Mas o importante é sempre estudar, caçar oportunidades mesmo, ir a feiras, e principalmente se portar como um profissional – nada de encher a cara. Uma feira serve para beber o aprendizado e usar a cuspideira.

Sobre vinhos brasileiros

Não trabalho com rótulos do Brasil pela escassez de oferta, e é bem difícil também porque Portugal é um país que tem muita tradição, muitos produtores, até nas ilhas. Recentemente fui impactado aqui por uma pessoa do comercial que trouxe vinhos da Don Guerino, rótulos que tivemos a oportunidade de degustar online com o produtor. Era um estudo de mercado, mas na conversão de preço os vinhos chegariam caros do Brasil e o negócio não foi adiante, até em função da concorrência. Muitas pessoas em Portugal têm curiosidade e perguntam se o Brasil faz vinho, e eu conto da qualidade dos espumantes do Sul e também dos vinhos de São Paulo, Minas, Goiás, Vale do São Francisco, com bastante investimento e tecnologia. Mas eu preciso conhecer mais, sei apenas o básico. Sempre que vou ao Brasil procuro novidades, da última vez que estive aí, por exemplo, trouxe duas garrafas de espumante Cave Geisse. 

França


Clea Francisca De Paula

Baiana de São Gabriel, mora na França, Languedoc-Roussillon, em Portel-des-Corbières, onde tem seu próprio negócio, a agência Syrah.

Clea sempre quis estudar Psicologia, mas conta tudo mudou quando conheceu a Europa, há quase 20 anos. ”Descobri o mundo fascinante da Gastronomia e Vinicultura, algo que uma menina do Nordeste da Bahia nem imaginava existir”. O que veio depois foi uma avalanche de estudos e conhecimentos: formação pela ABS-SP, ainda no Brasil e depois, já na França faculdade de Sommellerie no Centre de Formation Professionnelle et de Promotion Agricole CFPPA DE Beaune Bourgogne, WSET 2 e Communication et œnotourisme na Ecole Supérieure du Vin Rivesaltes. Em paralelo, diversos trabalhos na área, entre eles com o produtor Gérard Bertrand no Languedoc, no Château l’hospitalet Wine Resort, em Narbonne. Clea também exerceu a função de Brand Ambassador da marca, principalmente no Brasil. Na sequência assumiu o posto de sommelière responsável pelo enoturismo e hospitalidade no Château de Lastours na apelação Corbières, no village Portel des Corbières, onde ficou até o final de 2023, até lançar seu negócio próprio, o projeto Syrah, uma agência de empregos e enoturismo que assessora profissionais que querem trabalhar na França de forma segura e legal.

“Sempre quis uma vida tranquila e discreta e França me deu isso, com oferta de trabalho farta para todos que têm vontade e coragem de trabalhar”, diz. ”Meu maior desafio e compromisso é encontrar o equilíbrio entre a minha essência de brasileira, positiva, alegre, sorridente, que pensa que tudo vai dar certo em comparação com a cultura francesa, que é bem mais fechada”, reflete. “Mas o simples fato de ser brasileira ajuda muito: os franceses são completamente apaixonados pelo Brasil e os brasileiros são muito bem vindos aqui na França”

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

A primeira coisa é sempre acreditar nos seus sonhos e seguir em frente. Eu sempre falo: se eu consegui chegar onde estou, que é exatamente onde eu gostaria de estar, qualquer um é capaz também de chegar onde quiser!

Sobre vinhos brasileiros

Tive o privilegio de ter um rótulo da vinícola Pizzato na carta de vinhos do Wine Bar no Touquet Paris Plage. Foi uma agradável surpresa, eu ainda não conhecia, mas tive muito orgulho de poder oferecer para os clientes franceses. Não trabalho com vinhos brasileiros atualmente porque estou em uma região vitivinícola, então só encontramos rótulos da região, coisa que é comum na França. Tenho poucas informações sobre os vinhos brasileiros, mas tento estar sempre conectada com as novidades e os avanços dos produtos do meu país. Sinto orgulho do que produzimos no Brasil.

Marina Giuberti

Nascida em Colatina (ES), morou em Vitória e Rio de Janeiro antes de mudar para Itália e finalmente chegar à França, onde vive desde 2006. Atualmente administra a Divvino Paris, enoteca e wine bar.

Marina sempre quis trabalhar com restaurantes, gastronomia e vinho. De família capixaba e origem italiana, o comer e beber bem sempre foi muito presente no dia a dia de casa: “a arte da mesa, a taça, tudo isso veio da minha família”, conta. “Até as harmonizações”, diz ela, “desde criança acompanhava minha avó e meus pais”. Se para Marina aquilo já era uma paixão, ao mesmo tempo a sommellerie era algo distante: “minha família enxergava Medicina, Engenharia e Direito como profissões”, completa. “Acabei me formando primeiro em Nutrição Clínica, conhecimento que utilizo muito hoje”, comemora.

O vinho nutre a alma

A Itália foi um divisor de águas na vida de Marina, que se dedicou muito ao curso sobre vinhos que realizou no Piemonte – já chegou lá falando italiano, uma grande vantagem. A partir dali a vida acelerou: Marina trabalhou no Le Calandre, por exemplo, um dos 50 melhores restaurantes do mundo. Uma boa forma de aprender a fazer na prática para poder empreender no que realmente queria.

“Saí do Brasil porque quis. Eu morava no Rio de Janeiro, era gerente de restaurante, mas queria ser a dona”, confessa. ”Entendi que precisava viver uma experiência fora do país, fazer uma formação no setor para montar o meu negócio”, diz, “então eu fui”.

Marina afirma que na França ser mulher e brasileira é uma vantagem. “Chama a atenção das pessoas”, diz. “No meu caso domino perfeitamente a língua francesa, mas guardo o sotaque”, afirma, “quando falo ao telefone, por exemplo, logo me identificam”. Marina reforça que é preciso estar sempre atualizada e estudando para ser capaz de ter um bom nível de troca com os franceses: “há que dormir mais tarde, estudar toda noite, acordar mais cedo. Com técnica, profissionalismo e preparação se ganha mais e mais cultura e desta forma a barreira do preconceito é transpassada facilmente”, garante.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Trabalhem muito, estudem muito, se doem muito e tenham muita resiliência. Quem fica no caminho é porque não aguenta: essa é a diferença. Para ter resultado não é fácil, não dá para ter ambição e não suportar o caminho, não se doar por inteiro.

Sobre vinhos brasileiros

Trabalho com vinho brasileiro de forma ainda muito pequena, mas tenho acompanhado muito a vinificação no Brasil, sou uma grande fã. Em 2016 fiz um encontro de vinhos brasileiros, recebi Era dos ventos, Domínio Vicari, Atelier Tormentas, Arte da Vinha, várias do movimento natural. Sou muito aberta e quero ter em 2024 uma prateleira significativa de vinhos brasileiros aqui. Há muitos anos acompanho o crescimento da produção da qualidade dos vinhos do Brasil e vejo que a população perde o preconceito pela qualidade. Uma coisa eu sempre digo aos brasileiros, sejam residentes ou turistas na Europa: entre um vinho do Mercosul e do Brasil, dê preferência ao do seu país.

Sara Mattei

Nascida em Natal (RN), mora e trabalha em Épernay, na região de Champagne, na França

Sara fechou 2023 trabalhando em um local e uma empresa com os quais muitos sonham: até 30 de dezembro era funcionária da Möet et Chandon em Épernay, Champagne, e atualmente está na Nicolas Feuillatte, na mesma região. Sommelière formada pela ABS-SP e com Diploma WSET 4, está sempre buscando evoluir na profissão, desde que era a responsável pelas degustações da Associação Brasileira de Amigos do Vinho, em São José dos Campos (SP), passando pela venda de vinhos na Grand Cru importadora e na vinícola Thera, em Santa Catarina. Na França desde 2021, trabalhou durante dois anos no Relais Châteaux L’Arnsboug, um restaurante com uma estrela Michelin e uma carta 100% francesa: “pude degustar muitos deles e me aprimorar na arte de servir a um público requintado e exigente”, conta.

Apesar das dificuldades inerentes ao idioma e aos desafios de integração com os colegas de trabalho, Sara considera que quem vem do Brasil leva algumas vantagens: ”o brasileiro é mais simpático, otimista e muitas vezes lida melhor com situações imprevisíveis”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Esteja legalmente no país estrangeiro e tenha visto de trabalho para encontrar boas oportunidades.

Sobre vinhos brasileiros

Nunca trabalhei com vinhos brasileiros aqui. Trabalhei num restaurante com uma carta 100% francesa e depois numa Maison de Champagne. Mas tenho sim algum conhecimento, inclusive já trabalhei para uma vinícola brasileira. Percebo que meus clientes não têm nenhum conhecimento do vinho brasileiro, inclusive várias vezes me perguntam se o Brasil produzia vinhos.

Itália

Carlos Henrique Mayer

É paranaense, natural de Guaíra. Passou boa parte da vida em Balneário Camboriú (SC) e hoje mora na Itália em Ravenna, Emilia Romagna, onde trabalha na KDS Food&Wines.

Graças a um negócio de família, Carlos convive com vinhos praticamente desde criança. Especialista em Enogastronomia, deu aulas de enologia e harmonização em faculdades de Gastronomia, mas foi há pouco tempo que fez o curso de sommelier pela ABS-RS. Em um determinado momento da vida, a empresa familiar foi vendida e Carlos resolveu que era hora de mudar para buscar novos horizontes, então a partir de um convite abriu uma empresa de consultoria para trabalhar com projetos de exportação de vinhos da Itália e de outros países para o Brasil.

“Foi um movimento maturado por vários anos. A ideia de ir para o exterior sempre esteve fortemente ligada à busca por experiência e aprendizado”, diz Carlos. “Eu amo o vinho brasileiro e sigo trabalhando por ele, mas queria conhecer uma realidade cultural onde o vinho exercesse um papel mais importante na economia, na cultura e no dia-a-dia das pessoas. Na Itália encontrei tudo isso em grau máximo: o vinho é algo realmente importante para os italianos”.

Trabalhar em outro país não é fácil, e com certeza algumas das maiores dificuldades estão relacionadas conhecimento. “Eu sempre me senti como um sommelier que não estudou muito pra passar na prova”, brinca Carlos. Por outro lado, ser brasileiro sim, tem muitas vantagens, principalmente quando o trabalho é focado no Brasil, como no caso dele. Mas Carlos traz também uma percepção interessante sobre a sommellerie na Itália: “vejo a profissão muito mais desenvolvida aqui. Restaurantes e lojas percebem a importância do trabalho de um sommelier e o quanto ele agrega em valor, coisa que no Brasil ainda é uma raridade”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Planeje, estude e faça conexões de forma antecipada antes de se mudar.

Sobre vinhos brasileiros

Infelizmente no pouco mais de um ano que estou aqui nunca vi um comércio de qualquer tipo que tivesse à venda algum rótulo brasileiro. Hoje em parceria com a KDS, temos realizado várias ações para fomentar a importação de vinhos brasileiros para a Itália e depois a outros países da Europa, pois sentimos que há interesse por parte do consumidor e pelos distribuidores. Aprendi que o italiano sempre foi consumidor do seu próprio vinho, mas vive um momento de descobertas e o vinho brasileiro pode encontrar seu espaço. O Brasil é exótico, diferente e atinge o consumidor mais especializado, que busca qualidade e que sabe o que é bom. Temos muitos pontos fortes para trabalhar: qualidade e produtos únicos de um país tropical, seja do Sul, da Colheita de Inverno, ou das duas safras anuais do Vale do São Francisco.

Karine Regallo Pontual Machado de Souza

Carioca do Rio de Janeiro, desde que se mudou pra Ravenna, na Itália, há 32 anos, passou a assinar Karine de Souza. É empreendedora e responsável pela KDS Food and Wine.

Pois a Karine, pasmem, era jogadora de vôlei: aos 16 anos foi contratada por um time italiano e fez as malas para atuar como profissional. Coisas da vida, um dos patrocinadores do time produzia vinhos e ela era uma das atletas que se oferecia para fazer a vindima e ganhar um extra para as férias no Brasil. Mal sabia que seria o início de uma paixão: “Já estava escrito no meu destino”, diz.

Há 24 anos a Karine tem a KDS, uma empresa de internacionalização que já trabalhou com diversos segmentos, desde cosméticos até automotivos. “Mas era muito desgastante”, lembra ela. “Chegou um momento que precisei de uma identidade, algo mais ‘eu’, então apareceu meu primeiro cliente de vinhos, que me desafiou a montar uma loja em Jurerê (SC)”. “Não deu outra”, diz ela, “me apaixonei”.

O vinho é assim, sabemos, quando entra na nossa vida, difícil de sair.

Karine segue lembrando que durante muito tempo trabalhou com sucesso, mas sem ser formada em sommellerie, o importante, segundo ela, era saber construir estratégias, conhecer os mercados e ser organizada. Formada em marketing e comunicação, a maior parte de seus projetos sempre tem essa influência. Mas uma hora decidiu ir além e começou a estudar, iniciou pelo WSET e outros cursos específicos de algumas regiões, como Bordeaux e Barolo, por exemplo. Atualmente está cursando a Associação Italiana de Sommeliers.

“O vinho no Velho Mundo é ligado diretamente à história deles e do mundo, e no Brasil a gente estuda muito pouco a história. Você precisa conhecê-la para entender o vinho”, diz. Karine assegura que o estudo é fundamental para ter mais facilidade trabalhando em outro país. “Eu não me sinto uma estrangeira depois de 32 anos na Itália”. E ser brasileira, para ela, é uma grande vantagem: “eu trabalho vendendo o Brasil, então nada mais coerente do que ser brasileira. Ninguém conta para eles sobre o Brasil como eu”, completa. E o Brasil, de acordo com Karine, é um dos mercados mais atraentes do mundo atualmente. “Eles amam essa energia e amor pela vida, isso para eles é Brasil”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Não é tudo tão simples. Antes de mais nada é preciso aprender o idioma e conhecer a geografia do país onde você vai viver. Tem que se organizar muito bem e criar conexões antes. Se informar sobre documentos e direitos – assim como deveres. Além de ter uma grana para se bancar no começo, pois para viver trabalhando com vinhos, precisa de um tempo para engrenar.

Sobre vinhos brasileiros

O mercado está bem mais aberto e pede novidades. Temos em negociação linhas de diferentes vinícolas brasileiras, como Aurora e Brocardo Vinhedos, além da Valparaiso, que fez sucesso na feira Slow Wine, em fevereiro de 2024. Além da Itália, temos pedidos de Israel e Áustria, e estamos preparando apresentações para outros mercados na Europa. Estudamos bastante e sempre os vinhos brasileiros, mas é lógico que nunca é o suficiente: o Brasil está cheio de novidades incríveis. Os italianos são muito curiosos pelos nossos vinhos, e quando contamos sobre a imigração italiana, recebemos um grande incentivo, de um certo modo eles se sentem orgulhosos por fazerem indiretamente parte do sucesso brasileiro. Precisamos informá-los: o Brasil tem qualidade e também produtos únicos de um país tropical, desde as duas safras anuais do Vale do São Francisco até a colheita de inverno. Mas eu não investiria somente nos espumantes: há muitos produtos fantásticos que acho que podem fazer a diferença aqui.

Canadá

Jill Vesolli

Catarinense de Caçador, mora em Edmonton, Alberta, no Canadá, e trabalha em uma liquor store da rede de supermercados Sobeys.

De família com ascendência italiana, Jill sempre teve vinho em casa e opção pela profissão foi praticamente natural. “Em determinado momento da vida, comecei a ler sobre vinhos e me apaixonei: mudei para Belo Horizonte, fiz o curso de Sommellerie e depois o de Gastronomia. Durante esse tempo, trabalhei na Expand, em alguns restaurantes e na Casa do Vinho de BH”, lembra.

A situação do Brasil, em especial a violência, foi o que a fez optar por deixar o país. Foi para o Canadá com o diploma da ABS Minas, mas ao chegar, não tinha ideia se conseguiria trabalhar no ramo, porém conseguiu de cara. “Aqui há poucos sommeliers qualificados, meu currículo é extremamente bem visto pelo setor de vinhos”, comemora.

Jill conta que no Canadá, como no Brasil, ser sommelier é ‘chique’, mas argumenta que lá o significado do vinho é completamente diferente. Vinho não significa status, mas sim bebida do dia-a-dia. As pessoas são simples e há bem poucos enófilos”, diz.  “É fácil esquecer tudo o que se aprendeu por pura falta de desafios, porém há bastante espaço para wine education”. O que, segundo ela é mais viável financeiramente por lá: “Ao contrário do Brasil, a certificação WSET aqui não custa uma fortuna, mesmo ganhando salário mínimo é possível pagar”. Por outro lado, diz ela, os ganhos dos sommeliers são baixos, mas é possível um crescimento rápido – não necessariamente na mesma função.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Aprenda inglês e se prepare muito bem antes. Entenda como é a legislação de bebidas alcoólicas e do que você precisa para se tornar competitivo. E escolha muito bem em qual província morar: no Canadá há duas regiões vinícolas em que há mais chance de conseguir trabalho, em Ontario e em British Columbia.

Sobre vinhos brasileiros

O setor de bebidas alcoólicas em oito das nove províncias do Canadá é monopólio do governo, é muito difícil fazer os vinhos brasileiros entrarem no mercado. Em Alberta, o setor foi privatizado há mais de 30 anos, o mercado é bem parecido com o do Brasil, sem grandes restrições, tanto que já encontrei um espumante da Miolo – e a cachaça 51 – em uma das maiores importadoras. Mas assim como o Canadá, o Brasil não é lembrado pelo vinho produzido. As pessoas conhecem Foz do Iguaçu e cachaça e geralmente ficam muito surpresas quando sabem que o Brasil produz vinho, mas o canadense adora experimentar e tenho certeza que ficariam surpresos.  Eu sou fã especialmente da Vallontano e do Atelier Tormentas e gostaria muito de trabalhar com vinhos brasileiros aqui: quem sabe um dia eu consiga encontrar alguma vinícola interessada?

 Austrália

 

Paula Rodrigues Dib

Paulistana, morou em Osasco (SP), e hoje reside na região vinícola de Barossa Valley (Austrália).

A Austrália entrou no roteiro de Paula quando nasceu seu primeiro sobrinho. Na época especialista em cafés, a paulistana cruzou o mundo para conhecer o filho do irmão mais velho. Foi amor à primeira vista: voltou para o Brasil sabendo que a Austrália seria o seu lugar, mais exatamente South Australia, a terra dos vinhos. Mas não foi sempre isso o que quis fazer. Formada artista visual e designer gráfica, Paula conduziu exposições de arte em galerias e museus de São Paulo antes de se apaixonar pelo vinho, paixão que nasceu a partir de seu envolvimento com a Gastronomia. Logo depois da formatura como Chef de Cozinha, Paula descobriu que seu interesse estava na área de bebidas, então sentiu a necessidade de conhecer mais sobre os vinhos que vendia enquanto trabalhava como gerente de bar de um restaurante dentro de um clube em Alphaville (SP).

Paula começou seus estudos em sommellerie ainda no Brasil, com o diploma da ABS-SP e a qualificação WSET 1 e 2, o 3º nível está finalizando na Austrália, onde já fez dezenas de outros cursos e especializações. Durante 7 anos no país, Paula já fez bastante: trabalhou por muito tempo na área de hospitalidade – em cafés, bares e restaurantes – e em uma das mais famosas e tradicionais vinícolas da Austrália – a Rockford Wines, além, claro de organizar consultorias, aulas e encontros de vinho, fazendo e oferecendo turismo de vinhos por diversas regiões vinícolas da Austrália.

O maior desafio de um estrangeiro, para Paula, é a comparação. “Tudo é medido com muito mais afinco se você não é nascido na Austrália, principalmente na Austrália do Sul, região em que as pessoas locais ‘respiram’ a indústria de vinhos local e julgam vinhos estrangeiros serem de qualidade inferior aos deles”. Por outro lado, ser estrangeiro tem um quê de mistério, de histórias e experiências de vida. “Todos são muito abertos ao conhecimento e a aprender sobre novas técnicas e como funciona a vitivinicultura no Brasil e em outros países”, explica. “Porém a maioria aqui adquire experiência principalmente sobre o Velho Mundo para fazer da produção australiana algo ainda melhor”, completa.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Para quem pensa em se iniciar no mundo de vinhos na Austrália, além de aprender sobre o mundo em geral, especialize-se na região em que pretende trabalhar. Como eu mencionei antes, a Austrália é muito orgulhosa da produção local. Outra dica é a escola WSET como referência para a sommellerie, mas fazer uma graduação ou diploma nas universidades ou escolas técnicas sul australianas especializadas abre caminhos para quem quer entrar na produção de vinhos, além de fazer trabalhos casuais em vindimas.

Sobre vinhos brasileiros

Não é comum encontrar vinhos brasileiros por aqui pois as taxas são altíssimas e o mercado brasileiro de vinhos de qualidade ainda é desconhecido e muito novo, se compararmos por exemplo aos outros mercados de exportação. A relação Austrália X Mundo ainda é bem restrita à Ásia e Europa, apesar de encontrarmos alguns poucos vinhos do continente americano e africano – este último um pouco mais conhecido. Não trabalho com vinhos brasileiros principalmente pela Austrália ser um país que incentiva o consumo da produção nacional. Os australianos adoram seus próprios vinhos, a história com a vitis vinifera data da época da colonização e o suporte local é riquíssimo e de muito orgulho entre a população. Tenho muita informação e conhecimento a respeito dos vinhos brasileiros, principalmente por ter iniciado meus estudos no Brasil e ter conhecido profissionais da área. De longe, a maioria dos meus clientes e conhecidos australianos nem sabia que o Brasil possui uma magnífica qualidade em produção de vinhos. Quando mencionam América do Sul pela primeira vez, os únicos países em que ouviram falar sobre a produção são Chile e Argentina. É aí que entro com histórias para contar e abro caminho para a curiosidade deles e ao final o Brasil se torna um novo local em que gostariam de conhecer o turismo de vinhos.

Priscilla ‘Pri’ Hennekam

Nascida em Natal (RN), mora em Adelaide, na Austrália, onde tem uma empresa de consultoria em vinhos. Mas tem um pé no Brasil: é também diretora de desenvolvimento de negócios da Vinícola InnVernia, localizada em Espírito Santo do Pinhal (SP).

Quando a Priscilla fez a monografia e conclusão de curso sobre enogastronomia no Brasil, conheceu muitas pessoas que trabalhavam na área, e grande parte delas era da mesa opinião: trabalhar com vinhos no Nordeste seria muito difícil, o jeito era eu sair do país. Foi o que ela fez.

Começou perto, em Mendoza, na Argentina, onde fez sua primeira formação com vinhos e de lá trouxe o diploma da Escuela Argentina de Sommelier, reconhecida através do CETT da Universidade de Barcelona. Desde então, passou nos exames introdutório e de certificação do Court of Masters Sommeliers, além do nível 3 do WSET, atualmente está cursando o Diploma na mesma instituição. Além dos estudos formais, ela viajou pela Europa durante a safra de 2018, entrevistando viticultores e ajudando ocasionalmente, e trabalhou na safra de 2019 na Austrália, país que escolheu para morar.

“Desde uma aula de vinho na faculdade de turismo eu já sabia que queria trabalhar com isso”, conta. “Mudei para a Argentina com 22 anos, sem nunca ter saído do Nordeste, sem falar o idioma e sem conhecer ninguém. Comigo somente o dinheiro do fundo de garantia, três malas e muita coragem”.

Coragem pra enfrentar os desafios do idioma e do network. Pri garante que não conhecer as pessoas e aprender diferentes idiomas foram os grandes desafios. Por outro lado, ela assegura: “nós brasileiros somos a população mais feliz do mundo, nosso sorriso na cara é admirável, os estrangeiros piram na nossa alegria e no nosso jeito brasileiro de ser”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Vá em frente, não tenha medo, passamos por sufocos, mas tudo dá certo no final. 

Sobre vinhos brasileiros

Meu sonho é trazer os vinhos brasileiros para a Austrália, hoje é bem difícil de encontrar. Eu trabalho com uma vinícola brasileira, a InnVernia, então tenho bastante informação sobre o que se faz no Brasil. Mas os australianos, via de regra, não sabem nem qual é o idioma oficial do Brasil, alguns acham que falamos espanhol. E não, eles não sabem que o Brasil produz vinhos.

Nova Zelândia

Alcides Pont Neto

É gaúcho, nascido em Novo Hamburgo, mora e trabalha na Nova Zelândia, em Central Otago, na Te Kano Estate.

Com formação nível 3 pela Wine & Spirit Education Trust, Alcides nunca pensou que estaria na Nova Zelândia, atuando como Customer Experience Manager. “Sou formado na área de Tecnologia, com graduação em Técnico em Eletrônica e Administração de Empresas”, explica. “E trabalhei durante quatro anos nisso, no Brasil”.

Apesar da origem do interior do Rio Grande do Sul, onde a colonização italiana é bem presente, foi somente há pouco mais de 10 anos que o vinho entrou na vida de Alcides, a partir da influência do cunhado Carlos Eduardo Araújo que foi formado como sommelier em uma das primeiras turmas da Fisar no Brasil.

Alcides não saiu do país para trabalhar com sommellerie, mas em 2015 resolveu viajar e conhecer o mundo. Passou pela Itália e chegou à Irlanda: em Dublin tentou a hotelaria – neste período seu consumo de vinhos era garantido pelos rótulos europeus ofertados no comércio local. Dois anos depois fez as malas e foi para Adelaide, na Austrália, conheceu os vinhedos e passou a trabalhar em um wine bar, onde além das vendas participava de várias degustações. Outros dois anos depois, a Nova Zelândia era o destino. Com a chegada da pandemia na sequência, os negócios ao ar livre prosperaram e o vinho passou a ser parte da vida de Alcides.

“Sendo estrangeiro nessa profissão, tenho que mostrar que sou tão bom quanto qualquer um vindo de um país tradicional da Europa, por exemplo”. O gaúcho diz que na Nova Zelândia o currículo é muito valorizado, mas ao mesmo tempo os empregadores sempre querem alguém com quem possam aprender algo novo. “O primeiro trabalho é sempre o mais difícil, mas depois é na base esforço mesmo. Nosso jeito descontraído, carisma, capacidade de superar obstáculos e vestir a camiseta nos destaca onde quer que seja”.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Aprimore suas habilidades de comunicação e compreenda as pessoas. No mundo dos negócios tudo se resume às relações com colegas, clientes e parceiros: um entendimento profundo sobre pessoas é mais valioso que conhecimento sobre vinho. Lidar com vinho é fácil, o complicado mesmo são as pessoas.

Sobre vinhos brasileiros

Nunca vi rótulos brasileiros na Nova Zelândia, mas gostaria muito de compartilhar e introduzir vinhos do Brasil aqui. Participei como visitante da Wine South America em 2022, e fiquei extremamente satisfeito com a qualidade dos vinhos brasileiros. Foi inspirador ver tantas regiões inovando e experimentando diferentes castas e variedades. Aqui sempre menciono que sou do Brasil e que temos bons vinhos, mas as pessoas se surpreendem. E quando falo que apenas no Rio Grande do Sul produzimos mais vinho que em toda a Nova Zelândia, a reação é ainda mais engraçada.

Japão

Alexandre ‘Ale’ Nakaoka

É paulistano, e mora em Nagoyga, no Japão, onde trabalha como importador na Pieroth.

Ale não entrou na profissão sabendo que era isso que queria. Trabalhava como tradutor em uma fábrica no Japão – onde passou a morar aos seis anos, em função do trabalho dos pais – mas estava querendo mudar de área: a vaga um uma importadora foi a oportunidade para isto. “Comecei a gostar de vinhos e foi aí que resolvi estudar sommellerie para me aprimorar. Hoje, depois de formado, trabalho como consultor ajudando hotéis e restaurantes nas escolhas de vinhos, nas cartas e nos eventos”.

O Japão é outro país, mas pode parecer outro mundo: entender a diferença de cultura e pensamentos é fundamental. Os japoneses, por exemplo, não estão acostumados com abraços ou apertos de mão. Mais do que tudo é preciso atenção as pequenas coisas.

Uma dica para quem quer seguir essa trajetória

Temos que respeitar a cultura e os modos de pensar de uma Cultura que é diferente da nossa. Mas também temos de mostrar nosso lado bom, aquilo que só os brasileiros têm, nossa aparência, nosso modo de pensar, de agir, a nossa Cultura própria.

Sobre vinhos brasileiros

No Japão, não é comum encontrar rótulos brasileiros nas lojas, às vezes alguma coisa pela internet. Na importadora em que trabalho, por exemplo, não temos. Aqui os vinhos do Brasil não são conhecidos e muitos japoneses não sabem da grande quantidade de produtores brasileiros que existem, ao mesmo tempo eles têm muita curiosidade e muitos nem sabiam que era possível produzir vinho no Brasil.

 

Para sugestões de matérias escreva para pauta@brasildevinhos.com.br
As matérias publicadas em nosso site podem ser reproduzidas parcialmente, desde que constando o crédito para Brasil de Vinhos e publicando junto o link original da reportagem.

Compartilhe esse conteúdo com alguém
que possa gostar também